sexta-feira, 14 de agosto de 2015

km 20 - 24 horas solidárias em Vigo



24 HORAS SOLIDÁRIAS EM VIGO

 Agosto de 2017






    Aproxima-se o grande desafio do ano. As 24 horas de Vigo. É já nos próximos dias 26 e 27 de agosto.  Desafio  que vou aguardando com grande espectativa e que preparei com grande afinco e dedicação durante os últimos dois meses. Este ano vou juntar mais alguns motivos de interesse á minha prestação, e quero que sejam mais as pessoas a viver comigo esta aventura. Na impossibilidade de estarem presentes in loco, ou de poderem participar juntamente comigo na corrida, dou-lhes a oportunidade de vibrar e sentir  cada quilometro meu. E se a isto juntar-mos a oportunidade de apoiar uma boa causa, o desafio torna-se ainda mais estimulante e aliciante.
       Portanto, o que pretendo é muito simples. Desafio todos os interessados a oferecer determinada quantia por cada quilometro que faça. Com um simples cêntimo, cada um de vós pode participar nesta campanha, e apoiar uma campanha solidária em prol de uma criança que sofre de uma doença rara.
       Quem pode participar?
       Todos os interessados, quer pessoas individuais, quer empresas ou instituições.
       Regras do jogo.
       Cada interessado só tem que inscrever-se, apostar uma quantia por cada quilometro, esperar pelo final da prova, contabilizar os meus quilómetros feitos e multiplicar pela quantia apostada. O resultado final será o valor a enviar para a causa solidária.
       Como podem participar?
   Basta que me enviem um correio eletrónico para passosetrotadaspelajoaninha@hotmail.com , que criei para o efeito, indicando o seu nome, morada, qual a quantia que querem pagar por cada quilometro, e eventualmente se desejam anonimato ou não. Finalizada a prova, contactarei cada um dos inscritos, indicando qual a quantia final a pagar, e a forma como podem fazer o pagamento.
       Qual a quantia com que podem participar?
       O mínimo será 1 cêntimo por quilometro, e o máximo não está estipulado. Como medida de orientação, recordo que nas minhas provas do género feitas o ano passado, fiz 124 quilómetros em Vigo, e 140 quilómetros em Vale de Cambra. Assim, como exemplo, quem oferecer 1 cêntimo por quilometro, no final da prova de Vale de Cambra, estaria a apoiar a iniciativa com 1,40€.
         Ate quando posso inscrever-me?
         Se possível, até às 24 horas de sexta-feira dia  25 de agosto. Dia prévio á corrida, para que saiba quanto poderá valer cada um dos meus quilómetros.
         A quem se destina o dinheiro angariado?
         Destina-se á pequena Joana, uma criança portadora de uma doença rara, que requer continuados tratamentos médicos, e que curiosamente reside na cidade de Vila Real, sede de distrito da localidade de onde sou natural (Pedras Salgadas). Abaixo publico um texto onde podem consultar todo o historial médico da Joaninha. Podem também aceder á sua página de facebook em  https://www.facebook.com/nicajoaninha ou no blogue http://nicajoaninha.blogspot.pt/ .
         
         O grande aliciante da iniciativa está no fato de cada um dos inscritos não saber quanto vai desembolsar no final da prova, pois esse valor sou eu que vou decidir, ou melhor, as pernas vão decidir.
          Podem acompanhar o movimento da vossa carteira e o meu desempenho a partir das 11h do dia 26 e até ás 11h de domingo dia 27, em www.championchipnorte.com .
         Qualquer dúvida, podem contactar-me através do correio eletrónico, facebook, ou através deste Blogue.
           Fico a aguardar a vossa massiva participação, e lembrar que nesta campanha cada cêntimo e cada quilómetros contam. Um cêntimo é um cêntimo, mas um quilómetros serão muitos cêntimos. Obrigado.





   Historial clínico da Joana

"A Joana, nasceu no dia 12 de Abril de 2009 no Domingo de Páscoa. Foi de imediato colocada na incubadora por problemas respiratórios. Após  o primeiro dia de vida, a Joana não mamava, tendo nos, os pais,  sido informados de que a criança tinha reflexos arcaicos, débeis e mal formações nas mãos o que poderia indicar uma cromossomopatia  - Foram feitas colheitas de sangue para despistagem da suspeita da cromossomopatia. No segundo dia de vida, foi detetada uma fratura no úmero por torção. Como a Joana tinha estado na incubadora, e só o pessoal de enfermagem e médico tinham tocado nela, a equipa médica informou -nos de que poderia ter Osteogenese Imperfeita.

Após realizados vários testes e exames de despistagem das cromossomopatias como da Osteogenese Imperfeita, ambos os resultados foram negativos. Ao sétimo dia de vida, e primeiro dia em que a Mãe pode ter ao colo a Joana, foram feitos exames de despistagem por suspeita de Sépsis, devido à episódios de temperatura elevada, tendo dado resultado negativo.

Fez Fisiatria ao décimo oitavo dia e foi alimentada por sonda até ao vigésimo segundo dia de vida. A Joana teve alta hospitalar no dia 08 de Maio de 2009.

Aos 4 meses, e após alguns episódios e visitas ao hospital por problemas diversos de sangramento bucal, foi feita uma endoscopia e Biopsia no hospital de São João no Porto, que veio a revelar que a Joana tinha Candidíase desde a língua até ao esófago, razão que originava o sangramento bucal. Esteve internada uma semana. Após um dia de ter tido alta, a Joana teve novo episódio de sangramento. Após dias de internamento e diversos exames, foi diagnosticado que a Joana tinha Refluxo Esofágico. A Joana começou a recuperar, com a exceção do seu peso. Com oito meses de idade pesava somente 5,200kg tendo sido novamente internada por má evolução ponderal. Teve alta por altura do Natal.

