domingo, 27 de julho de 2014

Km 9 - 8º Cross de S.Brás (Granja- Castro Daire)



8º CROSS DE S.BRÁS (Granja- Castro Daire) 
Circuito nacional de montanha
 

20 de julho de 2014

 
 
 
         Quem corre por gosto não cansa.
         Quem cansa a correr não gosta.
         Quem não gosta de cansar, não corre!
           
                                          Paulo Machado


      Como uma verdadeira trilogia!

      Não quero de forma alguma que as minhas crónicas se tornem repetitivas e aborrecidas. Pretendo sobretudo que cada uma tenha motivos de interesse diferentes que vos pretendam até ao até já final, e que vos façam ansiar pela próxima. Esta crónica, referente ao 8º cross de S. Brás, é de alguma forma idêntica á última onde relato o que se passou na corrida do Marão. Os atletas são praticamente os mesmos, e os personagens de que vou falar são já vossos conhecidos. Está a Helena parceira de corridas, o João grande vencedor na última corrida, o Adriano que não quis correr no Marão,  e o Caneca que teve um pequeno papel no trail de Vila Pouca de Aguiar antes de se despistar, e estou eu  para memorizar as incidências e vô-las  narrar.

O Adriano
O Caneca dorsal 555
      E para que a narrativa se pareça em tudo á do Marão, além dos personagens não podia faltar a chuva. Mas esta  é nossa amiga e abandona-nos antes da corrida começar. Curiosamente, e porque o Adriano ainda está na expectativa de fazer ou não a prova devido á chuva, digo-lhe que não vai chover mais. E na verdade, eu não volto a apanhar chuva durante o desafio. O mesmo não podem dizer os atletas mais lentos, porque 5 minutos depois de eu terminar, abate-se sobre nós uma verdadeira tempestade durante breves minutos.
Dorsal 623


     São 8.30h, 15 minutos depois da hora prevista começa a prova. A temperatura está muito provavelmente abaixo dos 20º, o que é excelente. Os grandes candidatos aos primeiros lugares investem numa corrida desenfreada para se colocarem na frente do pelotão. Eu deixo-me ficar na cauda. Previamente falei com a Helena e disse-lhe que se me sentisse com forças abandonava o nosso ritmo mais lento e tentava uma corrida mais rápida. Nos primeiros metros vou  olhando para trás, vejo que ela não me acompanha  e invisto também eu numa corrida mais audaz e veloz. Os 3 primeiros quilómetros, e porque são acessíveis,  são para ganhar posições que perdi com uma saída mais lenta. Uma primeira ravina, e porque é em sentido descendente, aconselha-nos a moderar a velocidade, e a descer com muito cuidado. Vão junto a mim algumas atletas femininas, que tornam a descida ainda mais lenta. Depois da descida, os metros que se seguem são de igual modo perigosos, apesar de serem em terreno plano. E porque estamos a correr sobre um riacho, as pedras são extremamente escorregadias. Aqui e ali vou ouvindo um ai, ui, cuidado. Mais tarde, relatos de quedas, reportam exatamente a este local. Cientes da  perigosidade do local, a organização coloca no local voluntários para los alertarem e eventualmente assistirem em alguma situação mais dramática.
     Até aos 6 quilómetros  só temos que rolar, com um ou outro sector ligeiramente mais ascendente, e enfrentarmos então 2 quilómetros de verdadeira ascensão. Consigo ultrapassar esta fase sempre a trotar, em passada curta e lenta e desfrutar depois de alguns quilómetros de downhill e pura adrenalina. Devido ao esforço despendido na subida, e porque em descida a passada é mais larga e veloz, começo a sentir um aproximar de cãibras nas coxas. Paro um pouco, alongo,  massajo e siga.
Essas palmas?

     Sinto-me bem, apesar de ir a um ritmo mais elevado que no Marão. Estou a adorar as paisagens, sobretudo os trilhos por onde temos passado. É a natureza em todo o seu esplendor, no seu estado mais puro, quase virgem. A sinalização não permite que nos enganemos no trajeto. Talvez um ou outro atleta mais deslumbrado com a paisagem se possa entusiasmar e seguir  por rotas não sinalizadas.
      Após o quilometro 13 avançamos para um sector já ultrapassado, mas desta vez vai se feito em sentido contrário. A zona perigosa do ribeiro, e de novo a ravina, mas agora toca a subir. Já não consigo fazê-lo em trote, mas avanço passo a passo até ao topo. Temos mais 3 quilómetros pela frente acessíveis e igualmente  belos, sobretudo o percurso que fazemos junto e através do rio. Nesta altura o sol  vai espreitando por entre as nuvens e libertando um calor mais intenso. A frescura da zona junto ao rio é aceite de bom grado, e é tempo de guardar energias para os últimos e implacáveis 5 quilómetros. Os primeiros 3 são de duras e constantes subidas. Nesta altura fico completamente sozinho na corrida. Quem ia á minha frente avançou de forma vigorosa, quem vinha atrás de mim, não resistiu á severidade das subidas e ficou para trás. Antes dos 500 metros finais em subida até á meta, temos uma descida longa, sobre uma senda muito instável. O caminho faz-se sobre pedras grandes e soltas, com constantes mudanças de direção. Requer o máximo cuidado, muita atenção, e olhos focados no local onde vamos colocar os pés. Uma passada mal calculada pode fazer com que facilmente torçamos um pé, tropecemos, e demais situações dramáticas e dolorosas. No final da descida alcanço um atleta M55. Cortesmente diz-me para passar. Não tenho coragem. Sigo na sua peugada, e avançamos numa mini fila indiana até á meta. Tudo o que podemos e devemos fazer numa corrida é ao longo desta, e não nos metros finais. Aqui, a caminho da consagração gosto de respeitar o esforço dos adversários. E afinal,  não está em causa o primeiro lugar. E mesmo que estivesse...
Já está!

      Mais uma vez, apesar de ficar um pouco aquém do que fez no Marão, quedando-se apenas pelo 21º lugar da geral, o João volta a ganhar a corrida no escalão M50. E apenas 23' depois de mim chegou a Helena que não foi capaz de superar a nossa adversária da última corrida.

A Helena seguida pelo Adriano




O campeão João Gonçalves
     Uma nota para a organização. Ou melhor, cinco notas. Cinco estrelas. Delimitação e sinalização do trajeto impecável. Voluntários colocados em pontos estratégicos do percurso. Abastecimentos suficientes. Apenas um senão, e tem a ver com o atraso da abertura de portas para o almoço. Difícil de aceitar numa altura em que estávamos todos esfaimados.



Para a estatística:


      8º Cross S. Brás 22 km
      Corrida de montanha número 4
      Tempo líquido: 2h12' ( a 40' do vencedor)
      Classificação geral: 57 (104)

      Classificação escalão Elite M: 18 (31)
     
Cartaz promocional
     Até já!

