terça-feira, 14 de junho de 2016

Km 24 12h Running de Valladolid

    




 12 HORAS RUNNING DE VALLADOLID

  11 de junho de 2016



           Porquê ?

        Estranha insistência a minha em me desafiar e me repetir em competições deste género,  cujo objectivo passa por dar voltas e mais voltas, a um curto circuito de algumas centenas de metros, junto de umas escassas dezenas de atletas.  Viver durante 10,12, 24 horas junto das mesmas pessoas. A ouvir os mesmos incentivos, as mesmas palavras de animo. Ver os mesmos rostos, as mesmas caras de dor, de sofrimento, de alegria, de dever cumprido. A ouvir os mesmos lamentos, os mesmos queixumes, as mesmas palavras de ordem. Foi assim em Vigo e Barcelona. Foi assim em Vale de Cambra e em Lousada. E foi exactamente assim em Valladolid.
         Quem experimenta sempre repete. Quem gosta, vai amar, vai desejar, vai ansiar pela próxima oportunidade de colocar à prova a sua resistência, e descobrir até onde pode ir a sua capacidade de sacrifício e de superação. 
          E porque vale a pena participar em desafios desta natureza?           E porque vale a pena fazer uma directa, e conduzir durante mais de 400 quilómetros?
          Por tudo e mais alguma coisa.
          Mas porquê? Porquê?

         Porque me acompanha o mais jovem, ambicioso, persistente, e louco ultrafundista galego. 
           Porque à nossa espera está um dos melhores e mais humildes atletas espanhóis, que apesar de ter pela frente o objectivo de ganhar a corrida, passa a noite, também ele em claro, aguardando-nos para nos oferecer um lugar onde possamos descansar durante pouco mais de uma hora.
           Porque estes desafios nos permitem descobrir novas e boas amizades. Na cidade de Zamora, um terço da participação individual  toma o pequeno almoço e parte rumo a Valladolid.
        Porque estes desafios vão muito além do carácter competitivo. A trinta minutos do início, tomamos um último café juntos.  Uns com leite, outros apenas café, mas um de nós: Vou surpreender-vos. Quero uma caña!


         Porque estas corridas suscitam grande interesse dos locais, e porque se realizam em centros de grande aglomerado populacional, os mirones são vários e muitos. Como comprova o diálogo que mantive com um deles,  que aguardava, com apenas 2 horas de prova, o término desta.
          -E isto quando termina?
          -Ás 10.
          -Da noite?
          -Sim. São 12 horas de prova.
          -Vamos tio. Hay que tener cojones. Mucho animo!
         Porque só em eventos deste género se pode encontrar uma senhora, que durante as doze horas não se cala nem pára um só segundo. Gritando e caminhando anima -nos durante toda a prova.
           -Vamos chicos. Vamos chicas.  Animo. Mucho animo.
          Recordando uma frase do género que escutei na Cidade do México ( No pares de correr, yo no paro de gritar!), a determinada altura também lhe gritei: No pares de gritar, yo no paro de correr! Naturalmente que eu parei de correr a determinado momento, mas ela nunca parou um só segundo.
           Porque só aqui podemos ver uma iniciativa solidária paralela à prova, onde deficientes, idosos e crianças, acompanhados de voluntários, vão circulando a nosso lado ao longo do percurso. Os chamados camisas azuis, dão outro colorido à prova.


           Porque só aqui se vivem momentos agradáveis como quando um miúdo, de camisa azul, para de correr e vai caminhando a meu lado:
           - Já estou cansado!
         - Como estás cansado? Eu estou a correr à
ha 9 horas e ainda não me cansei.
           - Nove horas? Chiça! Eu também já dei 14 voltas.
           - Não me mintas, catorze voltas são catorze quilómetros.
           -Si, es verdad, que las vengo contando.
           Porque me emociona o momento em que um adolescente me pergunta se vou oferecer a bandeira no final. Infelizmente tive que lhe dizer que não. Recordando os desafios em que coloquei esta mesma bandeira sobre os ombros,  a resposta só podia ser uma.
           Porque a partir de determinado momento já me sinto o mais popular dos portugueses. Todos me tratam pelo meu nome, e até o speaker carinhosamente me trata por nuestro português.
         Porque na última hora de corrida, ponho à prova a minha resistência, quando um atleta com o mesmo número de voltas que eu, me tenta alcançar. Consigo resistir durante 3 voltas, onde faço as voltas mais rápidas das 12 horas. Por fim desisto, ele é mais forte que eu. Anda, vai lá. Querias passar-me? Conseguiste. Mereces o lugar mais do que eu. Te lo mereces!


           Porque no final não há primeiro nem último. Há 28 valentes guerreiros e guerreiras. Que sofreram e lutaram. Que riram e choraram. E no final todos dão os parabéns a todos sem excepção. É das poucas provas desportivas em que os atletas se animam uns aos outros, independentemente das posições que vão ocupando. Não há competição nenhuma em que exista tanto companheirismo e amizade como nesta.
            Porque com maior ou menor dificuldade, mais depressa ou mais devagar, a correr ou a caminhar, completo um total de 92 voltas, qualquer coisa como 86 quilómetros. Números que me deixam com a certeza de dever cumprido.
        Porque uma vez mais a organização esteve irrepreensível. Nota 10. Animação, circuito excelente, com sombras em quase toda a totalidade do recorrido. Naturalmente que houve situações desagradáveis, como o pó que me incomodou e provocou muita tosse na primeira passagem, quando o grupo estava mais coeso. O abastecimento também não era o mais rico, embora a mim não faça mossa, porque me muno sempre da minha marmita.
             E pronto. São razões suficientes?
          Talvez não. Mas já em pleno bar, a celebrar com cerveja junto do clã Zamorano/gallego, me aborda um dos atletas que participou por equipas, e me pergunta: Vieste de propósito para a prova? Sou peremptório em responder. Sim. Sim. Só para isto! E mais uma vez não tenho dúvidas.......VALEU A PENA!!
          
   


    


          

domingo, 3 de abril de 2016

Km 23 - 100 km Portugal/Lousada

 

100 KM PORTUGAL-LOUSADA
 

  2 de Abril de 2016

 
 
 

 
         Alguns nomes, curiosidades, e incidências, em 100 km !