No dia de Carnaval de 2010, a Joana teve novo episódio de vomito  com sangue. Foi novamente internada, fez novos exames e uma nova endoscopia no Hospital de São João no Porto por suspeita de Hemorragia Digestiva Alta.

A saúde da Joana foi-se deteriorando mês após mês, já após ter tido alta do Hospitalar. Em Março de 2010 foi novamente internada com pneumonia.

Com quase um ano de vida, a Joana foi à consulta de Gastroenterologia Pediátrica, tendo-nos sido dito  que a Joana teria de parar com a medicação  por estar a inibir o estômago de produzir ácido e que tal situação iria trazer complicações/ infeções a longo prazo.

Ao fim de um ano de vida, muitas dúvidas persistiam, dúvidas da nossa  parte assim como por parte dos vários médicos que acompanharam a Joana ao longo deste tempo todo. Não existia diagnóstico para a nossa filha.

Em Maio de 2010, a Joana voltou a vomitar sangue, tendo sido marcada nova endoscopia. O resultado desse novo exame indicou que para além de Refluxo Esofágico a Joana tinha também uma Hérnia no Hiato e que necessitaria de ser operada o mais breve possível. Neste tempo de espera pela cirurgia a Joana teve novamente diversas pneumonias, cada vez mais graves, com dificuldades respiratórias, Hipoxemia, achados anormais no exame radiológico, tendo os exames de despistagem dado resultado negativo para todos os vírus pesquisados. Após mais uma semana de internamento, o estado de saúde da Joana voltou a piorar, tendo a equipa médica chegado à conclusão, que tal situação se devia à aspiração do refluxo esofágico para o pulmões.

Em junho de 2010 a Joana é operada, para resolver o problema do refluxo e do Hiato. A operação correu muito bem.

O tempo foi passando e a Joana foi submetida a nova cirurgia, mas desta vez à vista para corrigir uma situação de Estrabismo  Divergente , que lhe estava a dificultar o equilíbrio e a coordenação motora. Até ao dia de hoje, a Joana foi operada ao Esófago, ao Hiato, às Adenoides, aos Ouvidos e à Vista.   Ao longo deste tempo todo, procuramos sempre respostas para os problemas da Joana. Até à poucos dias atrás, nunca foi  feito diagnóstico para o problema de que padece. A Joana começou a dar os primeiros este ano (com 6 anos de idade), assim como mastigar alguns, poucos alimentos. A Joana não fala,  não interage com outras crianças, não caminha sozinha etc.

Ao longo destes anos, temos  procurado respostas/terapias para proporcionar uma vida melhor para a Joana. Fez CME (Cuevas Medek Exercises), Therasuit. Faz  Fisioterapia, Terapia Mio fascial, Neurofeedback, Terapia da Fala, Terapia Ocupacional, sendo que muitas destas terapias não existem no Serviço Nacional de Saúde português, somente em algumas, poucas, clínicas privadas. São terapias/tratamentos dispendiosos e  não  comparticipadas pelo Estado Português.

Para fazer face aos elevados custos mensais que têm tido com as terapias, temos   feito, ao longo dos últimos 3-4 anos,  campanhas de angariação de tampinhas de plástico (para posterior venda), rolhas de cortiça, leiloes solidários, eventos diversos para angariação de fundos, campanhas para divulgar o caso da Joana na esperança que alguém conheça casos idênticos ou iguais e na esperança que algum investigador de doenças raras se interesse pelo caso. Como é facilmente compreensível, todo este esforço que temos tido, apesar de ajudar a pagar parte de alguns tratamentos, não tem sido suficiente para fazer face à elevada carga monetária, mensalmente necessária,  para que a Joana possa usufruir destas terapias. Para além do referido, todo este trabalho , aliado ao nosso trabalho profissional e `s deslocações quase diárias para a cidade de espinho (que dista cerca de 140 km da cidade onde vivemos)  retira-nos qualidade  de vida, necessária para que a nossa atenção esteja direcionada somente para o que é necessário...o cuidado da criança. É um esforço físico e mental atroz, mas que é feito com vontade, com garra, com determinação e com fé e esperança de que alguma destas terapias tenha resultados positivos na vida da nossa filha.

Na semana em que é feita esta carta, e após termos realizado diversos contactos, via internet,  expondo a situação da nossa filha a alguns médicos, entre os quais, uma equipa de investigação inglesa  composta por médicos ingleses e Portugueses, obtivemos finalmente um diagnóstico para a Joana. Sindrome de Schaff Yang. Existem apenas 14 casos no Mundo (contando com o da Joana) sendo o segundo caso diagnosticado na Europa e o primeiro em Portugal.

Hoje sabemos com o que podemos contar para o futuro, sabemos, como sempre o soubemos, que será um futuro difícil, mas que o amor que nos une à nossa filha, será o motor para nos fazer superar cada dia que passa, com dificuldades é certo, mas também, e mais importante que tudo, com muito amor e carinho."


 


 





sábado, 25 de abril de 2015

KM 19 - Maratona de Madrid 2013



MARATONA DE MADRID
 

27 de abril de 2013

 
 
 
                                                
   Amanhã corre-se a Maratona de Madrid. Em 2013, sem qualquer treino especifico que desafios desta natureza obrigam, aventurei-me na minha segunda maratona. O resultado final não foi o mais esperado, mas as emoções foram muitas, e a aventura valeu a pena.



 

    "Quando me levanto ás 5.30h em Parla, uma localidade próxima de Madrid, estou apenas a 3h30m de viver a minha segunda maratona. Exatamente o mesmo tempo que desejo gastar na minha batalha.
Com o tranvia, sistema de transporte local, ainda encerrado, faço uma caminhada de cerca de 30 minutos até á estação de comboios de Parla, onde apanho o comboio até Atocha ( quem não se recorda dos atentados de Atocha?).

