quarta-feira, 11 de junho de 2014

km 6 - I Trail Running de Vila Pouca de Aguiar





I Trail Running de Vila Pouca de Aguiar
 

1 de junho de 2014

 
 
 
       "Se alguém te obrigar a acompanha-lo durante um quilómetro, acompanha-o durante dois."  (MT 5, 41-42)


        Havia convencido a Helena a participar neste trail. Havia feito de tudo para que ela estivesse presente na primeira corrida em que ia participar no meu concelho. Inclusive, havia sugerido á organização que lhe endereçasse um convite, ou não se tratasse da campeã nacional de corridas de montanha em veteranos femininos.
    Havia pedido aos meus pais e ao meu irmão que fizessem os possíveis por  estar presentes num dos pontos de passagem, e/ou, no final da prova. Havia feito um prognóstico sobre o meu tempo de passagem no local sugerido e o tempo em que, correndo bem a prova, poderia terminar o desafio.
     Havia informado alguns familiares residentes numa das aldeias que íamos atravessar, da minha participação na prova, e o quanto desejava vê-los aplaudir-me, ou simplesmente ver-me passar.
     E agora, aqui estou eu, perfilado junto de cerca de 200 atletas, ao lado da minha amiga Helena, camelbak ás costas, protetor solar colocado, e um pouco impaciente pelo retardar do inicio da corrida. Aguardo com grande ansiedade e espectativa o que as minhas gentes podem fazer em prol desta atividade desportiva, e o carinho e entusiasmo com que os residentes vão ou não brindar os atletas participantes. Estamos prestes a estrear-nos num  trail. É o nosso batismo em corridas desta natureza.  A partir de agora e até que o futuro nos separe, o relato será no plural, pois é com a Helena que vou fazer esta corrida. Temos um acordo de cavalheiros. Ela veio fazer o trail, prometendo eu que a acompanho, e a carrego ao colo se ela necessitar. E como ela é levezinha, e temos um ritmo de corrida muito semelhante, não vou ter dificuldades em cumprir com a minha promessa.
         Parece tudo reunido para uma excelente manhã desportiva e competitiva, com muita  diversão e quilómetros de adrenalina. O tiro de partida é dado já perto das 10 horas, com uma  temperatura bastante agradável.  O sol está radiante, mas o calor é suportável.
      Começamos a um ritmo moderado, quase na cauda do pelotão. Não queremos entrar em loucuras, esperam-nos 34  duros quilómetros, e a segunda metade da prova é muito exigente. O primeiro quilómetro é feito ainda dentro do perímetro da vila, embrenhamo-nos depois na mata que nos vai conduzir ao primeiro ponto de interesse desta corrida, o Castelo de Aguiar. Ao 2º quilómetro deparamo-nos com o primeiro azar que caiu sobre os atletas. O Caneca, um atleta conhecido da Helena, com quem almoçamos  a seguir á meia maratona de Viana do Castelo, está estendido no chão, com o joelho todo rasgado, a ser assistido ( levou 12 pontos, e ficou privado de lutar pelos primeiros lugares da prova).

Momento inicial da corrida, ainda em fila indiana.

       Disfrutamos ao máximo da beleza destes primeiros quilómetros. Caminhos estreitos, que nos obrigam a correr em fila indiana e sem grande margem para ultrapassagens. A vasta vegetação  protege-nos dos raios solares. A descontração com que fazemos a corrida permite-nos conversar, fazer poses para as fotografias, e fazer uma pequena pausa para satisfazer as necessidades fisiológicas.
          Aproximamo-nos do Castelo, e a pequena subida que o antecede, trata-se sem dúvida da  grande dificuldade da primeira fase da prova. Como já fiz o reconhecimento do percurso, alerto os atletas ao meu lado, e a Helena em particular para o momento mais difícil: Está quase, está quase, está quase! Com umas gotas mais de suor vencemos a subida e preparamo-nos para a tomada do Castelo.
           O Castelo de Aguiar, isolado e inexpugnável como um ninho de águias, é uma pequena fortificação edificada nos contrafortes da serra do Alvão.  A sua ocupação de carácter militar remonta ao período romano, altura em que se edificou um reduto defensivo protetor que ligava Chaves ( Aquae Flaviae) a Lamego (Lamecum). Foi ainda palco de um dos muitos episódios da campanha de D.Afonso Henriques em prol da independência do Condado Portucalense.
         Com 49  minutos de corrida, e depois de calcorreados 8 quilómetros,  conquistamos por fim o Castelo. É como uma pequena batalha ganha na guerra que é terminar este desafio.  O que se segue ao Castelo é uma pequena armadilha da organização. A passagem faz-se entre grandes rochas, com uma possível passagem superior, e uma outra inferior. Sem qualquer informação subimos a rocha, até nos dar-mos conta de que a passagem se faz entre as fendas das rochas. Com muitas lamúrias á mistura descemos  e fazemo-nos pequeninos para passar-mos entre elas.

Um dos belos momentos da prova.

       Os quilómetros que se seguem são de pequena dificuldade. Apenas uma ou outra subida mais difíceis, mas muito curtas. Só temos de rolar e suportar o sol que incide sobre nós, nesta fase do percurso sem vegetação frondosa que nos proteja. Registo a nossa passagem pelos 9 quilómetros sobre a 1 hora de corrida, e ainda frescos como uma alface.
       O segundo ponto de interesse está reservado para a passagem na Barragem da Falperra. Situada em plena serra do Alvão, e ladeada por uma belíssima mata, salpicadas aqui e ali de imponentes fragas que circundam todo o lago. É uma belíssima e agradável zona de lazer e de repouso, propícia ao convívio e ao contacto com a natureza. 

A prova da boa disposição com que encaramos o desafio.