          1km Lousada, 2 de abril de 2016. 9:30h.
          2kms Objetivo: terminar antes das 12 horas.
          3kms Depois de concluída, atingiria pela 5ª vez os três dígitos num desafio.
         4kms O que estou eu a fazer aqui? Estava tão bem na caminha.
          5kms E podia ter ficado mais meia horinha a dormir. 
          6kms Estranhamente, e com uma justificação difícil de engolir, a corrida é adiada em 30 minutos.
          7kms Primeira volta e uma certeza. Vai ser duro, exigente, e doloroso. O circuito não é o mais apropriado para uma prova de 100 km.
          8kms Vou na terceira volta, mas já sou dobrado pelos 2 primeiros. Que ritmo! Estão a rodar a 4´/km.
          9kms Saindo da pista de tartan, deparamo-nos com um sector em terra batida. Uma subida que teríamos que vencer em 43 duelos.
          10kms Se a subida era dura, a descida que se lhe seguia veio a revelar-se ainda mais difícil de ultrapassar. Parece mentira, mas as pernas não mentem.
          11kms Depois, seguia-se um sector de asfalto, também ele em sobe e desce, antes de entrarmos de novo em pista e partir para mais uma longa volta.
          12kms Inicio a prova, á semelhança do que faço nas provas de 24 horas, a um ritmo lento, sabendo que há que guardar energia para a segunda metade do desafio.
          13kms O percurso é duro e volta após volta o corpo vai acusando tamanho esforço. Mais do que a chuva e o frio, este terá sido um dos fatores que ditou mais desistências. 
          14kms Estamos ainda no inicio de prova, não há muito para contar. Vou avançar alguns quilómetros até encontrar motivos de interesse. Dois quilómetros são suficientes para ordenar as ideias, e encontrar inspiração.
          15kms
          16kms
          17kms  "Aí vai o expresso de Braga." Foram as palavras de Daniel Cerzón quando o alcanço na corrida, depois de um início mais ousado da sua parte.
          18kms Daniel Fernandez Cerzón. Um amigo e  grande aventureiro que apesar da tenra idade, se vai desafiando cada vez mais. Antes mesmo de ter corrido uma meia maratona, aventurou-se numa prova de 24 horas. Estreamo-nos juntos nas 24 horas, e agora também nos 100 km. O que mais se seguirá?
          19kms Somos 76.
          20kms Estranha a insistência do speaker em nomear apenas os primeiros da classificação e os atletas mais mediáticos a cada passagem pelo pórtico de meta. Não gostei. Fiz questão de lhe recordar quantos eramos.
          21kms Mais um atleta a passar pela linha de meta. Paulo Machado vai para a volta número ...
          22kms Não. Não era eu. Um atleta homónimo. Por sinal melhor do que eu, o que acabou por confundir alguns amigos que me acompanhavam desde casa.
          23kms Mas a história da prova diz que apenas um Paulo Machado haveria de acabar o desafio.
          24kms No final desta volta paro. Preciso da minha sopinha.
          25kms Uma volta mais e tenho que comer alguma coisa. O que é que eu trouxe mesmo na marmita?
          26kms Sopa. Pão com queijo. Sopa. Um quadrado de chocolate. Sopa. Um bolinho de bacalhau. E a dieta funciona mesmo.
          27kms Bem. E agora para beber? E porque preciso de me hidratar...
          28kms  Água das Pedras.
          29kms Havia prometido enviar uma mensagem para uma pessoa muito especial a cada 10 quilómetros concluídos.
          30kms Mensagem número 1: já tenho 50 km...de carro.lol 
          31kms Mensagem número 2: 20 km. 2 horas tou muito forte
          32kms Mensagem número 3: 30 km
          33kms Ainda não leu nenhuma das minhas mensagens. Eu prometi enviar uma mensagem a cada 10 km, mas ela não prometeu ler.
          34kms O quilometro de/e em que  José Manso me diz que vai desistir. A corrida perde nesta altura um dos grandes motivos de interesse. Que saudável e grande luta estavam a travar os lideres da prova.
          35kms Uma vez mais, sempre que coincidimos numa prova, José Manso fica longe dos seus objetivos.
          36kms José, juro solenemente, para teu bem,  nunca mais me inscrever numa prova em que vás participar.
          37kms Recomenda-se que se coma uma francesinha, bem regada com cerveja, e para terminar uma super/híper/mega sobremesa na noite anterior a uma corrida de 100 km?
          38kms  Foi assim com José Manso, José Luís Garcia, David Papiol, e Paulo Machado.
          39kms  Fizemos 335 quilómetros, dos 400 que pretendíamos fazer.
          40kms Olha! Um fotógrafo. Esboço um sorriso ou faço uma careta?
          41kms Tenho que treinar o meu lado fotogénico, nunca me agradam as fotos em que me vejo.
          42kms Na ausência de público, procuramos animação nestes breves instantes fotográficos.
          43kms É quase nula a presença de público, e para colmatar a lacuna anima-mo-nos uns aos outros.
           44kms Foi particularmente bom ouvir os incentivos de atletas/amigos. Pablo Martinez, José Sousa, Carla André, Fernanda Alves, José Manso, José Garcia, David Papiol, Daniel Cerzón ( Força Pauliño), Adriano Queirós, e todos os outros de que não sei o nome. E a todos os que me enviaram mensagens via telemóvel ao longo da corrida, um muito obrigado. Esta corrida e conquista é vossa também.
          45kms Pelas 3h da tarde chegam mais animadores. Começa a maratona, individual e estafetas, e ouvimos constantes palavras de incentivo.
          46kms "Força. Está quase". Não estava quase, nem havia força. Por breves instantes ainda consigo acompanhar algum/a maratonista. Muito breves mesmo.
          47kms Estou cansado. Demasiado cansado. Dói-me quase tudo. Pelo menos da cinta para baixo não é fácil encontrar um ponto que não me doa.
          48kms Já fiz referência á dureza do percurso?
          49kms Já mencionei que eram mais duras as descidas do que as subidas? Ótimo.
          50kms Miss simpatia I. Fernanda Alves. A atleta gaiense, como mais tarde viria a saber, espalhou simpatia ao longo da prova. Sempre de largo sorriso, fones nos ouvidos, e uma passada lenta e ritmada, aproveitava as ocasiões em que se cruzava com os restantes adversários, para animar e incentivar . E de polegares espetados perguntava: "Está tudo bem?"
          51kms Miss simpatia II. Carla André. A futura representante de Portugal na edição deste ano da Badwater, não escondia a sua satisfação a correr. Sempre de sorriso estampado no rosto; é verdade que com o passar dos quilómetros foi esmorecendo; mas  era sempre bem visível a sua satisfação.