Faltam 45 minutos para o início da corrida quando chego à zona de partida em Colón ( Colombo). Ainda tenho tempo suficiente para colocar creme nas pernas, e sobretudo junto aos joelhos, antes de deixar os meus pertences no guarda roupa da organização, e fazer mais um pequeno aquecimento ( a caminhada matinal também conta). Mas o caos junto aos guarda-roupa é total. São milhares aguardando para entregar os seus sacos. O facto de atribuirem novo número, faz com que a espera seja maior. A utilização do mesmo número de dorsal teria evitado o desespero de todos os que viam os minutos passar, e a prova prestes a começar.
Finalmente consigo abandonar o caos, mas o corrida está a começar. Já não consigo chegar á zona que me está destinada, coloco-me atrás de cerca de 25 mil atletas, no momento em que é prestada homenagem ás vitimas de Boston ( 25 mil atletas formamos um circulo com o polegar e o indicador, levantando os restantes dedos criando a letra B).
A corrida começa, mas só me apercebo quando chega a minha vez de dar os primeiros passos. Passam largos minutos até conseguir passar a linha de partida, e as centenas de metros que se seguem também são feitos a um ritmo muito lento.
Estou quase a passar por um dos simbolos da cidade de Madrid. A banda colocada no local toca o tema "Zombie" dos Cranberries. Atrevo-me a cantarolar um pouco e a bater as palmas ao ritmo da música. Alguns atletas param mesmo no local a saltar como se estivessem num concerto.
Passo pelo Santiago Bernabéu e procuro em alguma das varandas José Mourinho a aplaudir os atletas. Por instantes recordo algumas frases que escutei no Vicente Calderon durante o Atlético de Madrid- Real Madrid do dia anterior : "Pepe assessino"; " José Mourinho hijo de p."
Atravesso a Avenida pio XII e reparo numa paragem de autocarros, o relógio marca 9h43', já o termómetro coloca-me a par da realidade, está demasiado frio, os 3 graus assinalados não enganam. Aqui e ali vou sentido rajadas de vento gélido que me provocam calafrios.
Desço a rua Príncipe de Vergara, a imagem que vejo diante de mim é impressionante, os milhares de atletas á minha frente formam uma enorme mancha multicolor, onde predominam o vermelho da camisa oficial da maratona, e o amarelo da meia maratona. Olho para trás e o panorama é igual de belo.
Chegamos á rua Alberto Aguilera, aqui o cordão humano perde força, os atletas da meia maratona tomam novo rumo, seguem para os 5 km finais da prova. Eu continuo rumo á gloria de alcançar uma vez mais a marca dos 42.195 metros.
Na praça Sol, o local mais central de Madrid, pois é nesta praça que está o kilómetro zero de Espanha, o panorama que me espera é simplesmente fantástico. São milhares de pessoas que enchem por completo a praça. O pequeno espaço que nos deixam para passar faz-me lembrar as chegadas em alto do Tour de França. Entre a multidão consigo avistar uma bandeira portuguesa. Recordo-me que alguns quilometros atrás tinha visto outra.
Ainda com grande frescura venço a pequena subida que me separa da marca da meia maratona. Já um dos voluntário que sobre patins vai prestando auxìlio médico aos corredores, sente grandes dificuldades em vencer a subida. Um dos atletas de câmara de filmar na mão vai registando o momento, e aproveita para entrevistar o patinador. Reina a alegria e boa disposição na prova.
É sobre o quilometro 21 que alcanço o grupo que segue os guias que correm para a marca das 3.30h. Passo a distância com 1h 40', e com apenas 2663 atletas á minha frente.
Sinto-me bem, fresco, sem dores. Consigo acompanhar o grupo até aos 25 quilometros. Mas depois de passar o rio e ao entrar na Casa de Campo, começo a sentir grandes dificuldades. Já não consigo acompanhar o grupo, vejo passar um outro que aponta para a marca das 3h.45'. Tenho de fazer uma primeira paragem para tentar ganhar forças. Faltam demasiados quilometros para chegar ao "Parque del Buen Retiro". Tenho de buscar forças não sei onde, porque quero a medalha, quero terminar.
A descida da avenida de Portugal parece funcionar como um elixir. Entro nos últimos 10 km.
Nos quilometros que se seguem persegue-me como uma assombração. Nas costas da minha camisa tenho impresso a frase:" Grita, llora, que se te caiga una uña del pie...Hazte del baño en tu short. Pero no dejes de correr." E a cada pausa minha um dos atletas grita-me que não pare, que vem lendo o que tenho escrito, e que tenho que ser exemplo. Recomeço a correr. Algumas centenas de metros mais e volto a parar. A assombração reaparece. Grita-me: " vais sonhar comigo esta noite, mas não podes parar".
É durante esta fase de maior sacrificio que escuto o meu nome. A grande presença de público, o facto de correr bem junto a eles, e o meu nome em letras grandes na camisa, fazem com que escute constantemente palavras de incentivo. Já não consigo olhar as pessoas que me nomeiam, os meus olhos estão pregados ao chão. Os minutos passam demasiado rápido, ao contrário da marca dos quilómetros que não chega nunca.
Chego finalmente á rua Alfonso XII. Faltam "apenas" 2 km. A enorme subida não me desmotiva. Mais uma vez a grande presença de público, e a próximidade que me encontro dele fazem-me lembrar as grandes conquistas dos trepadores no Tour. As palavras de incentivos são-me ditas ao ouvido. " Vamos campeones; ya queda poco; ya sois campeones".
Entro finalmente no Parque del Buen Retiro, o grande pulmão verde da capital espanhola.
Uma vez mais procuro a minha bandeira nacional, pedi a um membro do projeto "couchsurfing", que teve a amabilidade de me receber por 3 noites em sua casa, que esperasse por mim a 200 metros da meta. Avisto-o e faço uma pequena pausa para o instante fotográfico. Pego na bandeira, coloco-a ao estilo "super homem" e faço os metros finais rumo á consagração.
Presto nova homenagem ás vitimas de Boston, benzo-me, penso em todos os que me incentivaram, antes e durante a prova e passo a linha da meta com um tempo superior ao alcançado na Cidade do México.
Mas isso pouco importa, quando o objetivo de terminar a minha segunda maratona está alcançado. E mais uma vez, sem motivos para tal, choro convulsivamente.
                                                                                                                                                                                                                       

                                                      Para a minha mãe, minha fã # 1".
 