        Continuamos a avançar a bom ritmo, a galgar quilómetros e a eliminar dificuldades. Com 1h45' devoramos facilmente os primeiros 16 quilómetros do percurso.  Aproximamo-nos do ponto em que se separam o trail longo, aquele que vamos seguir, e o trail curto prestes a terminar. Á passagem pelo túnel sob a A24, solto um: Já se cansaram?  Como estamos só os dois, a resposta é NÃO. Entramos na segunda fase da corrida, mais difícil, mais técnica, mais exigente, apenas reservada aos mais resistentes.  Pergunto a um voluntário da organização quando por ele passamos, quantos vão á nossa frente. Dez? Pergunto eu. Mesmo sabendo que este número está longe de corresponder á realidade da prova, o número que ele dispara surpreende-me. Uns 30. E mulheres? Nova cara de espanto. É  a segunda. Mesmo a um ritmo confortável, com muita diversão á mistura, estamos a fazer uma excelente prova. Vais ter que dividir comigo o prémio do segundo lugar! Mas, cem metros volvidos sobre estes festejos, a Helena começa a sentir-se mal. Temos que parar, tentar que ela recupere, o que vem a revelar-se inútil. A arritmia que diz sentir, teima em não passar. Um, dois, três, uma mulher, outra mulher, e mais outros tantos atletas vão passando por nós. Como bons desportistas vão oferecendo ajuda. Mas não há muito que possamos fazer, apenas descansar e esperar que a Helena se recomponha. Para que a situação seja ainda mais dramática, acontece precisamente num dos troços mais difíceis da prova. Sobe e desce constante, escalada, descidas vertiginosas, vegetação densa que obstrui o caminho. A espaços vamos trotando algumas dezenas de metros. O problema teima em não passar. Depois de uma longa descida, e antes de abordar-mos a mais difícil das subidas da zona, a Helena diz-me que não consegue continuar. A desistência parece ser irrevogável. Pede-me que continue sem ela. Por momentos deixo de pensar no compromisso que  assumi, e penso nas pessoas que aguardam ansiosamente a minha passagem. Como o seguinte ponto de reabastecimento está próximo, sigo a minha prova e mando um dos voluntário ir ter com a Helena.

Momento em que peço á organização assistência para a Helena.

     Talvez tenha cometido um grande erro em abandonar a Helena, mas a partir de agora estou por minha conta. E mais do que perder a minha parceira  de corrida, perdi a experiencia que me permitia manter um ritmo de corrida equilibrado e confortável.
      Os quilómetros que se seguem não vão ser fáceis. Depois da travessia do topo da serra do Alvão até ao topo da serra da Padrela,  segue-se um constante sobe e desce até á meta. Mas o momento que eu mais aguardo desde o inicio da prova, está prestes a acontecer. A passagem pela aldeia de Vila Meã, onde tenho família, e o local  que sugeri aos meus pais para estarem presentes. Mas a juntar á dificuldade da subida, junta-se a ausência das pessoas que esperava encontrar. Apenas o meu tio Henrique se encontra no local. Começo a ficar sem energia, sem animo, sem forças. A ausência da Helena e a ausência do incentivo da família desmotivam-me. As subidas já só as consigo fazer a caminhar. Nas descidas ainda consigo trotar um pouco. Pelo caminho encontro atletas em pior situação do que eu. O primeiro que vejo, está sentado na berma á espera de assistência. Então? Acabou?  Ficou na berma a escassos 4 quilómetros da meta. Eu vou aguentando. Devagar. Devagarinho. Com mais de 4 horas de prova nas pernas.
     Deparo-me com nova situação de dificuldade de um atleta. Encostado a um pinheiro, em clara dificuldade, vomita toda a água que ingeriu durante a prova. Apesar de também eu sentir algumas náuseas, vou resistindo a semelhante fim. A escassos 2 quilómetros da meta, abandono o sobe e desce da mata, e entro na ciclovia.
 
Fase final da corrida, antes da entrada na ciclovia.

     A partir de agora é  trotar, em terreno plano, até á tão ansiada meta. Sou ainda abordado por um atleta que me pede uma perna emprestada para chegar ao fim. Deixo de trotar e caminho algumas centenas de metros a seu lado. Conversamos um pouco, mas a partir do momento em que recomeço a correr, ele não consegue conciliar a corrida e  a conversa. Está em claras dificuldades físicas.
      Últimos metros. O momento mais desejado está a escassos 300 metros. Mas antes, tempo para a melhor das surpresas. Para o melhor dos momentos.  A minha fã número um, ao lado do meu irmão,  aplaude-me. Apanhou-me de surpresa. Não resisto, e porque ela o merece, dirijo-me á minha mãe e dispenso-lhe dois beijos. Só por este momento, valeu todo o sofrimento de 4h31'. Faço os restantes metros eufórico, mas a chegada á meta é dececionante. Não há público, não consigo terminar junto da Helena como prometido, e o tempo final não é o que estava á espera.

Já esta. Mais um desafio superado.

     E porque comigo, as dificuldades das grandes corridas não terminam após a chegada á linha de meta, as horas seguintes foram angustiantes e de grande sofrimento. Foram largas horas sem conseguir ingerir líquidos nem sólidos, e a vomitar tudo o que bebi, e o que não bebi.
      Uma nota para a organização. Estiveram quase perfeitos. Grande acompanhamento dos voluntários ao longo da prova. Número de abastecimentos ideal. O percurso apesar de duro e difícil, é belo e agradável. Não me posso pronunciar sobre o almoço convívio porque não estava presente.

P.S. Depois de abandonar a Helena, e de a organização ter chamado uma ambulância, ela recuperou e terminou a prova apenas 26 minutos depois de mim.