          52kms Aproveitando a referência  ás senhoras, uma mais merece nota de destaque. Analice Silva. A caminho das 80 primaveras, concluiu a prova alguns minutos depois de mim. Velhos são os trapos.
          53kms Começo a sentir náuseas. Mais do mesmo, 5/6 horas de prova e é isto.
          54kms Reduzo o ritmo. Caminho mais do que corro. E sem recorrer a uma paragem, consigo reduzir o mal estar.
          55kms São perto de 30 quilómetros que faço a um ritmo demasiado lento. 
          56kms Sem tática pré definida, deixo-me levar pela vontade da corrida. Uma primeira fase bastante rápida, até perto dos 50 km. Depois um período mais lento, quando as náuseas me pedem que abrande. E por fim, uns últimos 25 km ao ritmo desejado para cumprir objetivos.
          57kms Tenho frio. Preciso de um banho quente e quero a minha cama....
          58kms Grandes malucos. Quem vos desse juizinho!
          59kms Correr 100 km é coisa de doidos. Mas a felicidade é feita de pequenas loucuras.
          60kms Por esta altura já havia vencedor. Luís Gil, com um impressionante tempo de 7:24h, passava o pórtico de chegada pela última vez. Um tempo de referência mundial para um estreante neste tipo de provas.
          61kms Havia vencedor, e havia chuva.
          62kms A partir das 7:30h de prova havia que contar com mais um fator negativo, a chuva. Ao frio, e ao  declive do percurso, agora juntava-mos a lama e os charcos de água.
          63kms Vou só buscar um saco de gelo. Já volto para terminar a crónica. 
          64kms Onde é que me dói mesmo?
          65kms Ah, sim. O tornozelo.
          66kms Ora, onde é que eu ia?
          67kms Isto de correr 100 quilómetros é só desvantagens. Até para escrever crónica. Chegamos a uma altura em que não sabemos o que escrever.
          68kms Em que pensas quando corres 100 quilómetros? Por vezes em nada, e aproveito os próximos 3 quilómetros para vos contar o que penso nesses períodos.
          69kms
          70kms
          71kms
          72kms Queria tanto  tomar café, num período em que caía a noite, fazia mais frio, e a chuva não havia forma de parar. Pedido rejeitado. Não havia.
          73kms Juro solenemente nunca mais me meter noutra.
          74kms Estou agora a pensar que já tenho compromisso na Serra da Estrela para fins de Maio.
          75kms Ah! Mas são só 90 quilómetros, e hoje são 100.
          76kms Como custa dar uma volta a um percurso de 2.3km cheio de subidas e descidas.
          77kms Como custa dar uma volta a um percurso de 2.3km sem grandes motivos de interesse, repetitivo e aborrecido.
          78kms Como custa dar uma volta a um percurso de 2.3km e ser-nos suprimida uma volta.
           79kms Segundo as minhas contas, e porque a cada volta consultava o cronometro e o número de voltas, deveria ter chegado aos últimos 25 quilómetros na volta anterior. Erro meu, ou erro do sistema de cronometragem? Outros aletas se queixaram do mesmo. A alguns foi corrigido o erro. Quanto a mim, talvez tenha feito 102,3km.
          80kms  Últimas 9 voltas ao circuito. 2.35h a diferença que me separa das 12h de corrida. As contas dizem-me que tenho que correr os quilómetros que restam, já não basta caminhar. 
          81kms Tenho que concluir as últimas voltas a uma media de 16'/17' por volta. Não posso baixar os braços numa altura em que estou tão perto de atingir o objetivo.  Já não posso caminhar. Tenho que correr.
          82kms Ainda não estás cansado?
          83kms Estou. Estou cansado e cheio de frio. Dói-me o joelho direito, o tornozelo esquerdo e o meu amigo aquiles. Estou encharcado até aos ossos. Não sinto as mãos nem os pés.
          84kms E não vais parar?
          85kms As pernas dizem-me para parar, mas a cabeça não me permite.
          86kms Já não há subidas nem descidas. O corpo está de tal forma educado que o percurso parece todo ele plano, tal como havia garantido a organização.
          87kms "Vamos Paulo, vas folgado". Diz-me José Manso. Não, não vou folgado nem fresco, mas vou com ganitas  de alcançar o objetivo.
          88kms Enquanto tomo um merecido banho no final da prova, ouço palavras no balneário que me enchem de grande contentamento. Um dos atletas presentes tece rasgados elogios ao atleta espanhol que desistiu, mas que permaneceu ao longo do percurso, debaixo de chuva torrencial, a apoiar todos os atletas.
           89kms  Este é José Manso. Com ele partilhei pista em 4 provas de 24 horas. E desde o primeiro momento não tive dúvidas. É o mais humilde dos atletas que tive oportunidade de conhecer. Nas provas onde entra, e entra para ganhar, ele não é a estrela. Para ele, as estrelas somos nós. Nós, os audazes aventureiros que apenas nos propomos a terminar os desafios.
          90kms Já somos muito poucos em prova. Alguns já terminaram, outros desistiram. Os quilómetros são feitos cada vez mais a solo.
            91kms Já acabou a prova?
          92kms O pórtico já havia sido retirado. Segundo a organização devido ao vento que o derrubou.
          93kms Também a organização devia ser recordada que eramos 76, nesta altura talvez uns 10 apenas, mas merecíamos um pouco mais de respeito e consideração. 
          94kms O pórtico e o  relógio que nos servia de referência  haviam sido retirados. O speaker havia-se calado. E aquele momento que tanto havia ansiado ao longo das 12h não se concretizou.
          95kms Só queria entrar para a última volta e escutar: Paulo Machado entra na sua última volta.
          96kms Entrei para a última volta, e terminei como se tivesse chegado a casa após um longo e exigente treino. Sem o entusiasmo e emoção que costumo sentir nestes desafios...e desta vez não verti lágrimas de felicidade.
          97kms  Dos 76 atletas que iniciaram a prova, apenas 42 a concluíram. A exigência da mesma, acabou por ditar as suas leis. 
          98kms Dos fracos não reza a história, e mesmo depois de terminar, tomar o meu banho e jantar, ainda havia atletas em pista. Alguns estavam na última volta, e pouco importados com a hora tardia. Mais do que uma competição, estes são desafios pessoais.
          99kms Vamos Dani, ahora termino! Quanto a ele, ainda lhe restam um bom par de voltas.
          100 kms Pronto. Já está. Em menos de 12h como desejado.