                                                            in Mensagens Aguiarenses 21 maio 2013

 

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

km 18 - SANTO THYRSO ULTRA TRAIL



SANTO THYRSO ULTRA TRAIL
 

15 de fevereiro de 2015

 
 
 
                                       Há obstáculos. Há dúvidas. Há erros.
                                       Mas com trabalho duro,
                                       não há limites!
                                                
          

     Das 24 horas de Vigo para Santo Tirso.

       "2º Luís Santiago Costa, 43 anos.
      O grande prejudicado pelo sistema de classificação. Foi o atleta que completou um maior número de quilómetros, 178. Nunca o vi nas boxes. Em passo lento e ritmado, foi somando quilómetros. Acabou as últimas horas já a caminhar. Sempre me dirigiu palavras de incentivo quando nos cruzamos. Foste enorme."

                                                                          In km 12 - 24 Horas de Vigo
              
             
Quem diria que ia encontrar nesta prova um dos principais e mais combativos atletas das 24 horas de Vigo. E porque o encontro foi uma verdadeira surpresa, acabou por revelar-se mais agradável do que o esperado. É sempre bom poder cumprimentar pessoas que nos ficam na memória em algumas provas, e que num futuro reencontro se sentem tão surpreendidos e gratos quanto eu.

Luis Costa


       O mais duro desafio que entra diretamente para o Top 3.

       Não tenho qualquer dúvida em classificar esta prova, como uma das três que mais gozo me deu e de que mais desfrutei até hoje. A maratona do México e as 24 horas de Vigo, por tudo o que vivi e porque representaram as minhas estreias nas distâncias figuram naturalmente neste lote. Pela excelente organização, porque em momento algum me disse nunca mais me meto noutra, e porque os bons momentos se sobrepuseram aos maus, o Santo Thyrso Ultra Trail entra obviamente no meu top 3.



       Devagar se vai ao longe!

        Por vezes tenho dificuldade em escrever sobre desafios menos conseguidos. Outras vezes tenho dificuldade em contar os inúmeros bons momentos dos mesmos . Deste, tudo o que tenho para narrar e contar, se o tentasse  ao pormenor, só seria possível apresentando-vos um vídeo de 6:45h, onde fosse possível observar tudo o que vivi ao longo do mesmo.
        Confesso que tinha grande receio em enfrentar os 48 quilómetros da prova. Sei como as longas distâncias alteram o meu metabolismo, e me fazem passar horas de angústia e sofrimento. Sei que depois de alguns quilómetros, as minhas pernas já não respondem ás minhas exigências, e as dores e cansaço me fazem amaldiçoar o momento em que me decidi a enfrentar tamanho desafio.
         É verdade que em determinados momentos senti algumas náuseas, dores, quebra de rendimento. Mas nunca, em momento algum, senti desejo de que a meta já estivesse ao virar da esquina.  Cada passada, cada metro, cada quilómetro, foram de tamanha satisfação e prazer, que se tivesse que repetir hoje de novo a façanha, o faria sem pestanejar.
          Dizer que a prova foi excelente; que os seus voluntários foram extraordinários; que o percurso era lindíssimo; que a camaradagem entre atletas foi fantástica, é dizer o obvio, que qualquer atleta dirá depois de concluir a sua prova. Pessoalmente, não me vou alargar muito mais, e todos estes sentimentos foram unânimes. Vou apenas acrescentar algumas notas sobre determinados momentos em que fui protagonista.


           Estamos nos momentos  iniciais da prova. Estão eliminados os primeiros 2 ou 3 quilómetros. A ritmo lento, quase na cauda do cordão formado pelos   130 atletas presentes, José Sousa, um atleta com quem dividi pista nas 24 horas de Portugal, alcança-me. Então? Está tudo bem? Vais aqui tão devagar... 
          - Tenho tempo. Devagarinho, afinal tenho 10 horas para terminar.
            Tomei a decisão certa. Correr a ritmo lento, sem as correrias desenfreadas de inicio de corrida, que acabo por pagar caro mais á frente. Procurei sempre manter um trote certo, quer a subir, quer a descer até perto dos 30 quilómetros, enquanto o percurso assim o permite. Esta primeira fase da prova, funciona mais como uma injeção de quilómetros nas pernas de todos nós, para que os 20 quilómetros finais, de maior dureza, fossem mais difíceis de enfrentar. A partir dos 30, tudo se complica. As subidas são mais longas e ingremes, e as descidas mais técnicas e vertiginosas. Mas é a partir deste momento que a prova anima verdadeiramente, e nos sentimos os mais afortunados dos atletas por estar-mos a desfrutar de tão belos momentos.


