terça-feira, 2 de setembro de 2014

km 12 - 24 Horas de Vigo



24 HORAS DE VIGO
 

30 e 31 de agosto de 2014

 
 
 
                                               "Heróis do mar, nobre povo.
                                                Nação valente e imortal.
                                                Levantai hoje de novo,
                                                O esplendor de Portugal."
         
          


      18 heróis e mais 3!

      Vale a pena recordar e tecer algumas considerações sobre os 18 incríveis heróis da competição individual das 24 horas de Vigo. Sobre alguns terei mais que dizer, uma vez que privei mais com uns que com outros, quer nas boxes quer durante a corrida. Apresentá-los-ei segundo a classificação final, e também como forma de homenagem da minha parte por tal proeza.

Apenas alguns dos elementos que completamos a prova.


1º José Manuel Conde Gonzalez, 70 anos.
      "Tengo que ser bueno. Si tanto me animan."
     O fenómeno. O craque. Alguns dos adjetivos com que foi brindado ao longo da corrida. Uma força da natureza, um exemplo, digo eu. Completou 162 quilómetros até às 22h30'. Encosta às boxes numa altura em que já não estava em risco o 1º lugar, face à compensação dada segundo a idade. Enquanto durou, quase nunca abandonou a pista. Que bom foi ver-te passar uma e outra vez por mim, e chamar-te campeon.
2º Luís Santiago Costa, 43 anos.
      O grande prejudicado pelo sistema de classificação. Foi o atleta que completou um maior número de quilómetros, 178. Nunca o vi nas boxes. Em passo lento e ritmado, foi somando quilómetros. Acabou as últimas horas já a caminhar. Sempre me dirigiu palavras de incentivo quando nos cruzamos. Foste enorme.
3º Marcos Éguia Louzán, 49 anos.
      Acaba o desafio completamente de rastos. Uma lesão na tíbia tirou-lhe força, mas nunca o entusiasmo e a vontade mental de avançar. Uma verdadeira máquina a somar quilómetros. Um total de 156. Bravo.
 4º José Rafael Gonzalez Caride, 54 anos.
      Uma lesão não lhe permite que faça a prova em ritmo de corrida. A caminhar soma um total de 145 quilómetros. A um par de horas do final da prova, um corredor de domingo, apelida-o de tartaruga. Que bom foi correr a teu lado, e pedir aquela pequena ovação, em jeito de brincadeira, para o campeon. Uma valente tartaruga, sim senhor.
5º  Fernando Ibarra Carbón, 45 anos.
       Mais um grande campeão. 154 quilómetros somados.
6º Manuel Dominguez De La Fuente, 37 anos.
       Que grande. O terceiro atleta que somou mais quilómetros, 157. De forma saudável preocupou-se sempre em ver a atualização da quilometragem dos adversários. Dos mais competitivos.
7º Pablo Dominguez Martinez, 36 anos.
       O sexto atleta que ultrapassou a barreira dos 150 quilómetros, chegou aos 154. Enorme.
8º Isaac Martinez Chouza, 44 anos.
      O atleta mais alto do grupo. Chegou aos 143 quilómetros.
9º Javier Santos Gonzalez, 40 anos.
      Deu tudo para somar quilómetros, chegou aos 142, completamente esgotado.
10º Javier Fernandez Sobrino, 56 anos.
     Abandonou a prova pouco depois das 16 horas com queimaduras graves nas virilhas. Era o segundo classificado na altura com 121 quilómetros somados. Incrível.
11º António Vazquez de Parga Benitez, 43 anos.
      Divertida a forma como permitimos que José Manso continuasse a dormir, para o alcançarmos na classificação. Somou 127 quilómetros.
12º Paulo Pereira Machado, 39 anos.
       O português, como fui carinhosamente tratado no grupo.  Cheguei aos 124 quilómetros.
13º José Manso Crespo, 42 anos.
        O sistema de compensação fez com que o campeão espanhol das 24 horas perdesse a paciência. Por mais que corresse não ultrapassava quem corria menos que ele. Destroçado, abandona com problemas estomacais. Importante pela experiência e conselhos que foi transmitindo ao grupo. Ficou-se pelos 121 quilómetros.
 14º Daniel Fernandez Cerzón, 23 anos.
         O benjamim do grupo. De louvar a bravia com que enfrentou o desafio. Tinha por meta chegar aos 70/80 quilómetros. Alcançou os 118 apesar dos problemas físicos. Foi granjeando a atenção especial de fotografas e voluntárias.
15º António Francisco Gil Alonso, 46 anos.
           Fez 79 quilómetros em 10h30', antes de abandonar a prova.
16º José Manuel Lago Costas, 43 anos.
          Uma grande bolha no pé atirou-o para fora da prova  após 16 horas. Estávamos a travar uma divertida luta pela soma de quilómetros. Ficou-se pelos 76. Lo siento amigo, el português te ha ganado!
 17º Cristina Gonzales Garcia, 30 anos.
           A  única mulher no grupo. Não estava lá para correr as 24 horas, apenas 6 e tentar bater o seu record que estava nos 74 quilómetros. Ultrapassou, e chegou aos 77. Grande campeã.
 18º Alberto Melendez Perez, 41 anos.
           Estava apenas a fazer um treino de 8 horas para uma futura prova de 24. Completou 72 quilómetros em 8h 45'.