                           EU CORRI 100 KM EM 11:58h
 

 

quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

km 22 - 24 HORES D'ATLETISME de BARCELONA



24 HORES D'ATLETISME de BARCELONA
 

                  19/20 de dezembro de 2015



 
                                              "No pares. Sigue. Sigue. No pares!"
 
 
Apresentação dos atletas
 
                                                                               

        Apenas mais uma crónica de uma corrida de 24 horas!

         Vais correr uma prova de 24 horas? Então mentaliza-te que não podes parar.
         Durante 24 ininterruptas horas, passe o que passe, as tuas pernas não podem parar.
         Pode chover, fazer frio ou calor. Podes estar cansado, dorido ou desmotivado, mas as tuas pernas não podem parar.
         E eu não paro!
         Sábado, 19 de dezembro de 2015. Can Dragó, Barcelona.
         E  eu não paro!
         Soa o meio dia, e começam as duas competições mais longas da jornada, as provas de 24 e de 12 horas.
         E eu não paro.
         Pelo meio outras provas se seguem. A primeira a disputar-se é  a animada prova de eliminação, onde o último de cada volta é eliminado. A prova de 6 horas, onde são batidos 2 record, um espanhol e um internacional, é a prova onde sobressai a capacidade ultra das senhoras. 10000 metros, 5000 metros, maratona e meia maratona são as restantes categorias,
         e eu não paro.
         Mesmo quando sou obrigado a caminhar mais tempo do que o previsto,
         eu não paro.
         Mesmo quando vou á minha zona das boxes, preparo uma sandes, bebo um pouco de água,
         eu não paro.
         Mesmo quando se cumprem as 6 horas de corrida e ainda não atingi os desejados 50 quilómetros de prova,
         eu não paro.
         Mesmo quando me sinto mais cansado do que nunca. Mesmo quando as pernas não correspondem á minha tentativa de correr, e se limitam a caminhar,
        eu não paro.
        Correr 24 horas é  isto...É estar durante 24 horas a correr ou a caminhar.
        Para isto se preparam os grandes ultra-craques que têm junto de si um numeroso staff de apoio, na sua maioria familiares, mas que lhes prestam assistência durante a longa jornada.
        Mas mesmo assim...
        eu não paro.
        Mesmo quando tenho necessidade de ingerir café, e abandono a pista e o recinto desportivo para comprar um aguado copo de café no bar contíguo...
        eu não paro.
        E porque muito gentilmente o senhor que me atendeu, se pontificou a levar-me o café á pista,
       eu não paro.
       Reparo que adicionou leite ao café, como é hábito em Espanha. Saliento-lhe que pedi solo,  sin leche.
        E eu não paro,
        porque me diz que na próxima volta já terá o meu café "solo".
        Mesmo que por mais duas vezes tenha que abandonar a pista e adquirir, destas vezes duplo café solo, num local onde já sou cliente habitual,
        eu não paro.
        E corro, corro, corro.
        Caminho, e corro, corro, corro.
        Mas não paro.
 
Primeiras horas de prova
 
        Rejeito a sopa de galinha, mas aceito a massa que me oferecem os simpáticos voluntários; nomeadamente o voluntário mexicano, que com divertidos cartazes ia incentivando os atletas; e vou caminhando e comendo,
        mas não paro.
        A noite trás mais frio. As horas trazem mais cansaço. A tabela classificativa trás desmotivação. Mas mesmo assim,
         eu não paro.
         Vou na volta número...não faço ideia. Já perdi a conta ás voltas que dei. Ao meu lado, o atleta mais velho do grupo. Cheio de experiência e sabedoria, vai-se lamentando por, prova após prova, vir fazendo menos quilómetros. Soma 76 anos e  provavelmente um número de quilómetros nas pernas que a memória não consegue especificar. Mas mesmo assim, e porque me diz que esta é provavelmente a sua última prova de 24 horas, ele não para....
         e eu também não.
 
Escutando a voz da experiência
 
         E não paro...
         quando sou surpreendido na pista pelo senhor do bar: Paulo, tu café. Te regalo.
         Durante algumas voltas vou pensando neste gesto. E penso, corro, caminho e penso, mas...
        não paro.
        São 2:30h de domingo. Cumpridas 14:30h de prova. A tabela classificativa que consultei antes de me dirigir  ás boxes diz-me que levo 97 quilómetros.
        Sento-me na minha cadeira, como sempre faço, mesmo que por breves instantes.
        Mas desta vez permaneço mais tempo sentado. Faço contas de cabeça. Levo concluídos menos quilómetros do que desejava para esta altura. As minhas contas dizem-me que é impossível chegar aos números que pretendia para o final da prova. Caio em tamanha letargia e...
        ...
        ...
       paro.
       Durante uma. Duas. Três. Quatro horas e meia.
       Eu paro.
       Neste intervalo de tempo faço de tudo, menos o que mais desejava...descansar e dormir. Dormir, é impossível porque esta demasiado frio. Descansar, e porque a comodidade para o fazer não existe, está fora de questão.
       Dois dos meus vizinhos passam semelhante dificuldade. Também eles cansados, desmotivados, e longe dos seus objetivos. O primeiro, um jovem atleta francês, que tentava a qualificação para o Spartathlon, está retirado da pista com uma enorme bolha no pé. O segundo, um velho conhecido, o grande amigo José Manso, faz também um mais longo período de descanso uma vez que a corrida não lhe está a sair como desejava.
      E eu paro.
      A noite está particularmente difícil de se passar. Decido-me a ir tomar um banho e a vestir roupa mais quente e confortável. Depois de o fazer, e porque não consigo permanecer sentado vendo as horas passar, faço-me de novo á pista. A caminhar muito lentamente vou completando uma e outra volta.
     Ao fim de 8 voltas de tartaruga, chego finalmente aos 100 quilómetros.
 