    Para a estatística:

    Trail número 1
    Distância: 34 km
    Tempo líquido:4h31'30'' ( a 1h34' do vencedor)
    Classificação masculinos: 60 (79)




  


        
         

quarta-feira, 21 de maio de 2014

km 5 - IX Meia Maratona do Douro


IX Meia Maratona do Douro
 

18 de maio de 2014

 
 
 
    Por esse rio acima!
    As tartarugas, o calor e a apatia dos portugueses.


        Corrida desenfreada para o último comboio, onde somos transportados  como gado pro matadouro. Corpos que tresandam a suor. Os minutos que teimam em passar. Dificilmente chegaremos a tempo do tiro de partida. Instalo-me num pequeno canto atrás dos bancos do comboio, onde o ar que se respira é mais inodoro. De qualquer maneira, já me sinto familiarizado com esta forma de transportar pessoas, pois durante as minhas quatro visitas á Cidade do México, tive a oportunidade e a necessidade de utilizar o metro citadino, que transporta diariamente milhões de passageiros, desta forma tão pouco cívica e saudável, onde não há limite de capacidade. Quantos mais melhor.  Algures no meio desta falange de corpos nervosos e inquietos está a minha amiga Helena. Do alto do seu metro e cinquenta e três, enjaulada no meio de braços hirtos, elevados bem alto até ás barras de segurança. Imagino que não esteja a passar por uma situação deveras agradável. Na primeira vez que avisto a barragem onde terá, ou teve  inicio a corrida, transmito-lhe a informação, que só mais tarde posso confirmar: Já começou!
      Na última edição da prova, eu já me encontrava sobre a ponte junto dos milhares de atletas a aguardar o inicio da corrida, quando impacientemente ouvimos a organização informar que o tiro de partida ia ser retardado alguns minutos, porque ainda havia algumas centenas de participantes a fazer o trajeto de autocarro até á zona de partida. Este ano nem um só minutos de tolerância. Não se pode agradar a gregos e a troianos. Se o ano passado fui dos que criticou o atraso da saída, este ano critico a pontualidade, apesar de ser acérrimo defensor da maior das virtudes: pontualidade!
      Como os nossos objetivos de corrida não passam nem de perto nem de longe pelos primeiros lugares, resta-nos passar pela linha de partida para validar o chip, e fazer-mos a nossa corrida. Havia perdido o contacto com o João  enquanto aguardávamos o comboio(o João é o grande responsável pelo meu atraso;  fomos juntos para a prova, mas na hora de levantar os dorsais, o seu nome não constava na lista, não tinha comprovativo da inscrição nem do pagamento feito por parte do seu clube; e enquanto solucionava a sua situação, os minutos iam passando), mas encontro-o na zona de partida a fazer o aquecimento. Mas se a corrida já começou, que anda ele a fazer?  Vamos embora João, é para este lado! Mas ele ainda tem que ir á linha de partida para validar o chip. Agora temos á nossa frente cerca de 3000 atletas. Não há lebres, não há atletas com o nosso ritmo que nos possam ajudar. Há sobretudo demasiadas tartarugas que nos vão obrigar a um zigue zague constante para manter-mos o nosso ritmo. Aqui e ali vou soltando palavras de ordem, ou de incentivo:  Já se cansaram?  Vamos embora, lá pra frente!

Eu e as "tartarugas"

      Encosto-me á faixa da esquerda que se encontra livre e reservada para quando fizermos o retorno aos 7 quilómetros. Mas após algumas centenas de  metros  começa a ser invadida pelos atletas mais rápidos que vêm em sentido contrário. Sou obrigado a embrenhar-me de novo na multidão e a correr a espaços na diagonal. Quando passo pelo quilómetro 7 o relógio está abaixo do minuto 31 (30'55''). Não perdi assim tanto tempo, mas tive que fazer um esforço suplementar para me desviar dos outros participantes, e para vencer o calor que começa a apertar. Seguramente o termómetro esta acima dos 30º. A ausência de farmácias durante o percurso não me permite confirmar a temperatura do ar. A cada reabastecimento liquido, muno-me de duas garrafas de água. Uma para deitar pela cabeça abaixo, da outra sorvo pequenos goles de água, e o resto tem o mesmo destino da primeira. Depois da segunda ação deste género, o dorsal não resiste a tanta água, e acaba por soltar-se dos alfinetes. Meto-o dentro dos calções, porque o chip está junto, e preciso dele quando passar a linha de chegada.
      Consulto o relógio na passagem pelos 14 quilómetros ( 31'21'' nos segundos 7 km). O calor e o cansaço fazem-se sentir. Estou mais lento, mas continuo a dobrar um número considerável de tartarugas. Nesta altura da corrida, o reabastecimento já não se faz a cada 5 quilómetros, mas talvez a cada 2. Atendendo ás altas temperaturas, a aguínha vem mesmo a calhar, tal como o chuveirinho com que os bombeiros  nos brindam.
       Quando nos dirigíamos para levantar os dorsais, passamos junto á marca dos 20 km. Tinha lançado um repto, e dito ao João  que queria passar ali com 1 hora e 26 minutos. Quando já tenho quase 20 quilómetros nas pernas, e alguns litros de água na cabeça, encaminho-me para essa marca com um tempo já superior á hora e meia.

A caminho do último quilometro. Já sem o dorsal.