           E naturalmente agora vou desfazer o mistério de quem são os mais três.
           Em primeiro lugar, a organização e os seus voluntários. Simplesmente nota dez. Não há nada a apontar. Todos os voluntários foram incansáveis, atenciosos, afáveis, incentivadores. E a maioria deles, senão a totalidade, também integravam equipas que participaram na prova de estafetas. Que grandes profissionais. Um exemplo para a maioria das organizações que se dizem profissionais. Talvez devam pedir o livro de instruções a Castrelos 20-30. E que amáveis e prestáveis as voluntárias que estavam nas nossas boxes. Estou convencido de que, se tenho pedido uma francesinha, fariam tudo para satisfazer o meu pedido. Que grandes, foram enormes.
           Em segundo lugar, o público. Um dos principais motivos porque tanto gosto de correr em Espanha tem a ver com o seu público. São incansáveis no apoio aos atletas, quer sejam primeiros ou últimos. São inexcedíveis.  Foi tão bom ouvir o meu nome uma e outra vez. Foi tão bom ouvir " força Paulinho". Foi tão bom ouvir-vos gritar "Portugal, Portugal, Portugal." E foi extraordinariamente bom ouvir-vos cantar "A Portuguesa", e receber cumprimentos de alguns de vós no final da corrida. Que contraste em comparação com o trail que corri na minha terra natal há apenas 3 meses.
           E por último, e porque foram os grandes animadores das 24 horas, os bravos e heroicos  atletas que corriam por estafetas. Que grande competitividade e entrega. Incansáveis. Foram verdadeiros guerreiros e estrategas lutando até á exaustão, e utilizando a melhor tática que os levasse ao melhor lugar na classificação. Apesar de terem passado por nós como autênticas flechas, foram sempre deixando palavras de incentivo aos atletas individuais. 

Fase noturna da corrida
 


      Muito mais que uma corrida!

      Diz um slogan relativo ao parque de Castrelos que: en Castrelos nunca corres solo. A frase refere-se ao facto de em Castrelos haver sempre alguém a correr. Durante esta prova senti que o significado deste slogan vai mais longe, e cada palavra de incentivo, quer por parte de atletas, voluntários ou público em geral, era como uma passada extra que alguém dava por mim. Metade da proeza é minha, a outra metade tenho que dividir, porque em Castrelos, nunca corri só.