 
     Sete horas da manhã e começa a raiar o dia. Nova investida ás boxes para colocar de novo a roupa de corrida, e a partir daqui
     não paro.
     Á semelhança das provas de 24 horas anteriores, este é o período em que me sinto melhor. Também, fazer 24 quilómetros em 5 horas, não é nada de extraordinário. Mas
     não paro.
     E até ás 12 horas de domingo...
     eu não paro.
     Minto. Vou fazendo pequenas paragens para comer e beber. E uma paragem obrigatória mais, alguns minutos antes de soar a buzina, para colocar a bandeira nacional sobre os ombros. Mas mesmo assim, com estas pequenas paragens,
    eu não paro.
    E quando soa a buzina, e se cumprem as 24 horas do desafio...
    ...
    ...
    ...
    ...eu paro.
    Penso em tudo e mais alguma coisa. Afinal foram 24 horas onde se faz de tudo. Conversa-se, come-se, bebe-se, descansa-se. Conhecem-se adversários, fazem-se amizades. E no final, ainda sobra algum tempo para se correr. Mas é bom que aproveites esse tempo, porque no final podes lamentar-te por não teres passado mais tempo a correr do que fizeste.
    E quando soa a buzina, nada mais conta. Se estas parado, a caminhar ou a correr, já nada importa. O que importa é a pergunta que te fazes no final. Valeu a pena? E a resposta a esta pergunta já todos a sabem...
 
 

    


    

    Sejam vocês também felizes nas pequenas coisas que fazem. E se este ano já é escasso para cumprirem os vossos desejos, aproveitem o que aí vem.
     Esta vida são dois dias, e três já passaram.

                                                   FELIZ 2016!


         
         

terça-feira, 8 de setembro de 2015

km 21 - II 24 Horas De Vigo



II 24 HORAS DE VIGO
 

29 e 30 de agosto de 2015


 
 
                                 "Tengo que ser bueno, si tanto me animan."
                                          
                                                                     Jose Manuel Conde
                                                                                                       1º lugar nas 24 horas de Vigo 2014
          


   Coisas a fazer antes de morrer:
       Correr as 24 horas de Vigo!

         Não deixa de ser estranho que dos 18  atletas presentes na prova do ano passado, 12 deles tivéssemos repetido a façanha, mesmo que o ano passado tenhamos dito que aquela era a última vez. Mais estranho ainda o fato de, com a exceção de um deles, todos tenhamos feito mais quilómetros que o ano passado.
         Pois é, Castrelos é isto. Castrelos tem esta mística sobre nós. Castrelos é mágico, é especial, é único. E as 24 horas de Vigo vai continuar a ser a prova rainha em corridas do género. Se o ano passado a organização esteve perfeita, este ano superou-se ainda mais. Se os voluntários foram simpáticos  e atenciosos, este ano foram ainda mais. E depois, todo o clima de festa, desportivismo, companheirismo, entreajuda, amizade, dedicação, esforço, em mais nenhuma outra corrida atinge o patamar que estas 24 horas nos proporcionam. Todos estes predicados são suficientes para classificar a experiência de correr esta prova; quer seja individual ou por equipas; como uma das coisas a fazer antes de morrer? Eu não tenho dúvidas. Quando estiver prestes a morrer, e me perguntar se esta vida valeu a pena, eu saberei responder: Corri as 24 horas de Vigo. Valeu a pena viver. Corri, caminhei, comi, bebi, vomitei, gritei, incentivei, sorri, suei, chorei. Senti calor, frio, dores, sede, fome, sono, medo. Mas no final estava feliz. M.u.i.t.o feliz. Mesmo quando vertia lágrimas de felicidade, que tentava disfarçar com a bandeira que tinha comigo, estava feliz. Cansado. Destroçado. Mas f.e.l.i.z.

Obrigado Castrelos! 
#24HorasSolidáriasEmVigo


        O ano passado referi que o público de Castrelos foi tão incentivador, que lhe atribuí parte da façanha que foi alcançar a quilometragem que atingi, e referi que Castrelos também correu por mim. Este ano tocava-me a mim correr por mais alguém. Não bastava fazer os 124 km do ano passado, tinha que fazer alguns mais por uma iniciativa muito especial. A campanha #24hHorasSolidariasEmVigo, cuja receita revertia a favor de uma menina de Vila Real portadora de uma doença rara, a Joaninha, acabou por atingir um patamar de participação aceitável, cujo valor final, que era de 4.75€ por quilómetro, chegou aos 772.25€. Um total de 45 pessoas aliou-se á minha causa, e todos juntos conseguimos esta bonita soma que a Joaninha vai agradecer com toda a certeza. A todos os que se juntaram a mim, amigos, familiares e anónimos. De Portugal, Alemanha e de  Espanha. Um muito obrigado!
         A Renato Lopes, Sílvia Costa, Biobrassica, Helena Mourão, Solange Cabral, Viviana Alvelos, Mafalda Alvelos, Patrícia Duarte, Daniel Cerzón, Ana Rita, Paula Sofia, Patrícia Soeiro, Isa Ouveira, Juliana Ribeiro, Eurico Barbosa, Tó Salgado, Fátima Roxo, Michael Lopes, Daniel Sousa, Lucília Roxo, Marcelo Pereira, Tiago Machado, Rogério Félix, André Martins, Sandra Chaves, Armando Carvalho, Susana Rodrigues, Juan José, Rui Borges, A.S., Pedro Videira, Carla Susana, Silvina Coelho, Cristina Cardoso, Maria Real, Liliana Adegas, Ana Silva, Carlos Henrique, Vânia Sousa, Adélia Teixeira, Tânia Onofre, Carlos Torres, Fernando Lopes, Emília Machado, um bem haja. A Joaninha agradece.
A pequena Joaninha


      Uma corrida que tu não consegues controlar.