       Nas edições anteriores o último quilómetro compreendia uma passagem ao lado da meta, retornando numa rotunda, e os 500 metros finais eram a  subir até á linha da meta. Com grande sofrimento lá íamos trotando até ao final da prova. Com a alteração do percurso, este ano o quilómetro final tem uma grande descida e uns metros finais planos, onde a meta apenas se avista nos últimos cem.
      Quem faz uma corrida com esta exigência, com o objetivo único de terminar a prova e ansioso por alcançar a meta e viver triunfante o repto  a que se propôs, só pode esperar que o público aí presente se manifeste e receba entusiasticamente os atletas que vão chegando. Não exagero se disser que aquando da minha chegada, e de outros participantes quer á minha frente quer atrás de mim, não se ouvia um único aplauso, ou vozes de incentivo e parabéns. Que saudades tenho das corridas em Espanha. Não resisto, e como que num grito de guerra, bato palmas ergo os braços e grito:  Vamos lá acordar... Essas palmas?
       Posso ficar satisfeito com a minha prestação e esquecer a apatia do público? Posso. Mas não é a mesma coisa. Mais do que o objetivo pessoal, gosto de interagir com os demais atletas, gosto de incentivar, apoiar quando passam dificuldades, dispor-me a ajudar. E gosto, naturalmente, das manifestações do público, dos aplausos, das palavras de incentivo, do carinho para com os corredores.


       Para a estatística.

      Meia maratona número 16.
      Tempo líquido (chip): 1h35'40'' ( a 29'18'' do vencedor)
      Classificação geral: 336 (2836)
      Classificação por escalão (M35): 74


      Até já!
 

quarta-feira, 14 de maio de 2014

km 4 - XVII Media Maraton de Vigo


XVII Media Maraton de Vigo
 

11 de maio de 2014

 
 
 
 




O meu 15º dorsal de uma meia maratona
 

 
     Quando somos muitos, é mais fácil!


     Tivesse acontecido no Estádio Municipal de  Balaídos, ou no Hotel Resort Pazo Los Escudos  onde a equipa do Real Madrid se encontrava hospedada, e tratava-se de uma situação perfeitamente normal. Um grupo de portugueses, envergando camisas com a bandeira de Portugal estampada, e com bandeiras nacionais nas mãos, a gritarem de forma histérica o nome dos jogadores portugueses do emblema espanhol. Mas esta manifestação de carinho não se destinavam nem ao autoproclamado  rico, bonito e super talentoso  Cristiano Ronaldo, nem ao luso-brasileiro Pepe, nem tão pouco  ao caxineiro Fábio Coentrão. Acrescento ainda que nas camisas de uma brancura imaculada, estava ainda estampado um nome. Com as cores nacionais, verde e vermelho, podia ler-se o nome: Paulo Machado. Imaginem a minha cara de surpresa quando cheguei junto deles.  Até a pequena Carolina teve direito a uma camisa de tamanho xxxxs personalizada.
       Já no ano passado, na Meia Maratona de Guimarães, a família Torres me havia surpreendido. Mas a manifestação de apoio e de carinho resumira-se a um cartaz a dizer: Força Paulo. Desta vez foram um pouco mais longe,  e naturalmente tal gesto obrigava-me a uma superação ainda maior. O objetivo passava não apenas por terminar a corrida, mas aproximar-me ou superar a marcar de 1h32' conseguida em  Barcelos.



Da esquerda para a direita: António, Nicolau, Joaquim, Paulo, Maria, Carlos, Carolina, Afonso, Marta e Paula.
     

     O contingente nacional presente em Vigo não se resumiu a estas pessoas. Também a D. Ângela se fez acompanhar da família para viver as emoções de uma meia maratona, e para me apoiar, naturalmente. Vestidos a rigor, com o respetivo dorsal, e depois de convencido o Afonso de que devia envergar a camisa cor de laranja oferecida pela organização, estavam prontos para a caminhada. Iam juntar-se ainda ás cerca  de 180 pessoas que se deslocaram de Sintra para participarem também no evento, sobretudo na caminhada, e que constituíam a quase totalidade de inscritos. A inclusão de caminhadas em eventos desta natureza não é comum em Espanha. Esta tratou-se mesmo da primeira caminhada aliada á Meia Maratona de Vigo, daí que não tenha grande adesão por parte dos espanhóis, e os poucos que   estavam inscritos, e que envergavam os dorsais referentes, encontravam-se ao longo do percurso a apoiar os atletas. Isto sim, uma pratica muito comum em Espanha, onde as pessoas saem ás ruas, e não se cansam de incentivar  e apoiar os participantes das corridas.
 
      Ainda mal refeito  da emoção que a surpresa  dos meus amigos  me provocou, junto-me aos cerca de mil atletas perfilados na linha de partida. Sem grandes nomes do atletismo espanhol, o pelotão é composto sobretudo por atletas galegos, com objetivos muito próprios, uma vez que a prova é pontuável para o campeonato galego de meia maratona. Quase não há vento, o sol esta resplandecente e a temperatura oscila os 16º.
    Antes do tiro de partida a organização pede-nos que guarde-mos um minutos de silencio em memória de duas pessoas falecidas, ligadas ao atletismo. A primeira, e porque o nome não me diz nada, já não me recordo quem era. A segunda, tratava-se do atleta vice campeão europeu de salto em comprimento nos mundiais de 1999, Yago Lamela, que , com 36 anos, foi encontrado morto em casa.
      É dado o tiro de partida, e é hora de disfrutar.  Ainda com o pequeno-almoço mal digerido, que por força das circunstâncias fui obrigado a termina-lo a pouco mais de uma hora do inicio da corrida, troto pelas ruas de Vigo, na primeira de duas voltas ao percurso. O trajeto não é muito exigente, mas algumas das subidas, apesar de muito curtas, causam mossa na maioria dos corredores. Que o diga o atleta que escolhi para lebre, que na primeira subida, não resistiu ao ritmo, e acabou por ficar para trás. Ainda olho para trás e tento avista-lo, mas convenço-me que estou por minha conta. Talvez  não tenha sido feliz com a minha escolha, apenas com 3 quilómetros percorridos, e ele já vinha a arfar ruidosamente.
       Concluo um terço da prova abaixo do minuto 31 (30'49''). Até aqui tudo bem, só há que manter o ritmo e não entrar em loucuras. É pelo quilometro 7 que julgo encontrar alguém que me vai ajudar na corrida. Passa por mim um atleta franzino, jovem, passada segura. Tento acompanha-lo, mas o ritmo é tão desconfortável para mim, que me vejo obrigado a baixar o ritmo e a deixa-lo ir. Mais tarde haveria de o ultrapassar  e terminar mesmo a corrida á frente do vencedor na categoria de júnior masculino, e que haveria de proclamar-se ainda campeão galego júnior de meia maratona.