 

 

domingo, 13 de julho de 2014

Km 8 - 1º Trilhos do Marão



1º Trilhos do Marão
VIII Campeonato de Portugal FPME de corrida em montanha
 

6 de julho de 2014

 
 
 
        "Fui para os bosques para viver livremente, para sugar o tutano da vida. Para aniquilar tudo o que não era vida, e para, quando morrer, não descobrir que não vivi."
                                                                        Thoreau


    O ditador, S. Pedro, e nós!

     Chove copiosamente. A corrida é adiada em 30 minutos na  esperanças de que as condições climáticas possam melhorar. Alguns atletas já desistiram de participar. O Adriano é um deles: "Corridas há muitas, para a semana já há outra!" Eu congratulo-me. Melhor, é um lugar que fico mais á frente. Mas, quase toda a totalidade dos 100 atletas inscritos não nos demovemos do propósito de enfrentar  e levar a melhor sobre o árduo e difícil desafio que temos diante de nós.
       Conscientes das dificuldades  que vamos enfrentar, cada metro a percorrer é sempre uma nova surpresa. Uma subida cada vez mais íngreme, uma descida cada metro mais vertiginosa. Uma escarpa que temos que escalar, um tronco que temos que saltar.
        Debaixo de um verdadeiro temporal, dá-se início á prova. Após as primeiras centenas de metros, vai-se formando um autêntico cordão humano, com os atletas mais rápidos, naturalmente na frente da corrida. Nós mante-mo-nos no último terço do cordão ( eu e a Helena). Após os dois primeiros quilómetros a corrida começa a endurecer. Vão ser subidas constantes e íngremes até aos dez quilómetros do alto do Marão, onde vamos atingir os 1415 metros de altitude. Consigo ir avançando metro a metro, trote a trote sem parar. A Helena vem atrás de mim. Vai avançando no meu encalço de forma mais lenta e sofrível. A espaços, reduzo a velocidade e espero por ela. Em zonas mais íngremes e acidentadas, coloco-me ao lado dela e apoio-a na  sua árdua tarefa. Num momento em que ela vai em desequilíbrio seguro-lhe no braço e evito que caia. Uma atleta que vem atrás de nós, entende o gesto como um benefício da minha parte em prol de uma adversária. De forma irónica pergunta: Está tudo bem? Mais tarde vou ter oportunidade de a ajudar também a ela.  "Perdoa aos teus inimigos, nada os irrita tanto".
        Depois de três quilómetros sempre a subir, chegamos a um troço de cerca de dois quilómetros mais acessíveis. Mas apesar de ser em sentido descendente, a atenção da nossa parte tem que ser redobrada. A neblina e a chuva tornam a visibilidade  reduzida e temos que prestar muita atenção não só  á sinalização que nos indica o caminho, mas também ao piso que é muito acidentado e perigoso. Apesar de termos os sentidos focados no nosso propósito, aqui e ali temos oportunidade de observar magníficos e belos postais ilustrados. Paisagens de cortar a respiração. Devíamos ter trazido a lancheira e fazíamos aqui um piquenique. Sugiro. Mas o tempo não está propício para piqueniques.
      Chegamos a um dos pontos mais radicais do percurso. São apenas 70 metros de escalada. Os primeiros metros são feitos usando uma escada metálica de seis ou  sete degraus.  Nos restantes, usamos as raízes e os troncos das plantas mais robustas como corrimão. Os degraus, são rochas que a natureza colocou no local para nos ajudar na subida.
      Continua a chover com intensidade. Em alguns locais, a água  que corre pelos caminhos chega-nos aos tornozelos. Num momento em que a chuva é mais abundante, abro os braços e grito: Ah! Chuvinha boa!  Já a Helena faz uma prece divina: "Vá lá S. Pedro,  já chega. Tem pena de  nós."  Chamem-lhe milagre ou outra coisa qualquer, mas desde as palavras da Helena, e durante alguns minutos, para de chover completamente. Este período coincide com a nossa chegada e passagem pelo quilometro 10, instalado no ponto mais elevado da prova, o alto do Marão com 1415 metros de altitude.    
Alto do Marão, 1415 metros de altitude.

       Vencemos a primeira metade e a mais difícil da prova gastando 1h35'. A partir de agora, o percurso é quase na sua totalidade em sentido descendente, mas muito perigoso. Prova disso é a nossa passagem por um sector entre o quilómetro 11 e o 12. No posto de abastecimento anterior, os voluntários alertam-nos para a perigosidade deste quilómetro. Alcançamos o lugar mais perigoso, que compreende uma descida vertiginosa de cerca de 100 metros, onde é aconselhável descer de marcha atrás, usando todos os possíveis apoios para nos darem segurança e ajudarem e facilitarem a descida. Já em plena descida está a mesma atleta que alguns quilómetros atrás nos chamou á atenção quando prestei ajuda á Helena. Está completamente histérica, a gritar para que ninguém se aproxime nem a empurre. Está completamente imóvel e fora de si. Digo-lhe para não se mexer, que me  vou aproximar e ajudá-la na descida. Agora, á frente dela, vamos descendo passo a passo, com o máximo de cuidado e precaução. As rochas estão escorregadias, o caminho enlameado, e a vegetação rasteira está molhada e perigosa. Vamos usando, uma vez mais, os troncos das plantas mais robustas e as raízes para nos agarrar-mos durante  a descida. A meio da descida, parece mais calma, e já é ela que estranhamente me vai dando indicações de como devo descer. Quando reparo que já não precisa de ajuda, apresso-me a chegar ao fim da ravina, deixando para trás, além de dita atleta, uma outra amiga da Helena e a própria. Vêm em animada cavaqueira. Vamos lá, menos conversa e mais corrida! É o que dá correr com mulheres! "Saíste-me cá um ditador!" Diz-me uma delas. Recebo o elogio com o mesmo espírito de brincadeira com que proferi a minha frase. 
Marão