         Correr durante 24 horas tem esta particularidade. Nunca, em momento algum, consegues controlar a corrida. E esta falta de controle sobre ela, começa muitas horas antes. Não consegues controlar as emoções que vais sentindo. Não consegues controlar a falta de sono, de apetite, e o nervosismo que precede o tiro de partida. Não consegues controlar o ritmo alto ou baixo que vais impondo volta após volta. A cada quilómetro, a cada hora, por mais contas que faças, é sempre a corrida que te vai dizer quando deves correr e qual o ritmo, quando deves caminhar, parar, descansar, comer, beber ou desistir.
         Parece confuso partir para um desafio em que por mais contas que faças, por mais objetivos  que te vais impondo de hora a hora, estes acabem sempre por nunca corresponder ás tuas espectativas. Por isso, o melhor que tens a fazer é não subir demasiado a fasquia e ir-te impondo objetivos mais curtos, que a corrida se encarregara de ir subindo até ao soar do gongo.
         E se o objetivo de chegar aos 124 km do ano passado foi conseguido pelas 18 horas de corrida, havia que partir para novos patamares. Chegar aos 140 km de Vale de Cambra. F.e.i.t.o. Novo desafio. Chegar aos 150, a distância mínima que me havia proposto antes da corrida. A.l.c.a.n.ç.a.d.o. Depois fui somando os quilómetros extras que a corrida me proporcionou, num total de mais 7. Satisfeito? Muito satisfeito, mas com uma leve sensação de que podia ter feito mais 3 quilómetros. Três míseros quilómetros que o maldito controle que a corrida exerceu sobre mim, não me permitiu alcançar. 
Obrigado Fotografos!


     Tenho que ser bom, se tanto me apoiam e animam.

     Vamos Paulo! Lo estas haciendo muy bien! Animo campeon! Escutar isto uma vez sabe bem. Escutá-lo duas vezes sabe ainda melhor. Escutá-lo volta após volta, quilómetro após quilómetro, sabe extremamente bem. Todo este carinho e simpatia começa ainda bem antes do início do desafio, quando sou recebido de forma entusiástica e carinhosa por voluntários e organizadores.  Quando tenho a oportunidade de rever e cumprimentar adversários e amigos do ano passado. É verdade que com a grande maioria fui mantendo contato, quer através das novas redes sociais, quer revendo em provas onde nos cruzamos. Quanto aos outros, passaram-se 365 dias, mas foi como se não houvesse passado um só dia desde o último encontro. Já as palavras de incentivo, foram uma constante ao longo das 24 horas. Por vezes sentia-me mesmo incomodado por ser motivo de tantos ânimos, mas só havia uma forma de agradecer tamanha dedicação, continuar a somar quilómetros, e ser bom. Tinha obrigatoriamente de ser bom,  não me restava outro remédio.
          O aproximar do meio dia está próximo, e aqui estamos nós, prontos a reviver as mesmas emoções da primeira edição e na tentativa de nos superar-mos uma vez mais e ainda mais.
         Trinta segundos para o início da corrida, e ainda alguns atletas correm á tenda para colocar o esquecido chip. Eu sou um deles.
          Diez. Nueve. Ocho. Siete. Seis. Cinco. Cuatro. Tres. Dos. Uno. Cero. Que empiece la segunda edicion de las 24 horas de Vigo!
             A partir de agora é todos juntos e cada um por si. Uns mais rápidos, e audazes.  Outros mais lentos e cautelosos. Ora agora acompanhando e incentivando o primeiro. Ora agora acompanhando e incentivando o último.  As primeiras horas correm substancialmente bem a todos. Estamos frescos, cheios de energia, e somos ambiciosos.  Horas depois, já o cansaço se faz sentir e o calor vai fazendo os seus estragos. As pernas começam a fraquejar e o cansaço é notório. Ainda antes das 6 horas de prova completo os 50 quilómetros. Geni, amiga, atleta  e  voluntária, pergunta-me que tal estou. Até agora bem, já cheguei aos 50, mas vou demasiado rápido. Tinha razão, porque quando chego ás 9 horas de prova, o cansaço, o calor, a má ou exagerada hidratação começam a fazer-me estragos. Durante cerca de uma hora tento recuperar das já afamadas náuseas que costumo sentir. Depois de recomposto, troco completamente de roupa, visto um casaco porque está frio e regresso á pista. Corro os primeiros 200 metros e sou obrigado a retirar o casaco. O suor corre-me literalmente pela rosto abaixo. Começo  a temer estar a contas com alguma enfermidade. Mas não. A alta concentração de humidade, que segundo a organização era de 95%, causam este desconforto, apesar do ligeiro frio que se faz sentir. Até ás 14 horas de prova, quer a correr, quer a caminhar, atinjo os 100 quilómetros. Na ânsia de os alcançar, talvez tenha forçado um pouco mais o andamento, o que me obriga a nova paragem mais prolongada. Desta vez  não tenho tanta  facilidade em eliminar as náuseas, e só o consigo depois de vomitar várias vezes. Talvez tenha sido o melhor que me aconteceu, porque até ao final não voltei a sentir-me indisposto.
       A noite torna-se particularmente dolorosa e difícil de enfrentar. Não há música, o som do speaker calou-se. O pouco público resistente vai dormitando. Chega o cansaço, dores musculares, que de forma bastante dolorosa mas eficaz, são atenuadas com o bom serviço da equipa de fisioterapeutas que prestam auxilio aos atletas individuais. Preferia as dores que sinto a correr, a ser submetido a tamanha e dolorosa tortura. O sono começa a apertar. Por momentos, coloco uma mão sobre as fitas delimitadoras da pista, e vou caminhando de olhos fechados, tentando apaziguar o sono.
         Vai amanhecendo e começam a surgir os primeiros raios solares. O bom ambiente regressa a Castrelos. Volta o som ambiente, regressam os incentivos, e na pista gastam-se os últimos cartuxos. Gasta-se o que resta de força e energia. Eu sinto-me particularmente bem nesta altura. Já atingi o primeiro grande objetivo, superar os 124 km do ano passado, e os dois próximos estão a caminho. Ultrapassar os 140 de Vale de Cambra, e depois alcançar uma quilometragem entre os 150 e os 160. Apesar de correr e caminhar a espaços, os períodos de corrida são feitos com grande frescura. Estranhamente não sinto dores nem sinto as pernas cansadas.
       Última  hora de prova. A 24ª hora porque valeu todo este esforço e sacrifício. A última hora é...tudo. São todas as 23 anteriores reunidas numa só. É aquela hora onde não queres parar. Por mais cansado que estejas, por mais dores que sintas não vais querer abandonar a pista. Não vais querer perder um só minuto do entusiasmo que invade  Castrelos. Todos os aplausos e incentivos que vão crescendo minuto a minuto, e que atingem o seu clímax quando se completa a vigésima quarta hora das vinte e quatro horas de Vigo. Quando, invadido em lágrimas, e coberto pela bandeira do meu país, cruzo a meta pela 157ª vez, rodeado por todos quantos me apoiaram, incentivaram, aplaudiram e acompanharam durante 24 ininterruptas horas. Abraços, lágrimas, sorrisos, aplausos, agradecimentos. Atletas a desfalecer, extasiados, cansados, destroçados,  mas felizes. Provavelmente já a pensarem na edição de 2016. Porque esta; como se diz cá na minha terra: o que é bom acaba depressa; acabou tal como começou. Nota dez.
         Para repetir?
         Se for em Castrelos, que venha 2016, 2017, 2018...2075!