Numa altura da corrida em que já havia ultrapassado o campeão júnior galego de meia maratona


     O final da primeira volta coincide com o final da caminhada. Esboço largo sorriso quando passo pelas pessoas que me acompanham. Com um até já, parto para a segunda volta. Passo pelo segundo parcial de 7 quilómetros, ao quilometro 14, de novo com um excelente tempo, 30'31''. Mas a nova passagem pela zona de meta, quando faltam apenas 5 quilómetros, acaba por provocar-me dificuldades. Quando passo de novo pelo meu grupo de seguidores, paro, e vou ao carrinho do Joaquim buscar a minha inseparável água das pedras. Depois disto, e apesar do Afonso se ter pontificado a correr comigo os quilómetros finais, nunca mais consegui atingir o bom ritmo com que vinha a fazer a prova. O mal acabou por ser geral, porque o Afonso depois de alguns metros diz-me que vai voltar para  trás ( o Afonso é um miúdo com 11 anos, que um dia me acompanhou num treino de 6.5 km em 34 minutos, sem parar).

A breve companhia do Afonso


    Com um pouco mais de sofrimento vou eliminando quilómetro após quilómetro. O último, porque é a descer inicialmente, e porque depois se avista a linha da meta, é devorado num ápice.  O Sr. Carlos, a cem metros da meta, entrega-me uma bandeira de Portugal. A assistência parece contagiada pelo ato, e aplaude energeticamente. Consulto o cronometro, 1h 34'. Não esta mal. E embora não tenha conseguido manter a tendência das corridas deste ano, acabei por fazer um excelente tempo, talvez a minha segunda melhor marca  das 15 meias maratonas já efetuadas. Em Barcelos subi demasiado a fasquia, e agora tenho que trotar forte se quero fazer melhor.
     O vencedor da corrida, foi um atleta já conhecido dos meus blogues, uma vez que foi o mesmo que ganhou a meia maratona  d'O Carballiño,  Daniel Bargiela Araújo.

      Para a estatística.

      Meia maratona número 15
      Tempo líquido: 1h34'09'' ( a 23'30'' do vencedor)
      Classificação geral: 204 (701)
      Classificação por escalão (veteranos I): 47 ( 131)

     Muito obrigado ás pessoas que me acompanharam, e espero que se tenham divertido tanto quanto eu.

     Até já!


Foto: Agua das Pedras.
A agua dos desportistas.
Fiel ás minhas origens

 

quinta-feira, 10 de abril de 2014

km 3 - I Meia maratona de Barcelos


I Meia Maratona de Barcelos

6 abril 2014


 

 
     Quando uma lenda se torna fonte de inspiração.


    Reza a lenda que em plena época medieval, os habitantes do  burgo que é a actual cidade de Barcelos, andavam alarmados com  um crime. E mais ainda por não ter sido descoberto o criminoso. Certo dia apareceu um galego, que se dizia peregrino a caminho de Santiago de Compostela. Desde logo se tornou suspeito, foi preso e considerado o autor do referido crime. Como era comum na idade medieval foi condenado á forca.  Antes de ser enforcado pediu que o levassem perante o juíz que o condenara.  O galego voltou a reafirmar a sua inocência perante o magistrado. Reparando que sobre a mesa onde este e alguns amigos se banqueavam  estava um  galo assado, o condenado exclamou: " É  tão certo eu estar inocente, como certo é esse galo cantar quando me enforcarem". E o improvável aconteceu. Quando o galego já se encontrava com a corda ao pescoço, o galo levantou-se e cantou. Ninguém duvidava da inocência do peregrino que, depois de solto, continuou o seu caminho de peregrinação. O que parecia impossível tornou-se, porém, realidade!


     O que parecia impossível tornou-se, porém, realidade!