      Antes de iniciarmos a prova tínhamos apenas como principal objetivo terminar a corrida. A partir de agora, reformulamos os nossos objetivos. Queremos terminar o desafio á frente desta nossa adversária. Numa situação em que estamos mais isolados brinco: Devia tê-la empurrado! Ups! Oh, desculpa, foi sem querer! Apesar do cansaço não resistimos a umas estridentes gargalhadas. Vai-se mantendo colada a nós durante alguns quilómetros. Mas depois de algumas subidas, não resiste ao nosso ritmo, e acaba por ficar para trás.
       Estamos finalmente sós. Por momentos a  chuva dá tréguas. A espaços o sol parece querer brilhar. Continuo a sentir-me muito confortável com o ritmo a que vamos avançando. No último posto de abastecimento, os voluntários vão dividindo entre si fatias de queijo, acompanhadas de cerveja. Peço para mim  também uma super bock. Apenas me oferecem queijo, que rejeito, e água da qual bebo pequenos tragos . Os três quilómetros finais são já nossos conhecidos. No sentido ascendente foram os primeiros da prova. Agora são bem mais fáceis de fazer, pois são em sentido descendente. Curioso é o facto de ter sido num dos pontos de passagem deste sector que um grande número de atletas se perdeu. Acontece também connosco, mas descobrimos bem cedo o nosso erro e voltamos para trás cerca de 50 metros em busca da sinalização, e verificamos que é demasiado deficiente no local, mas facilmente retomamos o caminho correto .
        Está quase no final a nossa aventura. Posso ficar á tua frente? Claro que a Helena não diz que não. Afinal tanto faz um lugar á frente ou atrás, quer para ela, quer para mim.  Os últimos 200 metros são a subir. A Helena apresenta uma maior fadiga, e consigo afastar-me e chegar primeiro á meta. Viro-me e aplaudo a sua chegada, afinal é ela a campeã. Também campeão é o João Gonçalves ( sim, sim; esse mesmo que na Régua fazia o aquecimento quando a corrida já havia começado á 10 minutos) com quem habitualmente partilho as deslocações para as corridas. Pouco habituado a corridas desta natureza, mas a provar que são provas onde se sente mais á vontade, ficou na 12ª posição da geral, e no 1º lugar do escalão M50. De entre 84 atletas que concluem a prova, na sua maioria especialistas neste tipo de desafios, termino os 23 quilómetros  na 64ª posição, gastando cerca de 3 horas e a  1 hora do vencedor.
Marão

        Foram 3 horas de corrida. Cerca de vinte e três quilómetros. Algum cansaço e sofrimento. Água até ao tutano, e as sapatilhas a pesarem três vezes mais. Muita lama e algum frio, que não é comum em pleno mês de julho. Mas em compensação houve adrenalina até mais não. Houve muita diversão e prazer. Tivemos a oportunidade de correr em locais belíssimos, ver paisagens de cortar a respiração e disfrutar do que mais belo e aprazível a natureza tem para nos ofertar. E somos de facto uns privilegiados por podermos usufruir destes agradáveis momentos.


     *Devido á não existência de fotos da prova, recolhi algumas do Marão para ilustrar a minha crónica.


      Para a estatística:

      Trilhos do Marão 22.4km
    Corrida de montanha número 3 (a 1ª foi em 2012 em   Mogadouro a 2ª em 2013 aquando da subida á Sr. da Graça) 
      Tempo líquido: 3h03' ( a 1h03' do vencedor)
      Classificação geral: 64 (84)


 
       Até já!

       
  

       


 

quarta-feira, 2 de julho de 2014

Km 7 - II Meia Maratona de Guimarães



II Meia Maratona de Guimarães
 

22 de junho de 2014

 
 
 
       "A Natureza criou os prazeres, o homem os excessos"

Enquanto aguardava a chegada dos aventureiros

        Antes de me debruçar sobre as incidências da exigente e difícil Meia Maratona de Guimarães, vou dar um salto até Gaia. Mais propriamente até á praia da Aguda, onde ontem se realizou uma inédita meia maratona. Denominada Meia Maratona Areias de Gaia, o evento tinha ao dispor dos atletas as distâncias de 21, 10 e 6 quilómetros. Apesar de me ter deslocado ao local apenas para ver a prova, e em especial, o desempenho de alguns amigos, ainda me dirigi á organização para me inscrever numa das distâncias mais curtas. Mas, quando os informei que ia correr a meia maratona de Guimarães, demoveram-me imediatamente de inscrever-me na prova. A corrida, totalmente sobre areia, permitiu aos atletas viverem um momento  inesquecível. Apesar de um desafio árduo, custoso, difícil e muito exigente, a oportunidade que os mais de 200 aventureiros tiveram em  poder assistir ao primeiro pôr do sol deste verão em pleno desafio,  acabou por compensar todos os sacrifícios.
      Já que não me deixaram correr, peguei na máquina fotográfica e fui registar a passagem dos companheiros de aventuras.  Inicialmente junto á meta, onde esperei por um primeiro retorno, e depois algumas centenas de metros mais para norte, onde aguardei o regresso dos participantes, antes dos metros finais da prova.
      Fui registando a passagem de cada atleta, e foi bom, estando do outro lado, ver gestos de agradecimento pelas fotos. Já numa fase final da prova, alguns atletas não conseguiam disfarçar o cansaço, e chegavam junto a mim a caminhar a muito custo. Fui tentando incentivar alguns mais desmotivados: Vá lá, um trotezinho para a foto!  Mais tarde vou partilhar o álbum com todos quantos se quiseram procurar nas centenas de fotografias. E eu sei o quanto gostamos de ver-nos num grande número de fotografias em cada corrida.
Abordagem do quilometro final. Ao fundo já se vê a Helena.

      Quando a Helena chegou junto de mim, completamente exausta e cansada, desliguei a camara, e trotei os metros finais a seu lado, e pude comprovar a dureza da prova. Terreno muito instável, areia muito rala onde os pés se enterravam. Ainda fazia mais 21 quilómetros, brinquei com ela. Quanto a ela, era evidente o sofrimento e o cansaço: "Nunca mais me meto noutra."
Uma força da natureza. Um exemplo. Helena Mourão.

      Ficou mais do que evidente o quanto somos capazes de nos superar. O quanto somos capazes de cometer excessos para viver na plenitude os prazeres que a natureza para nós criou.


      Aqui nasceu Portugal!

        
      22 de setembro de 2013. Temperatura do ar a rondar os 38º. Guimarães estreava-se, em ano de capital europeia do desporto, no circuito nacional de meias maratonas. Percurso bastante difícil. Na altura, com muitas dificuldades, não consegui melhor do que 1h 52'. Nunca me senti tantas vezes tentado em desistir como nesta prova.
      22 de junho de 2014. Apenas o número do dia se mantem, de resto, tudo diferente. O dia está limpo e solarengo, mas a temperatura está bastante agradável, entre os 25º. O percurso, é quase o mesmo do ano passado, mas percorrido quase na sua totalidade em sentido inverso. A parte mais difícil e exigente, que no ano passado estava reservada para os últimos 6/7 quilómetros, este ano são os primeiros a ser percorridos. Parece tratar-se de um trail urbano. E de facto para lá caminha. Contabilizamos perto de 300 metros de desnível positivo, o que é pouco para um trail mas muito para uma meia maratona de estrada.
    O percurso é bastante interessante. Percorre bonitos locais da cidade, como a praça do Toural ou o emblemático castelo de Guimarães. A grande presença de público também contribui para a beleza do evento. Só é pena que não participem tanto na corrida como era expectável, através do incentivo e  apoio aos atletas.
      Apesar do conhecimento prévio das dificuldades que o percurso iria colocar aos participantes, a organização não quis deixar de mostrar o que de melhor a cidade tem. Quem construía castelos fazia-o onde seria melhor em termos bélicos. Nunca o fizeram a pensar nos corredores.