Foto:Alexhaphotos
 
Foto: Alexhaphotos
 



     Ao contrário do que senti em outras provas e desafios, não me sinto atormentado nem nervoso pelo facto de estar prestes a viver a minha maior aventura no mundo do atletismo.  O único aspeto que me deixa apreensivo prende-se com a logística. Tenho receio de vir a precisar de alguma coisa que me tenha esquecido, ou simplesmente, não tenha considerado importante trazer para a prova. Assim, depois de ter levantado o dorsal, ter sido saudado por organizadores e voluntários, e ter conhecido o meu local a ocupar nas boxes, decido-me a trazer para a minha área tudo quanto preparei, para que nada me falte. Água ( das Pedras, claro), café, sopa, fruta, roupa suplementar, e outras pequenas coisas que achei conveniente trazer.
       O grupo vai-se compondo, vai-se conhecendo. Dão-se conselhos e recomendações. Vai-se criando um clima de rivalidade, ou talvez não. O final da prova vai-me dizer que nunca houve rivalidade, mas sim muita união, muito companheirismo e amizade. Por mais que lutássemos por ser melhores que os nossos adversários, nunca deixamos de nos motivar e incentivar uns aos outros. Fomos uma autêntica família por 24 horas.
        Depois de uma volta de aquecimento, onde se assinalava o cariz social da prova, o tiro de partida é dado, como era de esperar, às 12 horas em ponto. E uma vez mais ao contrário de outras provas, não me coloco o mais à frente possível, mas sim bem na cauda, junto de outros atletas individuais. Nas primeiras horas de corrida, ainda fresco, tenho dificuldade em manter o ritmo lento que desejo. Mantenho um ritmo entre os 7/8 minutos por quilómetro durante as primeiras 5 horas de corrida. Chego facilmente aos 40 quilómetros, mas o calor e a humidade tornam o desafio mais difícil. As paragens nas boxes são constantes, preciso de água e de me alimentar constantemente. Mais tarde vou saber que este é o dia mais quente do ano em Vigo. Ultrapasso as 5 horas de corrida, e a partir daqui começo a fazer series de 5 km, com uma paragem mais prolongada nas boxes  entre cada série, para me alimentar, hidratar e descansar.
        Soa o alarme depois de 50 quilómetros e com 7 horas já passadas. Sinto as fortes náuseas que me costumam atormentar nas corridas mais longas e mais desgastantes. Temo passar as próximas horas sem conseguir ingerir o que quer que seja. E mais grave ainda, sem poder somar quilómetros. A atenção das voluntárias está voltada para mim. Incansáveis, procuram solução para o meu problema. Alguns minutos depois já está um médico junto de mim. Curiosamente, também ele é parte integrante de uma equipa de estafetas. Depois de analisar o meu estado de saúde, recomenda-me que descanse algum tempo, que coloque as pernas ao alto e que coma alguns alimentos salgados.
           Faço-me de novo á pista depois de cumpridas as recomendações  médicas e de já me sentir melhor. Continuo a fazer series de 5 quilómetros, mas o ritmo de corrida é mais lento, e vou alternando com períodos de caminhada rápida. A minha passada lenta e arrastada começa a ser reconhecida pelos meus adversários. Em determinado momento da corrida, quando me aproximo de 3 deles que avançam a caminhar, Javier Sobrino disparou: " Me suena este ruido. Es de un português!"
           Incansáveis continuam a ser os atletas que esperam a sua vez de competir, e os voluntários que se encontram ao longo do percurso. Não param de incentivar, quer a nós os individuais, quer os estafetas. "No me importa que te enfades, no voy parar de animarte."  Nunca me zango com as palavras de incentivo. Em determinados momentos também não me faço rogado no apoio aos restantes atletas. Apenas me zango por me ver ultrapassado por tantas miúdas. Aish.
           Cumpro as 9 horas de corrida, com um total de 60 quilómetros, quando faço uma pausa para jantar. Por insistência das voluntárias, prolongo essa pausa por algum tempo mais, mas rapidamente regresso ao meu conta quilómetros. Mantenho a tática, series de 5 quilómetros, com pausas entre elas. A uma média de 5 quilómetros por hora, atinjo os 95 às 16h30' de corrida. Neste momento, dirijo-me ás boxes e solto um já chega, já não posso mais. Só quero chegar aos 100, e pronto! Tento dormir um pouco, descansar. Que inveja do José Manso que continua a meu lado a dormir como uma criança. Faz demasiado  frio, e não estou convenientemente confortável para poder adormecer. Viro-me para um lado, para o outro. Cubro-me com uma toalha. Faço nova almofada com a roupa que me sobra. Mas nem a contar carneiros consigo adormecer. Incomodado com o frio que sinto, volto á corrida. Preciso de aquecer. Faço um quilómetro, e mais outro, e um mais. Mudo a tática. Faço de 2 em 2 quilómetros, a caminhar nas zonas onde não há público, e a trotar nas zonas mais povoadas, e paro a cada serie durante 15 a 20 minutos. De 2 em 2, ás 22 horas de corrida atinjo a marca dos 110 quilómetros. Reformulo novo objetivo, chegar aos 120.  Ás 10 da manhã, cresce substancialmente o número de espetadores. O entusiasmo é maior. A luta pelos primeiros lugares nas estafetas está ao rubro. Os melhores atletas estão reservados para os últimos quilómetros. Correm como nunca. Os incentivos fazem-se ouvir mais insistentemente. Não há quem tire os olhos do circuito. Já mudei 2 vezes de camisa, nas primeiras trazia o meu nome impresso. Nesta já não trago. Mas estranhamente, as pessoas continuam a tratar-me pelo meu nome. Por vezes, carinhosamente tratam-me por Paulinho. "Animo Paulinho. Vamos p'arriba." Não me faço rogado e mantenho um  ritmo de corrida, lento mas contínuo. Caminhar nesta altura da prova nem pensar. Ás 11 horas chego aos 116 km. Faço as minhas contas, e com um ritmo de 10' o quilómetro, e com paragem nas boxes de tempo igual, a marca dos 120 está no papo. Mas esta última hora torna-se especial. Afinal em Castrelos  nunca corres só. E se aumenta o número de pessoas presentes, aumenta também o número dos que correm por ti. Já não faço paragens longas, apenas o suficiente para tragar um pouco de água e regresso à pista. Mantenho a passada arrastada porque a força escasseia, e levantar as pernas é missão quase impossível. Às 11.40' faço a última paragem nas boxes, com uma missão suplementar. Coloco a bandeira de Portugal sobre os ombros e troto para a linha de meta onde cumpro a volta número 121.  Faltam 18 minutos para o final. Duas voltas e missão cumprida. O que se passa a seguir nem eu sei explicar. O mesmo atleta que há já largas horas vinha a arrastar os pés começa a ganhar força. A passada é larga. Consigo rivalizar com grande parte dos estafetas. Cumpro uma volta mais, em menos de 5 minutos. Pelo caminho emociono-me quando ouço gritar: Portugal, Portugal, Portugal. Parto para uma volta mais, agora acompanhado por um voluntário. Digo-lhe que vamos dar  2 voltas. Tem dificuldade em aceitar, mas tenta manter o meu ritmo, mas desta vez vou mais lento.  No mesmo local onde na volta anterior ouvi gritar o nome de Portugal, cantam-me agora A Portuguesa. Não consigo olhar as caras de quem continua a incentivar-nos, mas muito provavelmente estão tão admirados quanto eu. Nova chegada á meta, e o meu voluntário tem que ser substituído. Que maldade Paulo. Ainda faltam 7 minutos. Digo-lhe que vão ser 2 voltas mais. Mas desta vez compadeço-me do meu voluntário e reduzo o ritmo. Paramos mesmo ,para deixar passar os minutos. Faltam menos de dois minutos para soar o gongo. Recomeçamos a correr. Quando passo pela zona onde ouvi a maior parte dos incentivos, agradeço o apoio que me deram. Mesmo a correr, faço pequenas vénias e aplaudo. Repito semelhante gesto na zona que precede a meta. Também o público é vencedor. Também o público me ajudou a cumprir o objetivo. Não ganhei. Também não perdi. Alias, ninguém perdeu. Quando cada um dá o que tem e o que não tem, não se pode considerar perdedor. Todos ganhamos. Castrelos ganhou.