     É verdade que neste ano de 2014, e depois de concluídas 4 meias maratonas, o meu desempenho tem sido sempre em crescendo. Concluí a Meia Maratona de Viana do Castelo em 1h43' (sem qualquer  treino nos 2 meses que a antecederam), seguiu-se um desempenho sofrível de 1h39' na Meia Maratona da Corunha, e,  ainda por terras espanholas, terminei a  Meia Maratona d'O Carballiño  com um fantástico tempo de 1h35', o que me levou a considerar impossível fazer melhor  em futuras corridas.
       Sem conseguir especificar quais os fatores determinantes na obtenção de tão bom resultado na I Meia Maratona de Barcelos, o impossível acabou por acontecer. E porque aos olhos de Deus nada é impossível, talvez a minha visita á Igreja sita bem ao lado da linha de partida e chegada, tenha sido o tal fator determinante.
      Ás 10 horas é dado o tiro de partida pela madrinha da prova, a medalhada olímpica Fernanda Ribeiro. Cerca de 2 mil pessoas, divididas pelas 3 categorias do evento, desde a caminhada, a mini maratona de 10 km e a prova principal de 21 km partimos rumo aos nossos objetivos. A chuva molha tolos com que fomos brindados durante o aquecimento persiste em não parar. O termómetro marca 9º, o que se traduz numa excelente temperatura para correr.  O entusiasmo é o habitual das grandes corridas, enorme. Troto os primeiros metros e é altura de estudar os meus vizinhos e escolher a lebre que espero, me venha a ajudar durante a prova. Procuro alguém que apresente uma passada segura, sem sinais de grande esforço, e que possa ter alguma experiência. Mais importante ainda, que tenha um ritmo que eu consiga acompanhar. Colo-me a um atleta  vestido de vermelho ( não, não era do Benfica, apesar do grande contingente de atletas encarnados presentes no evento), óculos de sol, e relativamente jovem. Ter-se-á perguntado: quem é este gajo?  Que não me larga!
        Depois do primeiro reabastecimento líquido, e com um terço da prova nas pernas, a minha lebre começa a perder o meu contacto. Dobro o km 7 com 31'03''.  A partir daqui faço a prova praticamente sozinho. Durante alguns períodos  tenho a companhia de atletas que alcanço, ou alguns que me alcançam a mim. Mas contrariamente ao que me acontece em outras corridas, são escassos os que me alcançam, e são vários os atletas que vou ultrapassando.  Outro dado que me deixa bastante animado é o de verificar que atletas com quem habitualmente me cruzo e me levam um avanço considerável, desta vez são eles que vão atrás de mim.
        A primeira passagem pela meta deixa-me ainda com mais vontade de galgar quilómetros e terminar a prova. Tal como haviam prometido, alguns amigos marcam presença para me incentivar. Não consigo ouvir claramente, mas imagino que a pequena Carolina esteja a gritar: " Foza aí!"
        Estou satisfeito com o meu desempenho até agora, mas sou sobressaltado com a ideia de pagar mais tarde o esforço despendido com uma quebra de  ritmo. Que seja!  Mas enquanto puder vou dar o máximo. Nunca me senti tão bem em nenhuma outra prova. A passagem pelo km 14 confirma a excelente corrida que estou a fazer.   O relógio marca 1h01'21'', ou seja,  os últimos 7 quilómetros faço a um ritmo mais rápido que os primeiros , 30'18'' é o tempo deste segundo parcial.
        Não baixo o ritmo e sigo para a meta. Junto á berma encontro um atleta em dificuldades. Incentivo-o, digo-lhe que agora é tarde para desistir. Um outro que vai ao meu lado partilha da minha ideia, afinal, apenas falta o rabo segundo as suas palavras.
        Entro no quilometro final, o relógio está abaixo do minuto 30, mais propriamente na 1h 28'. Faço as contas, e terminar no minuto 33 corresponde a um novo record pessoal. Tenho 5' para gerir no último quilometro, e ainda a correr abaixo dos 4'30'' por quilometro, permite-me efetivamente conseguir novo record. A linha da meta surge mais rápido do que estava á espera, para ajudar, os últimos 100 metros são a descer. Consulto o relógio, fico incrédulo, estou sobre o minuto 32. O grupo de amigos que me esperavam,  gritam o meu nome. Os espetadores ao lado, talvez contagiados pelo entusiasmo não ficam atrás. Só ouço Paulo, Paulo, Paulo. Sinto-me como se tivesse ganho a corrida. Provavelmente mais feliz que o vencedor da prova.
        Tivesse eu partido para a prova a pensar fazer este tempo, e provavelmente não o teria conseguido, afinal, nunca pensei ser possível.
          Termino com um tempo líquido de 1h32'42''. Lugar 200 da geral, num total de 670 atletas.
         Porque não faltaram ao prometido, quero agradecer a presença in loco da família Torres. D. Paula, Sr. Carlos ( gostei do pormenor da água das Pedras), Marta, Maria, e a pequena Carolina.  E também á  D. Bio ( D. Ângela), Afonso e António. Um muito obrigado  por me  terem  deixado partilhar com eles este momento de enorme satisfação e alegria.




      Até já!

quinta-feira, 20 de março de 2014

Km 2 - II Meia maratona d'O Carballiño


II Meia Maratona d' O Carballiño "Festa do Pulpo" (a minha 13ª)

16 março 2014


 

 
"Pra carne, pan y viño, Carballiño."  E corridas...E corridas!


      Antes de participar neste desafio, já tinha imaginado algumas das palavras que esperava partilhar convosco neste blogue. E naturalmente, tratando-se da minha 13ª participação em meias maratonas, o tema das minhas palavras andaria á volta do número 13, e de todo o seu peso supersticioso. Provavelmente falaria da sorte ou do azar que o número trouxera á minha corrida. Agora, concluída mais uma prova, e não tendo sido o meu desempenho nada de  extraordinário, nem suficientemente  mau a ponto de não merecer que fale nele, esqueçamos o 13, que apenas contará para a minha contabilidade pessoal, e viajemos até 0 Carballiño.

     O Carballiño é uma vila moderna, situada nas margens do Rio Arenteiro, terra de bom vinho, zona de Ribeiro (trata-se da D.O. com maior trajetória histórica da Galiza). Em 1816  fundaram-se as grandes termas, onde as suas águas com propriedades terapêuticas são utilizadas em diversos tratamentos. Outro dos grandes atrativos da pequena vila com cerca de 14 mil habitantes, é o parque municipal. Com 32 ha  de avenidas, bosques e jardins ao longo do rio, que oferecem a possibilidade de passeios agradáveis.
No centro urbano destaco uma obra dos meados do séc. XX, a Igrexa de Vera Cruz.  Mistura os estilos medievais, gótico, bizantino e românico. Projetada pelo arquiteto António Palácios, sobressai a alta torre e a cúpula.  É considerada uma das capitais gastronómicas da Galiza, conforme demonstra o ditado popular: Pra carne, pan y viño, Carballiño. Curiosamente um dos pratos mais famosos é o Pulpo á feira (polvo).