         Apesar do cansaço se ir acumulando quilómetro após quilómetros, a oportunidade de observar e passar por locais tão belos e inspiradores, torna a nossa aventura um agradável sacrifício. Como foi bom conhecer a Citânia de Sanfins ( concelho de Paços de Ferreira), e o Castro do Monte Padrão a correr como uma gazela. Ultrapassar o bonito e secular carvalhal de Valinhas e o Monte Nossa Senhora da Assunção a trotar como um cavalo. E como um verdadeiro alpinista, vencer as dificuldades do "Parque Jurássico", um grande afloramento rochoso, Pilar de seu nome, que tivemos que escalar com grande dificuldade, e depois descer, ou melhor, deslizar com a ajuda de cordas. Grandes momentos de pura adrenalina. Adrenalina que foi subido ao longo da prova, e que atingiu o seu auge quando alcançamos as quedas de água da Fervença. A descida até ao rio Leça tinha tanto de belo como de perigoso. O piso estava bastante escorregadio, e um simples deslize lançava-nos para um precipício de algumas dezenas de metros. Mas depois, foram demais os bons momentos. Atravessar o rio para a outra margem com água até á cintura. Exagerado. Até aos joelhos. Abastecimento. Atravessar de novo o rio, desta vez saltando rocha a rocha. Alguns metros mais, e nova travessia. Uma pequena queda de água fazia a travessia mais difícil, mas superável. E depois havia que subir e escalar com o apoio de cordas, e sempre com o belo cenário das cascatas e o som da queda da água a inspirar-nos e a dar-nos força. Que grandes e agradáveis momentos...Tinha superado 34 quilómetros, restavam 16, mas estava ganho o dia. Até á linha de meta, o cansaço crescia, as dores aumentavam - sobretudo as dores nos joelhos e em descida - e o sobe e desce mantinha-se. Mas, ora a correr, ora a caminhar venço o desafio, um duro e aprazível desafio em 6:43h. Ainda antes de cortar a meta, olho para trás e vem o José Sousa. Paro e espero por ele. Anda lá! Estou à tua espera. Começamos juntos, acabamos juntos.


       Depois, foi esperar quase 2 horas pela chegada dos meus novos companheiros  de running. Solange Cabral, Carla Moreira e José Ribeiro...devagar se vai ao longe!

     Para a estatística:

     Ultra trail (50 km) número 1
     Tempo chip: 6:42:57h
     Classificação geral: 66º (128)
     Classificação escalão (senior M): 43º (77)

     Até já!

       

         



segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Km 17 - 17ª Meia Maratona Manuela Machado






17ª MEIA MARATONA MANUELA MACHADO
 

18 de janeiro de 2015

 
 
 
                                                Se não podes ir a Castrelos,
                                                vem Castrelos ter contigo!
                                                
          


      Em Castrelos nunca corres só. Em viana também não!

      Quem vem seguindo as minhas crónicas, e quem acompanhou a minha aventura nas 24 horas de vigo, sabe como guardo dessa competição as mais belas recordações. E sabem o quanto estimo e respeito toda aquela gente que tão bem organizou a prova.
      Daí que o facto de ter encontrado grande parte dessas pessoas na meia maratona de Viana, tenha sido um belo momento para matar saudades, e saudar todos quantos tão bem me receberam e trataram em Castrelos. Apesar de um grande contingente de atletas Castrelos 20:30 se ter deslocado a Viana do Castelo, junto com mais 800 runners galegos,  ou perto disso, naturalmente que faltaram outros tantos. Mas estava ali Vidal, o grande obreiro das 24 horas de Vigo. Sevi, estafeta, voluntário e organizador, que me acompanhou no quilometro 126 de Castrelos. Sobrino, com quem dividi pista no desafio 24 horas, e que mesmo desistindo ás 16 horas de prova conseguiu superar-me na classificação final. Geni, também ela voluntária e estafeta das 24 horas, que tanto me apoiou e incentivou. E outros, que apenas recordo nomes e caras, mas com quem não privei tanto como com os nomes que referi.



        4X21 km em Viana do Castelo !

         Pela quarta vez e quando inicio o meu quarto ano de corridas, a primeira grande prova do ano acontece no norte do país. Foi assim em 2012, na minha primeira meia maratona. E foi assim nos dois anos seguintes, e volta a ser da mesma forma este ano, na minha 19ª meia maratona.
         Mais uma vez a Helena esta presente, mas este ano será cada um por si. Eu vou tentar aproximar-me da marca da última corrida. Ela vai tentar fazer melhor que no ano passado. Fazemos um aquecimento debaixo de uma chuva intensa e de muito frio. É dado o tiro de partida ás 10:30h, e já estamos molhados até ao tutano. Devido  ao problemas que tenho em hidratar-me ao longo dos desafios, este é o clima ideal para que não tenha que me preocupar com essa tarefa.
          Sinto a falta do balão que tanto me ajudou a baixar a hora e meia em Villagarcia, mas mesmo assim, sempre com um ritmo instável, tento encontrar aquele com que me sinta mais confortável. A tarefa adivinha-se árdua, porque por mais que tente, não consigo aumentar para um ritmo desejado. Aqui e ali tento acompanhar alguns atletas conhecidos. Nos primeiros quilómetros Sobrino serve-me de lebre, mas facilmente me deixa para trás. Aos 7 km alcança-me o mesmo atleta do Clube Atenas, que levava o balão em Villagarcia. Pergunto-lhe se vai para a hora e meia. Talvez um pouco  mais, esta prova é mais difícilComo na altura não tive oportunidade, agradeço-lhe por me ter ajudado a fazer 1:29h em Espanha. Tento ir com ele, mas hoje não estou nos meus dias. O mesmo ritmo que alguns meses atrás não tive dificuldade em acompanhar, hoje revela-se impossível de alcançar.
            Sempre que sou alcançado por um atleta de Castrelos, vou soltando um vamos castrelos, animo. Alcança-me mais um grupo, e entre eles vem um elemento que tão bem reconheço. Vamos Sevi, tira palante! Também este grupo eu tento acompanhar, mas não c.o.n.s.i.g.o. Desisto de tentar um ritmo mais elevado, e mantenho o que me é mais confortável. Chego á linha de meta e paro o cronometro que marca 1:33:44h.
            Termino o desafio meio satisfeito com o meu desempenho, mas muito satisfeito por ter encontrado tantos amigos numa só prova. E Castrelos 20:30, nunca correram sozinhos em Viana do Castelo!




      Para a estatística:

      Meia maratona número 19 
      Tempo líquido (chip): 1h33'44'' 
      Classificação geral: 674 

      Classificação por escalão: 169
 
       Até já!