 
O abraço especial de José Manso

      
     As lágrimas no final da prova são inevitáveis. Começam a ser um costume. Talvez tenha estranhado a falta de apoio de alguém mais próximo, apesar da muito agradável surpresa a meio da tarde de sábado ( obrigado Viviana e Pedro ). Talvez quisesse partilhar a minha alegria no final com alguém especial. Ou talvez quisesse dizer a quantos me disseram para ter juízo, que não sou fácil de derrotar. A verdade é que vivi a mais bela jornada de atletismo em que participei. Por isso foi com muita emoção que recebi abraços e felicitações de quem correu a meu lado, ou de quem me viu correr. "Como venias y como has terminado. Te felicito."  
        Para repetir?
        Se for em Castrelos, claro que repito.

Entrada para as 3 voltas da consagração

            
            Até já!




          



        

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Km 11 - XXX Maratón Internacional de la Ciudad De Mexico




 XXX
Maratón Internacional de la Ciudad de México

 

2 de setembro de 2012

 
 
 
                                   "Llora, grita, que se te caiga una uña del pie,
                                     hazte del baño en tu
                                     short....
                                     Pero, no dejes de correr!!!"
                                                
                                                        
Comprovativo de inscrição


                                         
          Sangue, suor e lágrimas!

         Interrompo a cronologia lógica das últimas crónicas, para fazer uma viagem no tempo e recordar convosco aquela que foi a minha primeira grande aventura de sapatilhas, dorsal e chip.
         Dois dias apenas após as 24 horas mais loucas que vivi, onde passei por diversos estados de espírito que mudavam a cada minuto do desafio, e ainda a digerir as emoções da prova, não consigo classificar qual das experiencias me deu mais gozo enfrentar. Em momento oportuno falarei das 24 horas de Vigo, mas agora é hora de celebrar o 2º aniversário após a minha estreia em maratonas. E que melhor local para me estrear senão a minha cidade de eleição?
          A pedido de um jornal regional, e porque na altura ainda não tinha blogue, escrevi uma pequena crónica sobre o que vivi naquela célebre manhã de 2 de setembro de 2012.