Abordagem ao castelo.

       Os primeiros quilómetros, os que exigem um esforço suplementar da nossa parte, face ao constante sobe e desce das ruas estreitas e com piso em paralelo, consigo superar com um ritmo muito idêntico ao que tenho mantido nas últimas corridas. Gastei cerca de um minutos mais nos 7 quilómetros iniciais do que em anteriores provas.
         Depois da passagem pelo centro histórico, a prova entra num traçado mais plano até ao quilometro 19. Curiosa a passagem pelo interior do pavilhão multiusos, onde ouvimos a primeira grande ovação da corrida, graças ao som que nos chega do sistema sonoro do recinto.

         Vou mantendo o meu ritmo, enquanto o traçado e as forças o permitem, apenas fraquejo nos dois últimos quilómetros. Passo o quilometro 19 com o relógio a marcar  1h26'. Depois daqui, talvez devido ao cansaço ou ao trajeto que entra numa fase ascendente até á zona da meta, ou talvez devido á desmotivação por verificar que vou ficar aquém dos meus melhores tempos, baixo de ritmo, e concluo os 2 últimos quilómetros nuns inimagináveis 12 minutos.
Já na subida final.

         Satisfeito por ter concluído mais um desafio. Um belo desafio. Apesar da dureza, a prova é muito mais agradável de se fazer no centro histórico, do que fora da cidade. Afinal, aqui nasceu Portugal!


      Para a estatística:

      Meia maratona número 17
      Tempo líquido (chip): 1h38'23'' ( a 30'48'' do vencedor)
      Classificação geral: 186 (535)
 
      Até já!



 

quarta-feira, 11 de junho de 2014

km 6 - I Trail Running de Vila Pouca de Aguiar





I Trail Running de Vila Pouca de Aguiar
 

1 de junho de 2014

 
 
 
       "Se alguém te obrigar a acompanha-lo durante um quilómetro, acompanha-o durante dois."  (MT 5, 41-42)


        Havia convencido a Helena a participar neste trail. Havia feito de tudo para que ela estivesse presente na primeira corrida em que ia participar no meu concelho. Inclusive, havia sugerido á organização que lhe endereçasse um convite, ou não se tratasse da campeã nacional de corridas de montanha em veteranos femininos.
    Havia pedido aos meus pais e ao meu irmão que fizessem os possíveis por  estar presentes num dos pontos de passagem, e/ou, no final da prova. Havia feito um prognóstico sobre o meu tempo de passagem no local sugerido e o tempo em que, correndo bem a prova, poderia terminar o desafio.
     Havia informado alguns familiares residentes numa das aldeias que íamos atravessar, da minha participação na prova, e o quanto desejava vê-los aplaudir-me, ou simplesmente ver-me passar.
     E agora, aqui estou eu, perfilado junto de cerca de 200 atletas, ao lado da minha amiga Helena, camelbak ás costas, protetor solar colocado, e um pouco impaciente pelo retardar do inicio da corrida. Aguardo com grande ansiedade e espectativa o que as minhas gentes podem fazer em prol desta atividade desportiva, e o carinho e entusiasmo com que os residentes vão ou não brindar os atletas participantes. Estamos prestes a estrear-nos num  trail. É o nosso batismo em corridas desta natureza.  A partir de agora e até que o futuro nos separe, o relato será no plural, pois é com a Helena que vou fazer esta corrida. Temos um acordo de cavalheiros. Ela veio fazer o trail, prometendo eu que a acompanho, e a carrego ao colo se ela necessitar. E como ela é levezinha, e temos um ritmo de corrida muito semelhante, não vou ter dificuldades em cumprir com a minha promessa.
         Parece tudo reunido para uma excelente manhã desportiva e competitiva, com muita  diversão e quilómetros de adrenalina. O tiro de partida é dado já perto das 10 horas, com uma  temperatura bastante agradável.  O sol está radiante, mas o calor é suportável.
      Começamos a um ritmo moderado, quase na cauda do pelotão. Não queremos entrar em loucuras, esperam-nos 34  duros quilómetros, e a segunda metade da prova é muito exigente. O primeiro quilómetro é feito ainda dentro do perímetro da vila, embrenhamo-nos depois na mata que nos vai conduzir ao primeiro ponto de interesse desta corrida, o Castelo de Aguiar. Ao 2º quilómetro deparamo-nos com o primeiro azar que caiu sobre os atletas. O Caneca, um atleta conhecido da Helena, com quem almoçamos  a seguir á meia maratona de Viana do Castelo, está estendido no chão, com o joelho todo rasgado, a ser assistido ( levou 12 pontos, e ficou privado de lutar pelos primeiros lugares da prova).

Momento inicial da corrida, ainda em fila indiana.

       Disfrutamos ao máximo da beleza destes primeiros quilómetros. Caminhos estreitos, que nos obrigam a correr em fila indiana e sem grande margem para ultrapassagens. A vasta vegetação  protege-nos dos raios solares. A descontração com que fazemos a corrida permite-nos conversar, fazer poses para as fotografias, e fazer uma pequena pausa para satisfazer as necessidades fisiológicas.
          Aproximamo-nos do Castelo, e a pequena subida que o antecede, trata-se sem dúvida da  grande dificuldade da primeira fase da prova. Como já fiz o reconhecimento do percurso, alerto os atletas ao meu lado, e a Helena em particular para o momento mais difícil: Está quase, está quase, está quase! Com umas gotas mais de suor vencemos a subida e preparamo-nos para a tomada do Castelo.
           O Castelo de Aguiar, isolado e inexpugnável como um ninho de águias, é uma pequena fortificação edificada nos contrafortes da serra do Alvão.  A sua ocupação de carácter militar remonta ao período romano, altura em que se edificou um reduto defensivo protetor que ligava Chaves ( Aquae Flaviae) a Lamego (Lamecum). Foi ainda palco de um dos muitos episódios da campanha de D.Afonso Henriques em prol da independência do Condado Portucalense.
         Com 49  minutos de corrida, e depois de calcorreados 8 quilómetros,  conquistamos por fim o Castelo. É como uma pequena batalha ganha na guerra que é terminar este desafio.  O que se segue ao Castelo é uma pequena armadilha da organização. A passagem faz-se entre grandes rochas, com uma possível passagem superior, e uma outra inferior. Sem qualquer informação subimos a rocha, até nos dar-mos conta de que a passagem se faz entre as fendas das rochas. Com muitas lamúrias á mistura descemos  e fazemo-nos pequeninos para passar-mos entre elas.

Um dos belos momentos da prova.