     A corrida está traçada num circuito de 7 km. Inicia-se no centro da vila, com passagem pela rua principal e pelo parque municipal. Serão portanto 3 voltas, que ao contrário do que se possa pensar relativamente á sua monotonia e aborrecimento, a prova com 3 passagens pelos mesmos locais acaba por revelar-se bastante interessante e de fácil digestão.
 

      O tiro de partida é dado pouco depois das 10.30h ( 9.30h em Portugal).  A temperatura é baixa, o termómetro oscila entre os 6º á sombra  e os 8º  ao sol.  O entusiasmo é grande quando 360 atletas, na sua maioria amadores, partimos para a primeira de 3 voltas.
A grande dificuldade da prova reside no  quilómetro  que precede o final de cada volta. Trata-se de uma longa subida de cerca de 800 metros, que a mim em particular, me provoca grande desgaste físico. É  durante a primeira passagem pelo fatídico quilómetro, que me colo a um trio de  atletas denominado Pancitas Team.  Na verdade não fazem jus ao nome, são os 3 bastante magros e atléticos.
     Depois de um deles não resistir ao ritmo que levamos, é com  os outros dois que faço o resto da prova. Apesar de me sentir bastante confortável e capaz de dar um pouco mais, opto por acompanhar o ritmo dos meus parceiros de corrida.
Consigo fazer pela primeira vez uma prova a um ritmo bastante regular. A primeira volta, 7 km, faço em 31'22'', a segunda em 31'33', e a última e derradeira em 32'01''. Foi nesta última volta, na passagem pelo  quilómetro mais duro que senti sérias dificuldades para vencer a subida.
 
 
     Corto a meta com grande satisfação, e  consciente de que fiz uma das minhas melhores corridas. Tenho ainda tempo para agradecer  a um dos pancitas o suporte ao longo da corrida, e esperar na fila pelo meu copo de Estrella Galicia . Soubesse eu que no final davam cerveja, e tinha corrido um pouco mais rápido.
 
       O vencedor da corrida, o atleta do Bikila ( espécie de Maratona Clube de Portugal de Espanha) Daniel Bargiela Araújo ( campeão galego de maratona),  termina a prova  com um tempo de 1h 12' 25''. Está evidente no seu tempo final a dureza da prova, ou trata-se de um atleta incapaz de fazer melhor?  Eu quedo-me pela posição 144, com um dos meus melhores tempos, 1h 35' 33''.


      Para a estatística.

      Meia maratona número 13
      Tempo líquido: 1h35'33'' ( a 23'08'' do vencedor)
      Classificação geral: 204 (701)
      Classificação por escalão (veteranos I): 47 ( 131)


Até já!

 

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Km 1 - VI Meia maratona da Corunha

VI Meia Maratona da Corunha (a minha 12ª)

22/23 fevereiro 2014


 

 
E porque a Corunha não é só a torre de Hércules.

     Símbolo da cidade e património da Humanidade desde 2009, a Torre de Hércules é o farol mais antigo do mundo em funcionamento. Erguida no século II em pleno domínio do Império Romano, para orientação e vigia ao horizonte marítimo. Acabou por deteriorar-se ao longo dos séculos. Em finais do século XVIII foi restaurada e transformada em farol, mantendo a estrutura romana no interior. A elevação a património da humanidade pela UNESCO, contribuiu acima de tudo para proteção de toda a área envolvente, evitando que fosse invadida pelo cimento. Além da excelente vista que se obtém após subir os 239 degraus da torre, toda a área que a circunda é magnífica, quer para dar uns passeios quer para praticar desporto.
      Mas não é só a Torre de Hércules que me leva á Corunha.
     Chego á Corunha no comboio que saiu de Vigo. O preço, o conforto e o tempo, fazem-me preferir a viagem no tren de media distância.
     Facilmente chego a casa do couchsurfer que me vai receber, José Chouciño, que, ainda sem tempo para descansar os ombros pelo peso da mochila, se apunta a ir mostrar-me a cidade.
     Faço a primeira meia maratona do fim de semana. Em ritmo pausado, lento, relaxado e prazeroso, visitamos os locais mais belos da cidade.
     Percorridos escassos metros de casa, passamos no Estádio Riazor, e recordamos os momentos festivos vividos no ano 2000 aquando da conquista da Liga Espanhola. Atualmente o clube milita no segundo escalão espanhol. Chegamos ao paseo marítimo que percorre todo o perímetro litoral, e oferece mais de 10 km preparados para receber todos quantos queiram fazer um passeio a pé ou de bicicleta. Na playa de Riazor, os sinais do mau tempo que também assolou o nosso país são bem visíveis. O muro que separava a praia do paseo perdeu as pedras superiores, e os cerca de 2 metros de altura estão completamente cobertos de areia, assim como as escadas de acesso á praia, que são agora inúteis porque a praia está ao nível do passeio.
    José mostra-me 3 curiosidades que não vêm nos guias. A primeira refere-se ao pintor e escultor espanhol Pablo Picasso, que viveu durante 2 anos na Plaza de Pontevedra. Enquanto o seu pai dava aulas no Instituto Eusébio da Guarda, Picasso fazia os seus primeiros trabalhos na casa em frente. A segunda também se refere a uma das personalidades de Espanha. Natural de Ferrol, uma localidade a norte da Corunha, Francisco Franco, o ditador Franco, possuía uma casa na atual Ciudad vieja, que ocupava nas suas deslocações á Corunha. A terceira é visível num dos jardins da cidade. Há um calendário feito em plantas naturais, que é atualizado diariamente, e um relógio também em plantas naturais. Belíssimo.
    A zona das Galerias é magnifica. Outrora titulada de cidade de cristal, este título deve-se á solução popular encontrada para aquecimento dos edifícios, através da alteração das varandas, fechadas com vidros. Belíssimo.
    A Plaza Maria Pita, que deve o seu nome á heroína local que lutou com bravura contra o exército de Francis Drake em 1588 , uma espécie de padeira de Aljubarrota Galega, alberga o Pazo Municipal. Edifício que conjuga vários estilos arquitetónicos. Belíssimo.
     Entramos na Ciudad Vieja, e é como se chegássemos a outra cidade. Depois de atravessar-mos a calle real, uma rua comercial repleta de gente, e da paralela calle de la Galera, onde os bares e restaurantes estão completamente lotados neste fim de tarde, a Ciudad Vieja está praticamente deserta. Ocupa a parte mais protegida da península, e corresponde á zona mais antiga e nobre da cidade. Ruas estreitas, praças escondidas e igrejas antigas. Belíssimo.
    Domingo, dia da corrida. Levanto-me cedo, tomo um bom pequeno-almoço, e preparo-me para fazer uma caminhada de cerca de 15 minutos até á zona de partida da meia maratona. O dia está solarengo, o termómetro marca 11 graus, e os cerca de 2000 atletas estão animados. Estão reunidos os requesítos para uma grande prova.
Ás 10 horas é dado o tiro de partida. Trinta segundos depois a corrida é interrompida. Uma avaria no carro que abre a frente da corrida, obriga a que se proceda a nova partida. Quinze minutos são necessários para recolocar todos os atletas atrás da linha de partida. Pacientemente retomamos os nossos lugares. A segunda partida é feita sem problemas, afinal já estava treinada.
 