         
        

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Km 16 - 2014, um ano de trotadas de A a Z


2014
Um ano de trotadas de A a Z
(e com fotos)
Amigos. Foram muitos os que adicionei ao meu circulo, sobretudo após as 24h de Vigo. São de facto os únicos triunfos de todos os desafios. Também importantes, foram todos aqueles que estiveram presentes em algumas corridas, Barcelos, Vigo, Vale de Cambra, Braga. Esta crónica é para eles, porque se vão identificar mesmo não mencionando nomes.


Barcelos. Na primeira meia maratona de Barcelos vivi a primeira grande satisfação do ano, após cruzar a meta com um tempo de 1h32'. Na altura correspondeu ao meu melhor tempo em meias maratonas.

 
Castrelos. É o nome do parque em Vigo onde se realizou a inesquecível prova de 24 h. Castrelos 20:30 é também o nome do grupo de atletas que organizaram de forma soberba, exemplar, perfeita, sensacional, a mais formidável prova de 2014. Enhorabuena José Vidal Rial e os teus pupilos.
 
 
Desistir. Palavra que continua fora do meu vocabulário. Nunca aconteceu, mas na meia maratona de Coimbra abdiquei dos 21 km, e fiquei pelos 10 da mini maratona. Com maiores ou menores dificuldades, sempre alcancei as linhas de chegada.

 
Espanha. No país vizinho as provas são mais populares. Não há prémios monetários. As inscrições são mais baratas. E o público que assiste ás provas é em grande número e não se cansa de aplaudir, incentivar e interagir com os atletas. Das 20 provas deste ano, 5 foram em Espanha.

 
Fotos. São os registos que vão ficar para a posteridade. Todos nós gostamos de nos ver num grande número de fotos. Em duas provas estive do outro lado, e registei a passagem dos atletas, na meia maratona das areias, em Gaia, e na meia maratona de Coimbra. Também desse lado senti uma satisfação enorme. E graças aos fotógrafos podemos guardar pequenos fragmentos das nossas histórias. Agradeço aos fotógrafos as fotos que me permitem ilustrar esta crónica.



Gonzalez. José Manuel Conde Gonzalez. Venceu as 24 h de Vigo. Um exemplo, uma força da natureza. Com 70 anos venceu de forma categórica a prova e fez jus ao ditado que diz: Velhos são os trapos!

 
Helena Mourão. A mulher pequenina, como foi carinhosamente apelidada por uma jovem espetadora numa prova, deixou-me acompanha-la em grande parte dos desafios, sobretudo nos do circuito nacional de montanha, onde ela tinha um título a defender. Foi com grande prazer que corremos juntos, nos divertimos, ultrapassamos perigos e obstáculos, e alcançamos metas.

 
I O 1 romano. Foram várias as provas que realizaram a sua 1ª edição neste ano, e eu estive lá nas suas estreias. Desde a I meia maratona de Barcelos e de Coimbra. As primeiras edições das 24 h de Vigo e de Portugal. A I Maratona Internacional de Tânger. O 1º Trilhos do Marão e trail de Vila Pouca de Aguiar. E a 1ª edição da São Silvestre de Vila Meã. Sou totalista em todas elas, até quando??


José Manso. Conheci-o nas 24 h de Vigo. Voltei a dividir a pista com ele nas 24 h de Portugal. Um luxo poder correr ao lado de tão notável e humilde atleta.

 
Km (Quilómetros). Foram centenas os contabilizados este ano. Só em provas foram 648 km. Divididos em 20 corridas e alcançados em cerca de 87 horas de passos e trotadas. O máximo foi conseguido nas 24h de Portugal, 140 quilómetros. A corrida mais curta foi a São Silvestre de Braga, com apenas 8 km.

 
Ligamentos. Não tive lesões ao longo de 2014, apesar de ter começado o ano a curar uma micro rotura. Mas após as 24h de Portugal, tive de recorrer a tratamentos de terapia. " Fritas-te o ligamento". Estas as palavras da terapeuta ao observar o meu joelho, um dia depois de ter completado 140 quilómetros.
 

Marina Gabriel. A ela agradeço o facto de as minhas paragens por lesão serem mais curtas que o espectável. É a minha terapeuta de serviço. SOS MARINA.

 
Nostalgia. É com grande nostalgia que recordo as corridas de 2014, algumas mais que outras. Das 24 horas de Vigo guardo os momentos mais nostálgicos.

 
Onze. O meu número de dorsal nas 24h de Vigo. A mais bela corrida que fiz até hoje.

 
Pódio. Aconteceu nas 24h de Portugal. 2º lugar no escalão, sénior masculino. Na geral fiquei pelo 7º lugar. Mas teve um sabor muito especial, por ter sido a primeira vez, e por ter sido após uma larga ultramaratona de 24h.


Quatro. Mais um número muito especial porque correspondeu ao meu dorsal nas 24h de Portugal.

 
Record. Ou Personal Best. Aconteceu por 3 vezes este ano. Em Barcelos, na meia maratona, onde com 1:32h consegui o meu melhor tempo. Nas 24h de Portugal, onde somei mais 14 quilómetros que em Vigo. E muito recentemente, na meia maratona de Vilagarcia de Arousa, com um tempo de 1:29h.

 
Seiscentos e quarenta e oito quilómetros, somados apenas em provas ao longo de 2014.
 
Tânger. Foi nesta cidade marroquina que realizei a única maratona de estrada do ano. Uma muito agradável experiência, quer pelos bons e maus momentos vividos durante a corrida, quer pela oportunidade que tive de conhecer a cidade e as suas gentes. Um povo maravilhoso.

 
Ultramaratonista. Nova especialidade conseguida este ano. Em três provas ultrapassei os 42 clássicos quilómetros da maratona. Aconteceu nas 2 provas de 24h, e também na Maratona de Tânger, porque chegou aos 43 quilómetros, mais um que a distância oficial.