       Os quilómetros que se seguem são de pequena dificuldade. Apenas uma ou outra subida mais difíceis, mas muito curtas. Só temos de rolar e suportar o sol que incide sobre nós, nesta fase do percurso sem vegetação frondosa que nos proteja. Registo a nossa passagem pelos 9 quilómetros sobre a 1 hora de corrida, e ainda frescos como uma alface.
       O segundo ponto de interesse está reservado para a passagem na Barragem da Falperra. Situada em plena serra do Alvão, e ladeada por uma belíssima mata, salpicadas aqui e ali de imponentes fragas que circundam todo o lago. É uma belíssima e agradável zona de lazer e de repouso, propícia ao convívio e ao contacto com a natureza. 

A prova da boa disposição com que encaramos o desafio.

        Continuamos a avançar a bom ritmo, a galgar quilómetros e a eliminar dificuldades. Com 1h45' devoramos facilmente os primeiros 16 quilómetros do percurso.  Aproximamo-nos do ponto em que se separam o trail longo, aquele que vamos seguir, e o trail curto prestes a terminar. Á passagem pelo túnel sob a A24, solto um: Já se cansaram?  Como estamos só os dois, a resposta é NÃO. Entramos na segunda fase da corrida, mais difícil, mais técnica, mais exigente, apenas reservada aos mais resistentes.  Pergunto a um voluntário da organização quando por ele passamos, quantos vão á nossa frente. Dez? Pergunto eu. Mesmo sabendo que este número está longe de corresponder á realidade da prova, o número que ele dispara surpreende-me. Uns 30. E mulheres? Nova cara de espanto. É  a segunda. Mesmo a um ritmo confortável, com muita diversão á mistura, estamos a fazer uma excelente prova. Vais ter que dividir comigo o prémio do segundo lugar! Mas, cem metros volvidos sobre estes festejos, a Helena começa a sentir-se mal. Temos que parar, tentar que ela recupere, o que vem a revelar-se inútil. A arritmia que diz sentir, teima em não passar. Um, dois, três, uma mulher, outra mulher, e mais outros tantos atletas vão passando por nós. Como bons desportistas vão oferecendo ajuda. Mas não há muito que possamos fazer, apenas descansar e esperar que a Helena se recomponha. Para que a situação seja ainda mais dramática, acontece precisamente num dos troços mais difíceis da prova. Sobe e desce constante, escalada, descidas vertiginosas, vegetação densa que obstrui o caminho. A espaços vamos trotando algumas dezenas de metros. O problema teima em não passar. Depois de uma longa descida, e antes de abordar-mos a mais difícil das subidas da zona, a Helena diz-me que não consegue continuar. A desistência parece ser irrevogável. Pede-me que continue sem ela. Por momentos deixo de pensar no compromisso que  assumi, e penso nas pessoas que aguardam ansiosamente a minha passagem. Como o seguinte ponto de reabastecimento está próximo, sigo a minha prova e mando um dos voluntário ir ter com a Helena.

Momento em que peço á organização assistência para a Helena.

     Talvez tenha cometido um grande erro em abandonar a Helena, mas a partir de agora estou por minha conta. E mais do que perder a minha parceira  de corrida, perdi a experiencia que me permitia manter um ritmo de corrida equilibrado e confortável.
      Os quilómetros que se seguem não vão ser fáceis. Depois da travessia do topo da serra do Alvão até ao topo da serra da Padrela,  segue-se um constante sobe e desce até á meta. Mas o momento que eu mais aguardo desde o inicio da prova, está prestes a acontecer. A passagem pela aldeia de Vila Meã, onde tenho família, e o local  que sugeri aos meus pais para estarem presentes. Mas a juntar á dificuldade da subida, junta-se a ausência das pessoas que esperava encontrar. Apenas o meu tio Henrique se encontra no local. Começo a ficar sem energia, sem animo, sem forças. A ausência da Helena e a ausência do incentivo da família desmotivam-me. As subidas já só as consigo fazer a caminhar. Nas descidas ainda consigo trotar um pouco. Pelo caminho encontro atletas em pior situação do que eu. O primeiro que vejo, está sentado na berma á espera de assistência. Então? Acabou?  Ficou na berma a escassos 4 quilómetros da meta. Eu vou aguentando. Devagar. Devagarinho. Com mais de 4 horas de prova nas pernas.
     Deparo-me com nova situação de dificuldade de um atleta. Encostado a um pinheiro, em clara dificuldade, vomita toda a água que ingeriu durante a prova. Apesar de também eu sentir algumas náuseas, vou resistindo a semelhante fim. A escassos 2 quilómetros da meta, abandono o sobe e desce da mata, e entro na ciclovia.
 
Fase final da corrida, antes da entrada na ciclovia.

     A partir de agora é  trotar, em terreno plano, até á tão ansiada meta. Sou ainda abordado por um atleta que me pede uma perna emprestada para chegar ao fim. Deixo de trotar e caminho algumas centenas de metros a seu lado. Conversamos um pouco, mas a partir do momento em que recomeço a correr, ele não consegue conciliar a corrida e  a conversa. Está em claras dificuldades físicas.
      Últimos metros. O momento mais desejado está a escassos 300 metros. Mas antes, tempo para a melhor das surpresas. Para o melhor dos momentos.  A minha fã número um, ao lado do meu irmão,  aplaude-me. Apanhou-me de surpresa. Não resisto, e porque ela o merece, dirijo-me á minha mãe e dispenso-lhe dois beijos. Só por este momento, valeu todo o sofrimento de 4h31'. Faço os restantes metros eufórico, mas a chegada á meta é dececionante. Não há público, não consigo terminar junto da Helena como prometido, e o tempo final não é o que estava á espera.

Já esta. Mais um desafio superado.

     E porque comigo, as dificuldades das grandes corridas não terminam após a chegada á linha de meta, as horas seguintes foram angustiantes e de grande sofrimento. Foram largas horas sem conseguir ingerir líquidos nem sólidos, e a vomitar tudo o que bebi, e o que não bebi.
      Uma nota para a organização. Estiveram quase perfeitos. Grande acompanhamento dos voluntários ao longo da prova. Número de abastecimentos ideal. O percurso apesar de duro e difícil, é belo e agradável. Não me posso pronunciar sobre o almoço convívio porque não estava presente.

P.S. Depois de abandonar a Helena, e de a organização ter chamado uma ambulância, ela recuperou e terminou a prova apenas 26 minutos depois de mim.

    Para a estatística:

    Trail número 1
    Distância: 34 km
    Tempo líquido:4h31'30'' ( a 1h34' do vencedor)
    Classificação masculinos: 60 (79)




  


        
         

quarta-feira, 21 de maio de 2014

km 5 - IX Meia Maratona do Douro


IX Meia Maratona do Douro
 

18 de maio de 2014

 
 
 
    Por esse rio acima!
    As tartarugas, o calor e a apatia dos portugueses.