Momento em que a corrida é interrompida.
 
     Faço a minha 12ª meia maratona, a um ritmo confortável, 4'30'' por km inicialmente, e já nos quilómetros finais, devido uma vez mais a problemas de desidratação, a um ritmo mais lento. Objetivo de terminar o VI Medio Maratón Coruña 21 alcançado com grande satisfação. Corto a linha de chegada com o relógio a marcar 1h 39' 05''. Não foi das minhas melhores provas, mas também já fiz pior. Lugar 870, mais uma vez na metade superior da classificação.
     Ainda antes do almoço fazemos uma incursão a pé até ao monte de San Pedro. Faz-me lembrar o Monte Picoto, mas os acessos pedonais são em terra batida, e a vegetação é mais escassa. A Bateria de cañones del Monte San Pedro faz parte de uma antiga instalação militar de defesa costeira, utilizada entre as grandes guerras. Esteve abandonado durante muitos anos, mas a zona foi reabilitada e transformada em museu. Trata-se agora de um aprazível lugar de visita onde se pode disfrutar de uma excelente vista sobre a cidade. O local esta ainda dotado de um restaurante, um elevador panorâmico, zonas de merendas, e uma diversidade de caminhos pedonais. Também no local esta em fase de construção um parque radical.
    Seguramente haverá ainda muito mais para ver nesta belíssima cidade galega. Fica para uma futura visita, quem sabe aquando da maratona da Corunha.
    Um muito obrigado ao meu anfitrião José Chouciño.
Até já!


 

 

 
 

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Km 0 - Linha de partida

 

 Linha de partida

13 fevereiro de 2014

 
   Quando ouvia alguns dos meus amigos dizerem-me que devia fazer um blogue, achava que não era tarefa para mim. Apenas lhes dizia que não ia saber o que escrever. Que não vivo episódios tão importantes, capazes de proporcionarem um relato interessante de ser lido.
    Nas minhas 3 maratonas realizadas até ao momento, inicialmente a pedido de um jornal regional(Mensagens Aguiarenses), e posteriormente por iniciativa própria, lancei-me na tarefa de transcrever para o papel as incidências das provas. Fugindo um pouco ao aspeto desportivo das mesmas, debrucei-me mais sobre o ambiente, os episódios, os dados curiosos ao longo dos percursos. E a verdade é que me saí muito bem como "jornalista". Consegui cativar as pessoas durante alguns minutos, e levá-las a desejar ler mais e mais. Não estranhei pois, que os elogios recebidos fossem sobre as minhas capacidades de expressão escrita, e não sobre os feitos desportivos.
     Enquanto lia o blogue de um amigo argentino ( que tive o prazer de receber em minha casa no âmbito do projeto couchsurfing), e que vai calcorreando  por terras africanas e asiáticas em cima de uma bicicleta, ganhei animo para iniciar este meu projeto. Chamou-me a atenção alguns dos episódios por ele narrados aquando da  sua travessia pelo Irão. Os iranianos são muito hospitaleiros, mas também têm uma estranha tradição de oferecer coisas apenas como um gesto de cordialidade, mas na verdade não te estão a oferecer nada. Por exemplo, vais pagar num restaurante e o dono diz-te que és seu convidado, mas esta á espera que lhe pagues igual. Confuso? Apenas uma curiosidade que é possível partilhar através de um blogue.
   Fazendo uso desta minha nova paixão, a escrita, e recorrendo a temas de outras minhas paixões como as corridas e as viagens, pretendo desvendar alguns dos dados curiosos com que me vou deparando, e poder proporcionar-vos momentos de leitura agradáveis e viciantes. Afinal sempre posso encontrar bons temas para excelentes textos, para além da temática "maratona". Sempre que elogiavam os meus textos acerca das maratonas, eu contrapunha dizendo que quando se tem um bom tema para escrever, o resultado no papel é sempre bom. 
      Talvez venha a encontrar bons temas para escrever em futuras viagens, noutras corridas, em fatos da vida, em experiências positivas com couchsurfers. Talvez recorrendo a algum tema politico, desportivo, social. Talvez partilhando convosco fatos passados, e poder revive-los nostalgicamente junto de vós. 
     Não sei com que regularidade vou publicar, mas serei breve na publicação da próxima crónica.
     Até já!