Tenho que ser bom se tanto me animam!






     

 

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

km 20 - 24 horas solidárias em Vigo



24 HORAS SOLIDÁRIAS EM VIGO

 Agosto de 2017






    Aproxima-se o grande desafio do ano. As 24 horas de Vigo. É já nos próximos dias 26 e 27 de agosto.  Desafio  que vou aguardando com grande espectativa e que preparei com grande afinco e dedicação durante os últimos dois meses. Este ano vou juntar mais alguns motivos de interesse á minha prestação, e quero que sejam mais as pessoas a viver comigo esta aventura. Na impossibilidade de estarem presentes in loco, ou de poderem participar juntamente comigo na corrida, dou-lhes a oportunidade de vibrar e sentir  cada quilometro meu. E se a isto juntar-mos a oportunidade de apoiar uma boa causa, o desafio torna-se ainda mais estimulante e aliciante.
       Portanto, o que pretendo é muito simples. Desafio todos os interessados a oferecer determinada quantia por cada quilometro que faça. Com um simples cêntimo, cada um de vós pode participar nesta campanha, e apoiar uma campanha solidária em prol de uma criança que sofre de uma doença rara.
       Quem pode participar?
       Todos os interessados, quer pessoas individuais, quer empresas ou instituições.
       Regras do jogo.
       Cada interessado só tem que inscrever-se, apostar uma quantia por cada quilometro, esperar pelo final da prova, contabilizar os meus quilómetros feitos e multiplicar pela quantia apostada. O resultado final será o valor a enviar para a causa solidária.
       Como podem participar?
   Basta que me enviem um correio eletrónico para passosetrotadaspelajoaninha@hotmail.com , que criei para o efeito, indicando o seu nome, morada, qual a quantia que querem pagar por cada quilometro, e eventualmente se desejam anonimato ou não. Finalizada a prova, contactarei cada um dos inscritos, indicando qual a quantia final a pagar, e a forma como podem fazer o pagamento.
       Qual a quantia com que podem participar?
       O mínimo será 1 cêntimo por quilometro, e o máximo não está estipulado. Como medida de orientação, recordo que nas minhas provas do género feitas o ano passado, fiz 124 quilómetros em Vigo, e 140 quilómetros em Vale de Cambra. Assim, como exemplo, quem oferecer 1 cêntimo por quilometro, no final da prova de Vale de Cambra, estaria a apoiar a iniciativa com 1,40€.
         Ate quando posso inscrever-me?
         Se possível, até às 24 horas de sexta-feira dia  25 de agosto. Dia prévio á corrida, para que saiba quanto poderá valer cada um dos meus quilómetros.
         A quem se destina o dinheiro angariado?
         Destina-se á pequena Joana, uma criança portadora de uma doença rara, que requer continuados tratamentos médicos, e que curiosamente reside na cidade de Vila Real, sede de distrito da localidade de onde sou natural (Pedras Salgadas). Abaixo publico um texto onde podem consultar todo o historial médico da Joaninha. Podem também aceder á sua página de facebook em  https://www.facebook.com/nicajoaninha ou no blogue http://nicajoaninha.blogspot.pt/ .
         
         O grande aliciante da iniciativa está no fato de cada um dos inscritos não saber quanto vai desembolsar no final da prova, pois esse valor sou eu que vou decidir, ou melhor, as pernas vão decidir.
          Podem acompanhar o movimento da vossa carteira e o meu desempenho a partir das 11h do dia 26 e até ás 11h de domingo dia 27, em www.championchipnorte.com .
         Qualquer dúvida, podem contactar-me através do correio eletrónico, facebook, ou através deste Blogue.
           Fico a aguardar a vossa massiva participação, e lembrar que nesta campanha cada cêntimo e cada quilómetros contam. Um cêntimo é um cêntimo, mas um quilómetros serão muitos cêntimos. Obrigado.





   Historial clínico da Joana

"A Joana, nasceu no dia 12 de Abril de 2009 no Domingo de Páscoa. Foi de imediato colocada na incubadora por problemas respiratórios. Após  o primeiro dia de vida, a Joana não mamava, tendo nos, os pais,  sido informados de que a criança tinha reflexos arcaicos, débeis e mal formações nas mãos o que poderia indicar uma cromossomopatia  - Foram feitas colheitas de sangue para despistagem da suspeita da cromossomopatia. No segundo dia de vida, foi detetada uma fratura no úmero por torção. Como a Joana tinha estado na incubadora, e só o pessoal de enfermagem e médico tinham tocado nela, a equipa médica informou -nos de que poderia ter Osteogenese Imperfeita.