        Corrida desenfreada para o último comboio, onde somos transportados  como gado pro matadouro. Corpos que tresandam a suor. Os minutos que teimam em passar. Dificilmente chegaremos a tempo do tiro de partida. Instalo-me num pequeno canto atrás dos bancos do comboio, onde o ar que se respira é mais inodoro. De qualquer maneira, já me sinto familiarizado com esta forma de transportar pessoas, pois durante as minhas quatro visitas á Cidade do México, tive a oportunidade e a necessidade de utilizar o metro citadino, que transporta diariamente milhões de passageiros, desta forma tão pouco cívica e saudável, onde não há limite de capacidade. Quantos mais melhor.  Algures no meio desta falange de corpos nervosos e inquietos está a minha amiga Helena. Do alto do seu metro e cinquenta e três, enjaulada no meio de braços hirtos, elevados bem alto até ás barras de segurança. Imagino que não esteja a passar por uma situação deveras agradável. Na primeira vez que avisto a barragem onde terá, ou teve  inicio a corrida, transmito-lhe a informação, que só mais tarde posso confirmar: Já começou!
      Na última edição da prova, eu já me encontrava sobre a ponte junto dos milhares de atletas a aguardar o inicio da corrida, quando impacientemente ouvimos a organização informar que o tiro de partida ia ser retardado alguns minutos, porque ainda havia algumas centenas de participantes a fazer o trajeto de autocarro até á zona de partida. Este ano nem um só minutos de tolerância. Não se pode agradar a gregos e a troianos. Se o ano passado fui dos que criticou o atraso da saída, este ano critico a pontualidade, apesar de ser acérrimo defensor da maior das virtudes: pontualidade!
      Como os nossos objetivos de corrida não passam nem de perto nem de longe pelos primeiros lugares, resta-nos passar pela linha de partida para validar o chip, e fazer-mos a nossa corrida. Havia perdido o contacto com o João  enquanto aguardávamos o comboio(o João é o grande responsável pelo meu atraso;  fomos juntos para a prova, mas na hora de levantar os dorsais, o seu nome não constava na lista, não tinha comprovativo da inscrição nem do pagamento feito por parte do seu clube; e enquanto solucionava a sua situação, os minutos iam passando), mas encontro-o na zona de partida a fazer o aquecimento. Mas se a corrida já começou, que anda ele a fazer?  Vamos embora João, é para este lado! Mas ele ainda tem que ir á linha de partida para validar o chip. Agora temos á nossa frente cerca de 3000 atletas. Não há lebres, não há atletas com o nosso ritmo que nos possam ajudar. Há sobretudo demasiadas tartarugas que nos vão obrigar a um zigue zague constante para manter-mos o nosso ritmo. Aqui e ali vou soltando palavras de ordem, ou de incentivo:  Já se cansaram?  Vamos embora, lá pra frente!

Eu e as "tartarugas"

      Encosto-me á faixa da esquerda que se encontra livre e reservada para quando fizermos o retorno aos 7 quilómetros. Mas após algumas centenas de  metros  começa a ser invadida pelos atletas mais rápidos que vêm em sentido contrário. Sou obrigado a embrenhar-me de novo na multidão e a correr a espaços na diagonal. Quando passo pelo quilómetro 7 o relógio está abaixo do minuto 31 (30'55''). Não perdi assim tanto tempo, mas tive que fazer um esforço suplementar para me desviar dos outros participantes, e para vencer o calor que começa a apertar. Seguramente o termómetro esta acima dos 30º. A ausência de farmácias durante o percurso não me permite confirmar a temperatura do ar. A cada reabastecimento liquido, muno-me de duas garrafas de água. Uma para deitar pela cabeça abaixo, da outra sorvo pequenos goles de água, e o resto tem o mesmo destino da primeira. Depois da segunda ação deste género, o dorsal não resiste a tanta água, e acaba por soltar-se dos alfinetes. Meto-o dentro dos calções, porque o chip está junto, e preciso dele quando passar a linha de chegada.
      Consulto o relógio na passagem pelos 14 quilómetros ( 31'21'' nos segundos 7 km). O calor e o cansaço fazem-se sentir. Estou mais lento, mas continuo a dobrar um número considerável de tartarugas. Nesta altura da corrida, o reabastecimento já não se faz a cada 5 quilómetros, mas talvez a cada 2. Atendendo ás altas temperaturas, a aguínha vem mesmo a calhar, tal como o chuveirinho com que os bombeiros  nos brindam.
       Quando nos dirigíamos para levantar os dorsais, passamos junto á marca dos 20 km. Tinha lançado um repto, e dito ao João  que queria passar ali com 1 hora e 26 minutos. Quando já tenho quase 20 quilómetros nas pernas, e alguns litros de água na cabeça, encaminho-me para essa marca com um tempo já superior á hora e meia.

A caminho do último quilometro. Já sem o dorsal.

       Nas edições anteriores o último quilómetro compreendia uma passagem ao lado da meta, retornando numa rotunda, e os 500 metros finais eram a  subir até á linha da meta. Com grande sofrimento lá íamos trotando até ao final da prova. Com a alteração do percurso, este ano o quilómetro final tem uma grande descida e uns metros finais planos, onde a meta apenas se avista nos últimos cem.
      Quem faz uma corrida com esta exigência, com o objetivo único de terminar a prova e ansioso por alcançar a meta e viver triunfante o repto  a que se propôs, só pode esperar que o público aí presente se manifeste e receba entusiasticamente os atletas que vão chegando. Não exagero se disser que aquando da minha chegada, e de outros participantes quer á minha frente quer atrás de mim, não se ouvia um único aplauso, ou vozes de incentivo e parabéns. Que saudades tenho das corridas em Espanha. Não resisto, e como que num grito de guerra, bato palmas ergo os braços e grito:  Vamos lá acordar... Essas palmas?
       Posso ficar satisfeito com a minha prestação e esquecer a apatia do público? Posso. Mas não é a mesma coisa. Mais do que o objetivo pessoal, gosto de interagir com os demais atletas, gosto de incentivar, apoiar quando passam dificuldades, dispor-me a ajudar. E gosto, naturalmente, das manifestações do público, dos aplausos, das palavras de incentivo, do carinho para com os corredores.


       Para a estatística.

      Meia maratona número 16.
      Tempo líquido (chip): 1h35'40'' ( a 29'18'' do vencedor)
      Classificação geral: 336 (2836)
      Classificação por escalão (M35): 74


      Até já!
 

quarta-feira, 14 de maio de 2014

km 4 - XVII Media Maraton de Vigo


XVII Media Maraton de Vigo
 

11 de maio de 2014

 
 
 
 




O meu 15º dorsal de uma meia maratona
 

 
     Quando somos muitos, é mais fácil!