 
Vinte e Quatro horas vezes dois. Aconteceu num espaço de 3 semanas. Em momento algum me arrependi de o ter feito, e são provas que quero repetir mais vezes, com o propósito único de desfrutar, me divertir e fazer amigos.

 
XX Total de corridas em que participei. Duas provas de 24 h. Uma maratona. Nove meias maratonas. Duas São Silvestre. Um trail. E mais cinco corridas do circuito nacional de montanha.
 


Zero. É assim que vai começar 2015. Zero quilómetros. Zero corridas. Começa tudo de novo. Novas corridas, novos desafios, novos amigos, novas experiências, novo clube, novas viagens, novas crónicas, novos leitores, novas criticas. A mesma paixão, o mesmo empenhamento, a mesma alegria.
 


FELIZ 2015!

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

km 15 - Maratona de Tânger



I Maratona Internacional de Tânger
 

9 de Novembro de 2014

 
 
 
      "...quando se tem um bom tema para escrever, o  resultado no papel é sempre bom."
  

                                                             KM 0, Linha de Partida
                                                
          


      Quero a minha mala!

       Passou mais de um mês sobre a aventura da minha 4ª Maratona, e só agora consigo partilhar convosco o bom ou o mau do momento.  Quando comecei a escrever no meu blogue, na minha primeira crónica, referi que não teria grandes dificuldades em escrever belos textos, quando a materia prima sobre a qual iria escrever fosse sobre belos momentos. Não quero qualificar esta minha experiência em solo Africano nem como bom, nem como mau momento, apenas dizer que foi uma aventura diferente. E depois da Cidade do México,  Madrid, e Frankfurt, esta maratona é  completamente o oposto de todas as outras em que participei.  Longe dos cerca de 15 mil participantes da maratona de Frankfurt. Longe dos cerca de um milhão de espetadores que  assistiram à prova na Cidade do México. Longe das excelentes organizações das maratonas anteriores. É verdade que se trata da primeira edição, mas foram cometidos demasiados erros. Os abastecimentos depois dos 21 km desapareceram. O trânsito após as 2:30h de corrida retomou a circulação. A classificação final é suspeita. Contei os atletas que iam à minha frente, e com alguma margem de erro, a minha classificação apontava para um lugar pelo 35º posto. No final surjo no 47º lugar. Provavelmente alguns atletas apanharam um táxi. Não me admira nada, eu só não o fiz porque não tinha uma moeda comigo, porque as dificuldades que passei após os 30 quilómetros, sugeriam que me dirigisse á zona de chegada de outra forma que não fosse a correr ou a caminhar.
      Mas este desafio parece estar destinado ao fracasso desde o primeiro momento em que pisamos  solo africano. Para a história do desafio e da viagem fica o fato de a Helena me ter acompanhado, ou de eu ter acompanhado a Helena nesta  sua aventura cheia de estreias. Desde longo a sua primeira viagem de avião, e a primeira viagem fora do continente Europeu.
      Tudo parece estar a correr bem até ao momento, em que aterramos em Tânger. A viagem e a escala em Madrid foi feita sem problemas. Descemos as escadas desde o Airbus, fazemos as primeiras fotos da praxe no minúsculo aeroporto Internacional de Tânger  e percorremos os escassos metros que nos separam do edifício principal sem recurso a mangas ou a  autocarros. Chegamos á zona de recolha das bagagens, e já as malas estão a circular no tapete. A Helena recolhe a dela, a minha não aparece. Soa o alarme. O momento que mais tenho temido ao longo de todos estes anos em que tenho calcorreado um pouco por todo o mundo, recai sobre mim. Pergunto ao funcionário presente no local se não há mais malas, e ele dispara um sonoro e italiano finito, como se fosse um dos mais comuns acontecimentos no aeroporto. Mais tarde tenho conhecimento de que é perfeitamente normal as malas não chegarem junto com os passageiros a Tânger. O infinito tempo que gastamos a preencher a ficha de reclamação, faz com que percamos também o transfer que nos deveria levar ao hotel.
      Antes de embarcar-mos nesta nossa viagem, elaborei um plano que nos permitisse usufruir ao máximo do escasso tempo que vamos passar em África. A maratona vai gastar-nos  algum tempo, mas dispomos ainda de largas horas para algumas visitas aos locais mais recomendados da cidade e arredores. Com este pequeno/grande contratempo, as restantes horas do dia de sábado, vão ser gastas a levantar o dorsal, a comprar novo equipamento desportivo, a jantar e a descansar. Na primeira tarefa acabamos  por despender mais tempo do que o desejado. Apesar de um grande número de táxis azuis circular pelas ruas (foram os táxis que nos recomendaram que apanhássemos, porque eram menos dispendiosos), não conseguimos encontrar nenhum completamente livre. Acontece que estes táxis são comunitários, ou seja, são partilhados por vários passageiros. Por fim pára um, e pedimos que nos leve a Dradeb, mais propriamente ao pavilhão de Dradeb. Por azar, o taxista apenas fala árabe. Tento explicar-lhe que queremos ir ao pavilhão de Dradeb. Ele apenas entende a palavra Dradeb, que é uma zona da cidade, e, quando já nessa zona, reduz de velocidade como que a convidar-nos a sair. Eu mando avançar, e vou repetindo Dradeb. Cansado de o ouvir perguntar se já pode parar, eu digo que sim, pois talvez encontremos nas ruas alguém que fale espanhol, francês ou inglês que nos indique o pavilhão. Mas, depois de alguns azares e ainda sentado no táxi, olho para a esquerda e vejo o pavilhão desportivo. Parece que a nossa sorte começa a mudar.
       Levantamos os dorsais, pedimos informações sobre onde comprar material desportivo, metemo-nos dentro de um novo táxi azul e rumamos ao centro da cidade. Compro o material que me faz falta para substituir o que ficou retido na mala. Umas sapatilhas, das mais baratas, calções e meias. A camisa não compro, vou usar a que foi oferecida pela organização da prova. Gastamos o que resta do final de dia para jantar e recolhemos ao hotel para descansar.