Após realizados vários testes e exames de despistagem das cromossomopatias como da Osteogenese Imperfeita, ambos os resultados foram negativos. Ao sétimo dia de vida, e primeiro dia em que a Mãe pode ter ao colo a Joana, foram feitos exames de despistagem por suspeita de Sépsis, devido à episódios de temperatura elevada, tendo dado resultado negativo.

Fez Fisiatria ao décimo oitavo dia e foi alimentada por sonda até ao vigésimo segundo dia de vida. A Joana teve alta hospitalar no dia 08 de Maio de 2009.

Aos 4 meses, e após alguns episódios e visitas ao hospital por problemas diversos de sangramento bucal, foi feita uma endoscopia e Biopsia no hospital de São João no Porto, que veio a revelar que a Joana tinha Candidíase desde a língua até ao esófago, razão que originava o sangramento bucal. Esteve internada uma semana. Após um dia de ter tido alta, a Joana teve novo episódio de sangramento. Após dias de internamento e diversos exames, foi diagnosticado que a Joana tinha Refluxo Esofágico. A Joana começou a recuperar, com a exceção do seu peso. Com oito meses de idade pesava somente 5,200kg tendo sido novamente internada por má evolução ponderal. Teve alta por altura do Natal.

No dia de Carnaval de 2010, a Joana teve novo episódio de vomito  com sangue. Foi novamente internada, fez novos exames e uma nova endoscopia no Hospital de São João no Porto por suspeita de Hemorragia Digestiva Alta.

A saúde da Joana foi-se deteriorando mês após mês, já após ter tido alta do Hospitalar. Em Março de 2010 foi novamente internada com pneumonia.

Com quase um ano de vida, a Joana foi à consulta de Gastroenterologia Pediátrica, tendo-nos sido dito  que a Joana teria de parar com a medicação  por estar a inibir o estômago de produzir ácido e que tal situação iria trazer complicações/ infeções a longo prazo.

Ao fim de um ano de vida, muitas dúvidas persistiam, dúvidas da nossa  parte assim como por parte dos vários médicos que acompanharam a Joana ao longo deste tempo todo. Não existia diagnóstico para a nossa filha.

Em Maio de 2010, a Joana voltou a vomitar sangue, tendo sido marcada nova endoscopia. O resultado desse novo exame indicou que para além de Refluxo Esofágico a Joana tinha também uma Hérnia no Hiato e que necessitaria de ser operada o mais breve possível. Neste tempo de espera pela cirurgia a Joana teve novamente diversas pneumonias, cada vez mais graves, com dificuldades respiratórias, Hipoxemia, achados anormais no exame radiológico, tendo os exames de despistagem dado resultado negativo para todos os vírus pesquisados. Após mais uma semana de internamento, o estado de saúde da Joana voltou a piorar, tendo a equipa médica chegado à conclusão, que tal situação se devia à aspiração do refluxo esofágico para o pulmões.

Em junho de 2010 a Joana é operada, para resolver o problema do refluxo e do Hiato. A operação correu muito bem.

O tempo foi passando e a Joana foi submetida a nova cirurgia, mas desta vez à vista para corrigir uma situação de Estrabismo  Divergente , que lhe estava a dificultar o equilíbrio e a coordenação motora. Até ao dia de hoje, a Joana foi operada ao Esófago, ao Hiato, às Adenoides, aos Ouvidos e à Vista.   Ao longo deste tempo todo, procuramos sempre respostas para os problemas da Joana. Até à poucos dias atrás, nunca foi  feito diagnóstico para o problema de que padece. A Joana começou a dar os primeiros este ano (com 6 anos de idade), assim como mastigar alguns, poucos alimentos. A Joana não fala,  não interage com outras crianças, não caminha sozinha etc.

Ao longo destes anos, temos  procurado respostas/terapias para proporcionar uma vida melhor para a Joana. Fez CME (Cuevas Medek Exercises), Therasuit. Faz  Fisioterapia, Terapia Mio fascial, Neurofeedback, Terapia da Fala, Terapia Ocupacional, sendo que muitas destas terapias não existem no Serviço Nacional de Saúde português, somente em algumas, poucas, clínicas privadas. São terapias/tratamentos dispendiosos e  não  comparticipadas pelo Estado Português.

Para fazer face aos elevados custos mensais que têm tido com as terapias, temos   feito, ao longo dos últimos 3-4 anos,  campanhas de angariação de tampinhas de plástico (para posterior venda), rolhas de cortiça, leiloes solidários, eventos diversos para angariação de fundos, campanhas para divulgar o caso da Joana na esperança que alguém conheça casos idênticos ou iguais e na esperança que algum investigador de doenças raras se interesse pelo caso. Como é facilmente compreensível, todo este esforço que temos tido, apesar de ajudar a pagar parte de alguns tratamentos, não tem sido suficiente para fazer face à elevada carga monetária, mensalmente necessária,  para que a Joana possa usufruir destas terapias. Para além do referido, todo este trabalho , aliado ao nosso trabalho profissional e `s deslocações quase diárias para a cidade de espinho (que dista cerca de 140 km da cidade onde vivemos)  retira-nos qualidade  de vida, necessária para que a nossa atenção esteja direcionada somente para o que é necessário...o cuidado da criança. É um esforço físico e mental atroz, mas que é feito com vontade, com garra, com determinação e com fé e esperança de que alguma destas terapias tenha resultados positivos na vida da nossa filha.

Na semana em que é feita esta carta, e após termos realizado diversos contactos, via internet,  expondo a situação da nossa filha a alguns médicos, entre os quais, uma equipa de investigação inglesa  composta por médicos ingleses e Portugueses, obtivemos finalmente um diagnóstico para a Joana. Sindrome de Schaff Yang. Existem apenas 14 casos no Mundo (contando com o da Joana) sendo o segundo caso diagnosticado na Europa e o primeiro em Portugal.

Hoje sabemos com o que podemos contar para o futuro, sabemos, como sempre o soubemos, que será um futuro difícil, mas que o amor que nos une à nossa filha, será o motor para nos fazer superar cada dia que passa, com dificuldades é certo, mas também, e mais importante que tudo, com muito amor e carinho."