     Tivesse acontecido no Estádio Municipal de  Balaídos, ou no Hotel Resort Pazo Los Escudos  onde a equipa do Real Madrid se encontrava hospedada, e tratava-se de uma situação perfeitamente normal. Um grupo de portugueses, envergando camisas com a bandeira de Portugal estampada, e com bandeiras nacionais nas mãos, a gritarem de forma histérica o nome dos jogadores portugueses do emblema espanhol. Mas esta manifestação de carinho não se destinavam nem ao autoproclamado  rico, bonito e super talentoso  Cristiano Ronaldo, nem ao luso-brasileiro Pepe, nem tão pouco  ao caxineiro Fábio Coentrão. Acrescento ainda que nas camisas de uma brancura imaculada, estava ainda estampado um nome. Com as cores nacionais, verde e vermelho, podia ler-se o nome: Paulo Machado. Imaginem a minha cara de surpresa quando cheguei junto deles.  Até a pequena Carolina teve direito a uma camisa de tamanho xxxxs personalizada.
       Já no ano passado, na Meia Maratona de Guimarães, a família Torres me havia surpreendido. Mas a manifestação de apoio e de carinho resumira-se a um cartaz a dizer: Força Paulo. Desta vez foram um pouco mais longe,  e naturalmente tal gesto obrigava-me a uma superação ainda maior. O objetivo passava não apenas por terminar a corrida, mas aproximar-me ou superar a marcar de 1h32' conseguida em  Barcelos.



Da esquerda para a direita: António, Nicolau, Joaquim, Paulo, Maria, Carlos, Carolina, Afonso, Marta e Paula.
     

     O contingente nacional presente em Vigo não se resumiu a estas pessoas. Também a D. Ângela se fez acompanhar da família para viver as emoções de uma meia maratona, e para me apoiar, naturalmente. Vestidos a rigor, com o respetivo dorsal, e depois de convencido o Afonso de que devia envergar a camisa cor de laranja oferecida pela organização, estavam prontos para a caminhada. Iam juntar-se ainda ás cerca  de 180 pessoas que se deslocaram de Sintra para participarem também no evento, sobretudo na caminhada, e que constituíam a quase totalidade de inscritos. A inclusão de caminhadas em eventos desta natureza não é comum em Espanha. Esta tratou-se mesmo da primeira caminhada aliada á Meia Maratona de Vigo, daí que não tenha grande adesão por parte dos espanhóis, e os poucos que   estavam inscritos, e que envergavam os dorsais referentes, encontravam-se ao longo do percurso a apoiar os atletas. Isto sim, uma pratica muito comum em Espanha, onde as pessoas saem ás ruas, e não se cansam de incentivar  e apoiar os participantes das corridas.
 
      Ainda mal refeito  da emoção que a surpresa  dos meus amigos  me provocou, junto-me aos cerca de mil atletas perfilados na linha de partida. Sem grandes nomes do atletismo espanhol, o pelotão é composto sobretudo por atletas galegos, com objetivos muito próprios, uma vez que a prova é pontuável para o campeonato galego de meia maratona. Quase não há vento, o sol esta resplandecente e a temperatura oscila os 16º.
    Antes do tiro de partida a organização pede-nos que guarde-mos um minutos de silencio em memória de duas pessoas falecidas, ligadas ao atletismo. A primeira, e porque o nome não me diz nada, já não me recordo quem era. A segunda, tratava-se do atleta vice campeão europeu de salto em comprimento nos mundiais de 1999, Yago Lamela, que , com 36 anos, foi encontrado morto em casa.
      É dado o tiro de partida, e é hora de disfrutar.  Ainda com o pequeno-almoço mal digerido, que por força das circunstâncias fui obrigado a termina-lo a pouco mais de uma hora do inicio da corrida, troto pelas ruas de Vigo, na primeira de duas voltas ao percurso. O trajeto não é muito exigente, mas algumas das subidas, apesar de muito curtas, causam mossa na maioria dos corredores. Que o diga o atleta que escolhi para lebre, que na primeira subida, não resistiu ao ritmo, e acabou por ficar para trás. Ainda olho para trás e tento avista-lo, mas convenço-me que estou por minha conta. Talvez  não tenha sido feliz com a minha escolha, apenas com 3 quilómetros percorridos, e ele já vinha a arfar ruidosamente.
       Concluo um terço da prova abaixo do minuto 31 (30'49''). Até aqui tudo bem, só há que manter o ritmo e não entrar em loucuras. É pelo quilometro 7 que julgo encontrar alguém que me vai ajudar na corrida. Passa por mim um atleta franzino, jovem, passada segura. Tento acompanha-lo, mas o ritmo é tão desconfortável para mim, que me vejo obrigado a baixar o ritmo e a deixa-lo ir. Mais tarde haveria de o ultrapassar  e terminar mesmo a corrida á frente do vencedor na categoria de júnior masculino, e que haveria de proclamar-se ainda campeão galego júnior de meia maratona.



Numa altura da corrida em que já havia ultrapassado o campeão júnior galego de meia maratona


     O final da primeira volta coincide com o final da caminhada. Esboço largo sorriso quando passo pelas pessoas que me acompanham. Com um até já, parto para a segunda volta. Passo pelo segundo parcial de 7 quilómetros, ao quilometro 14, de novo com um excelente tempo, 30'31''. Mas a nova passagem pela zona de meta, quando faltam apenas 5 quilómetros, acaba por provocar-me dificuldades. Quando passo de novo pelo meu grupo de seguidores, paro, e vou ao carrinho do Joaquim buscar a minha inseparável água das pedras. Depois disto, e apesar do Afonso se ter pontificado a correr comigo os quilómetros finais, nunca mais consegui atingir o bom ritmo com que vinha a fazer a prova. O mal acabou por ser geral, porque o Afonso depois de alguns metros diz-me que vai voltar para  trás ( o Afonso é um miúdo com 11 anos, que um dia me acompanhou num treino de 6.5 km em 34 minutos, sem parar).

A breve companhia do Afonso


    Com um pouco mais de sofrimento vou eliminando quilómetro após quilómetro. O último, porque é a descer inicialmente, e porque depois se avista a linha da meta, é devorado num ápice.  O Sr. Carlos, a cem metros da meta, entrega-me uma bandeira de Portugal. A assistência parece contagiada pelo ato, e aplaude energeticamente. Consulto o cronometro, 1h 34'. Não esta mal. E embora não tenha conseguido manter a tendência das corridas deste ano, acabei por fazer um excelente tempo, talvez a minha segunda melhor marca  das 15 meias maratonas já efetuadas. Em Barcelos subi demasiado a fasquia, e agora tenho que trotar forte se quero fazer melhor.
     O vencedor da corrida, foi um atleta já conhecido dos meus blogues, uma vez que foi o mesmo que ganhou a meia maratona  d'O Carballiño,  Daniel Bargiela Araújo.

      Para a estatística.