"A CIDADE A MEUS PÉS

São seis da manhã e o metro é gratuito para os corredores. O polícia pede-me que coloque o meu número. Saio da estação San Cosme, em direção a outra estação, a de Zocalo. O metro já se apresenta cheio de atletas que mostram algum nervosismo. O céu está estrelado, a noite ainda paira sobre a cidade. Às 7 horas, uma banda militar toca o hino nacional mexicano e, pouco depois, é dada a partida para as atletas femininas. Às 7.20 horas, escuta-se o tema musical do filme "Rocky". É hora de dominar o medo e de desfrutar a minha primeira maratona. O Zocalo atravessa-se ao som de foguetes. A cidade está a meus pés. Sinto-me poderoso ao atravessar o "Paseo de la Reforma" e as ruas de  "Polanco", geralmente saturadas de automóveis, mas hoje preparadas para render tributo a todos aqueles que trotam pelo prazer de sentir a adrenalina que os leva a levantar os pés uma e outra vez. Ao passar pelo túnel do "Chivatito", ouve-se alguém a gritar: “Já se cansaram?”. Os corredores respondem: “Não”. Pelo caminho, vão-se escutando as vozes incansáveis das cerca de 1 milhão de pessoas presentes nas ruas: “Si, se puede. Si, se puede. Si, se
puede”, com algumas dessas vozes dirigidas a atletas em particular. E  foi com prazer que fui escutando uma e outra vez frases como: “Vamos, Paulo. Ânimo, Paulo” (colocar o meu nome na camisa foi boa ideia!), como se cada uma daquelas vozes representasse a minha família ou os meus amigos. Já havia corrido 20 quilómetros, a uma média de 46 minutos por cada 10 deles. Mas, ao chegar aos 30 km, quando começa a extensa reta de "Insurgentes", começo a ter os primeiros problemas físicos, começam a atormentar-me as cãibras, primeiro uma coxa, depois a outra. Ouço alguns incentivos de outros atletas e a oferta de ajuda por parte de alguns que desistem, porque uma pausa colocá-los-ia na mesma situação que eu. Depois das cãibras, novo problema surge: é necessário descobrir um restaurante aberto, onde possa aliviar problemas intestinais. Tudo parecia perdido. Havia perdido o bom ritmo que vinha apresentando, as forças vão-se, falta uma eternidade para chegar a "Reforma". Faltam 7 quilómetros e atormenta-me a ideia de desistir. Não me imagino a regressar a casa com esse fracasso. A dor seria maior.
Aos 35 km, com 2 h 57 m já passadas, a meta de baixar as 3 h 30 minutos parece uma miragem. É hora de sofrer. Todas as pessoas que estão na rua são incansáveis no apoio: dão “bolsitas” com refrescos, gomas e caramelos. Os miúdos acham muita graça em poderem oferecer uma laranja e poderem gritar: "Ya falta poco. Si, se puede". Uma voz mais estridente alerta-me: “Não pares de correr, eu não paro de gritar". A correr os últimos quilómetros de forma mais lenta, quase já a caminhar, vai dando para observar tudo o que me rodeia mais ao pormenor, podendo ler os muitos cartazes que vão apoiando alguns atletas.  Alguns deles muito interessantes, curiosos, cheios de humor, como um que dizia: “Mas despacio, mi papa viene atrás" (“corram mais devagar, o meu pai vem atrás”). Aproximo-me do Zocalo, entro na "20 de Noviembre". Avisto a meta ao fundo, falta pouco mais de um simples quilómetro. Está perto o meu momento de glória. Lembro- me de todos os que disseram que eu iria conseguir. A 200 metros da meta, procuro a bandeira portuguesa entre o público, vejo-a nas mãos do meu amigo Abraham que me espera e me vai procurando entre o grande número de atletas. “Roubo-lha” das mãos e só então ele repara que estou prestes a viver o meu momento de glória. É hora de correr para a meta, com a bandeira pelos ombros, já não há força para a levantar mais alto e viver, triunfante, o grande momento, lembrando as vozes de fundo, ao longo da corrida: “Si, se puede!" E eu consegui. Caminho em silêncio por entre atletas triunfantes que recebem os parabéns de familiares e amigos. Veem-me lágrimas aos olhos. Alguém me pergunta: "De Portugal?". Com orgulho, respondo que sim. ISTO É A GLÓRIA."