Cartaz da prova


          Allez!Allez!

         Domingo, dia do grande desafio. Despertar as 6h. Pequeno-almoço às 6.30h. Á saída do hotel outros dois atletas oferecem-nos boleia. Agradecemos e entramos para um dos milhares de Dacia que circulam nas ruas de Tânger. A viagem é curta, apenas um par de quilómetros. Depois de algum tempo em busca do guarda roupa, fazemos um breve aquecimento. Não há informação sonora, e quando todos os atletas se encaminham para a zona de saída nós acompanhamo-los. Não somos mais de 100 na zona de saída. Passa um pouco das 9 horas quando é dado o tiro de partida. Está lançado o desafio. O objetivo passa por fazer melhor do que nas maratonas anteriores, para isso conto com a experiência da Helena. A cada quilómetro que vamos eliminando, pergunto-lhe o ritmo a que vamos. Se bem se recordam, também na minha mala estava o meu relógio. Tínhamos  pensado fazer á volta de 5' o quilómetro, e nos primeiros estamos a cumprir.  Estamos sobre o km 7, e a Helena baixa o ritmo. Queixa-se de dor de burro, e pede-me que continue. Porque me sinto bem, avanço, literalmente sozinho. Á minha frente com cerca de 100 metros de avanço vai um atleta, atrás de mim vem a Helena. Até aos 10 quilómetros o trajeto foi um constante sobe e desce. Dos 10 e até aos 21 aproveito o desnível negativo para avançar mais velozmente. Na segunda metade da prova vamos fazer o percurso no sentido inverso. Adivinham-se grandes dificuldades, mas, porque o percurso assim convida, aproveito para aumentar o ritmo e rodar mesmo a 4'18'' entre os 10 e os 15 quilómetros. Durante estes quilómetros ultrapasso alguns atletas que vou incentivando com palavras  de  allez, allez! Completo a  meia maratona sem qualquer referência de tempo gasto. Pergunto a alguns voluntários presentes, mas ninguém me informa. Aproveito para me alimentar, apenas com alguma fruta que vão distribuindo. Tenho necessidade de alguns alimentos salgados e da minha água, mas estes estão algures entre Madrid e Tânger, assim espero.  Algumas centenas de metros após o retorno cruzo-me com a Helena. 1:45h diz-me depois de lhe perguntar o tempo. Estamos a cumprir com o objetivo. Um atleta informa-me que estou na 33ª posição. Já havia tentado o mesmo exercício após cruzar-me com os atletas á minha frente, mas perdi-me nas contas. Se até aos 21 o percurso era a descer, agora é a subir, e o vento forte do Atlântico está agora de frente. Apesar das dificuldades consigo ainda chegar á 30ª posição após passar por mais 3 atletas. Para dificultar ainda mais, os abastecimentos desapareceram, só por volta dos 30 quilómetros, um carro da organização aparece a  distribuir água ao longo do percurso.

A única foto da corrida, retirada de um vídeo promocional do evento.

       Últimos 10 quilómetros do desafio e estou incapaz de dar um passo mais que seja. A larga ausência de hidratação parece ter-me provocado sérios problemas. Sinto náuseas, paro para vomitar, o trânsito, estranhamente, retoma a circulação. Perco-me numa rotunda, e sou alertado por um condutor que me indica a direção correta. Um a um, os atletas que fui ultrapassando numa fase mais vigorosa da minha prova, vão passando por mim. Também a Helena, e precisamente no mesmo local onde a abandonei, pelo quilometro 7, passa por mim. Ainda tento acompanhar o seu ritmo, mas sou incapaz. Faço uma paragem mais longa, e vomito uma e outra vez a escassos 2 quilómetros do fim. Um carro da polícia para, e um militar oferece-me ajuda. Agradeço a água que me dá e a ajuda, mas digo que com alguns minutos de pausa me recomponho. Até á linha de meta a tarefa torna-se penosa, sofrível, mas passo a passo, trote a trote avanço em direção á linha de chegada, onde a Helena aplaude e aguarda a minha chegada. Dispenso um olhar fugaz ao relógio, e após 4h05' de prova, consigo finalmente ter acesso ao meu tempo.
       Termino sem a euforia habitual. Termino sem a satisfação de outros desafios. Termino a repetir comigo mesmo que nunca mais me meto noutra. É o sentimento habitual que me provocam os desafios menos conseguidos.
        No regresso ao hotel prolongamos o sofrimento da prova. A Helena tem cãibras e é ajudada por um marroquino porque eu sou incapaz de a auxiliar pois estou a contas com novos vómitos, que se prolongam pela tarde  durante um par de horas.


Parte do percurso plano junto á saída e chegada da prova

        
        Depois de me recompor, viajamos até ao aeroporto, onde recolho a minha tão desejada mala. O taxista que nos transporta revela-se um autêntico guia turístico, e com o seu auxilio conseguimos percorrer e conhecer alguns dos locais que tínhamos pensado visitar.
          Foi uma viagem relâmpago a Tânger, onde nem tudo correu bem. Onde os azares se sobrepuseram aos momentos de sorte, mas onde a experiência vai ficar para sempre na nossa memória, quer pelos bons, quer pelos maus momentos. Para regressar a Tânger? Sim, com toda a certeza. Para correr a maratona? Mais de um mês após a prova, a resposta é diferente da que daria no dia da prova. Sim, gostava de repetir.

Medina de Tânger


Para a estatística:

      Maratona número 4
      Tempo líquido (chip): 4h05'10''
      Classificação geral: 46 (63)
     


     Até já!