      Meia maratona número 15
      Tempo líquido: 1h34'09'' ( a 23'30'' do vencedor)
      Classificação geral: 204 (701)
      Classificação por escalão (veteranos I): 47 ( 131)

     Muito obrigado ás pessoas que me acompanharam, e espero que se tenham divertido tanto quanto eu.

     Até já!


Foto: Agua das Pedras.
A agua dos desportistas.
Fiel ás minhas origens

 

quinta-feira, 10 de abril de 2014

km 3 - I Meia maratona de Barcelos


I Meia Maratona de Barcelos

6 abril 2014


 

 
     Quando uma lenda se torna fonte de inspiração.


    Reza a lenda que em plena época medieval, os habitantes do  burgo que é a actual cidade de Barcelos, andavam alarmados com  um crime. E mais ainda por não ter sido descoberto o criminoso. Certo dia apareceu um galego, que se dizia peregrino a caminho de Santiago de Compostela. Desde logo se tornou suspeito, foi preso e considerado o autor do referido crime. Como era comum na idade medieval foi condenado á forca.  Antes de ser enforcado pediu que o levassem perante o juíz que o condenara.  O galego voltou a reafirmar a sua inocência perante o magistrado. Reparando que sobre a mesa onde este e alguns amigos se banqueavam  estava um  galo assado, o condenado exclamou: " É  tão certo eu estar inocente, como certo é esse galo cantar quando me enforcarem". E o improvável aconteceu. Quando o galego já se encontrava com a corda ao pescoço, o galo levantou-se e cantou. Ninguém duvidava da inocência do peregrino que, depois de solto, continuou o seu caminho de peregrinação. O que parecia impossível tornou-se, porém, realidade!


     O que parecia impossível tornou-se, porém, realidade!

     É verdade que neste ano de 2014, e depois de concluídas 4 meias maratonas, o meu desempenho tem sido sempre em crescendo. Concluí a Meia Maratona de Viana do Castelo em 1h43' (sem qualquer  treino nos 2 meses que a antecederam), seguiu-se um desempenho sofrível de 1h39' na Meia Maratona da Corunha, e,  ainda por terras espanholas, terminei a  Meia Maratona d'O Carballiño  com um fantástico tempo de 1h35', o que me levou a considerar impossível fazer melhor  em futuras corridas.
       Sem conseguir especificar quais os fatores determinantes na obtenção de tão bom resultado na I Meia Maratona de Barcelos, o impossível acabou por acontecer. E porque aos olhos de Deus nada é impossível, talvez a minha visita á Igreja sita bem ao lado da linha de partida e chegada, tenha sido o tal fator determinante.
      Ás 10 horas é dado o tiro de partida pela madrinha da prova, a medalhada olímpica Fernanda Ribeiro. Cerca de 2 mil pessoas, divididas pelas 3 categorias do evento, desde a caminhada, a mini maratona de 10 km e a prova principal de 21 km partimos rumo aos nossos objetivos. A chuva molha tolos com que fomos brindados durante o aquecimento persiste em não parar. O termómetro marca 9º, o que se traduz numa excelente temperatura para correr.  O entusiasmo é o habitual das grandes corridas, enorme. Troto os primeiros metros e é altura de estudar os meus vizinhos e escolher a lebre que espero, me venha a ajudar durante a prova. Procuro alguém que apresente uma passada segura, sem sinais de grande esforço, e que possa ter alguma experiência. Mais importante ainda, que tenha um ritmo que eu consiga acompanhar. Colo-me a um atleta  vestido de vermelho ( não, não era do Benfica, apesar do grande contingente de atletas encarnados presentes no evento), óculos de sol, e relativamente jovem. Ter-se-á perguntado: quem é este gajo?  Que não me larga!
        Depois do primeiro reabastecimento líquido, e com um terço da prova nas pernas, a minha lebre começa a perder o meu contacto. Dobro o km 7 com 31'03''.  A partir daqui faço a prova praticamente sozinho. Durante alguns períodos  tenho a companhia de atletas que alcanço, ou alguns que me alcançam a mim. Mas contrariamente ao que me acontece em outras corridas, são escassos os que me alcançam, e são vários os atletas que vou ultrapassando.  Outro dado que me deixa bastante animado é o de verificar que atletas com quem habitualmente me cruzo e me levam um avanço considerável, desta vez são eles que vão atrás de mim.
        A primeira passagem pela meta deixa-me ainda com mais vontade de galgar quilómetros e terminar a prova. Tal como haviam prometido, alguns amigos marcam presença para me incentivar. Não consigo ouvir claramente, mas imagino que a pequena Carolina esteja a gritar: " Foza aí!"
        Estou satisfeito com o meu desempenho até agora, mas sou sobressaltado com a ideia de pagar mais tarde o esforço despendido com uma quebra de  ritmo. Que seja!  Mas enquanto puder vou dar o máximo. Nunca me senti tão bem em nenhuma outra prova. A passagem pelo km 14 confirma a excelente corrida que estou a fazer.   O relógio marca 1h01'21'', ou seja,  os últimos 7 quilómetros faço a um ritmo mais rápido que os primeiros , 30'18'' é o tempo deste segundo parcial.
        Não baixo o ritmo e sigo para a meta. Junto á berma encontro um atleta em dificuldades. Incentivo-o, digo-lhe que agora é tarde para desistir. Um outro que vai ao meu lado partilha da minha ideia, afinal, apenas falta o rabo segundo as suas palavras.
        Entro no quilometro final, o relógio está abaixo do minuto 30, mais propriamente na 1h 28'. Faço as contas, e terminar no minuto 33 corresponde a um novo record pessoal. Tenho 5' para gerir no último quilometro, e ainda a correr abaixo dos 4'30'' por quilometro, permite-me efetivamente conseguir novo record. A linha da meta surge mais rápido do que estava á espera, para ajudar, os últimos 100 metros são a descer. Consulto o relógio, fico incrédulo, estou sobre o minuto 32. O grupo de amigos que me esperavam,  gritam o meu nome. Os espetadores ao lado, talvez contagiados pelo entusiasmo não ficam atrás. Só ouço Paulo, Paulo, Paulo. Sinto-me como se tivesse ganho a corrida. Provavelmente mais feliz que o vencedor da prova.
        Tivesse eu partido para a prova a pensar fazer este tempo, e provavelmente não o teria conseguido, afinal, nunca pensei ser possível.
          Termino com um tempo líquido de 1h32'42''. Lugar 200 da geral, num total de 670 atletas.
         Porque não faltaram ao prometido, quero agradecer a presença in loco da família Torres. D. Paula, Sr. Carlos ( gostei do pormenor da água das Pedras), Marta, Maria, e a pequena Carolina.  E também á  D. Bio ( D. Ângela), Afonso e António. Um muito obrigado  por me  terem  deixado partilhar com eles este momento de enorme satisfação e alegria.




      Até já!