                                 In Mensagens Aguiarenses ,11 setembro 2012

Passagem pelos 10 km


O momento de glória

      Depois de transcrever o texto para o blogue, veem-me de novo lágrimas aos olhos. Não resisto sempre que recordo a emoção do momento.
      E porque não refiro dados finais referentes á minha corrida na crónica, aqui ficam para a posteridade.

      Para a estatística:

      Maratona número 1

      Tempo líquido (chip): 3h46'34'' ( a 1h30'42'' do vencedor)
      Classificação geral: 1283 (7948 inscritos)
      Classificação masculina: 1122 (6447 inscritos)
      Classificação categoria (35-39): 204 (1089 inscritos)

     Até já!

 

terça-feira, 5 de agosto de 2014

Km 10 - II Grande prémio de montanha Senhora da Graça



II Grande prémio de montanha Senhora da Graça
Taça de Portugal  de montanha - Final
 

26 de julho de 2014

 
 
 
                                                 Á primeira, quem quer cai.
                                                 Á segunda, só cai quem quer.
         
          


      Que biolência!

      A montanha chama por nós. O desafio está lançado. Para alguns está em causa a luta por um título nacional. Para uma pequena minoria trata-se de uma estreia. Eu não entro em nenhum destes grupos. Dos 35 atletas alinhados á partida, retirando os que lutam por títulos nacionais, e os que se estreiam na aventura, o número que resta diz respeito a todos aqueles que no ano passado sofreram, lutaram, disseram: "Senhora da Graça nunca mais! Falta muito? Só quero chegar lá cima", e que este ano regressaram.  Eu estou nesse número.
      O grande fator comum que existe nas provas de montanha, é o de grande parte do percurso se fazer em sentido ascendente. Mas um aspeto distingue esta de outras provas.  A pendente dos sectores em ascensão é demasiado acentuada.  Doze quilómetros nos separam do alto do Monte Farinha, onde esta instalada a meta no Santuário da Senhora da Graça, e desde os primeiros metros a prova sobe, e sobe, e sobe. 

      Os primeiros quilómetros, apesar de serem de uma exigente dureza, ainda consigo ultrapassar em constante ritmo de corrida. Conhecendo o percurso, inicio a corrida na cauda do pelotão, a ritmo pausado e controlado. Numa  fase em que endurece a prova, vou ultrapassando os mais ousados que iniciaram o desafio numa corrida desenfreada, desconhecendo que as dificuldades iam aumentando metro após metro. Consigo manter o ritmo até aos 4 quilómetros. A partir daqui, porque a dureza da prova aumenta, porque o forte calor limita o nosso rendimento e porque as pernas começam a acusar o esforço despendido, já não consigo manter a passada e o trote constante. E á semelhança dos atletas que avançam perto de mim, vou superando as dificuldades a caminhar sofregamente. Depois dos  4 e até aos 8 quilómetros, apesar de ter ainda muitos setores a subir, conseguimos recuperar energias e ganhar novo fôlego em algumas zonas planas e a descer. Em situações normais, era uma oportunidade de ganhar tempo e ultrapassar mais velozmente parte do percurso. Mas como a dificuldade maior reside numa subida de 800 metros, com 200 metros de desnível positivo logo após o quilometro 8, aproveito as zonas mais acessíveis para descansar.
       A subida mais temida por todos quantos já conhecíamos o percurso, ultrapasso com grande esforço e sofrimento. Em algumas zonas avanço com uma passada perto dos 17' por quilometro, que apesar de lenta me permite ultrapassar mais 2 atletas. Vencida a grande dificuldade entramos num quilometro a descer, e nova oportunidade para ganhar fôlego para enfrentar o derradeiro quilometro, também de extrema dificuldade. E aqui já não está só em causa o relevo e as subidas, mas também o cansaço, as dores físicas e o calor que continua a incidir sobre nós com uma temperatura superior aos 30º.  E estes metros finais estão longe de ser fáceis. Há subida que não termina mais. Há escadas que são dolorosas. E há um avistar da meta,  que parece inalcançável.
       Após 1h38' chego ao fim da aventura. Mais 3 minutos do que na edição anterior. Três minutos que foram comuns a grande parte dos participantes. Também o vencedor, o mesmo de ambas as edições, juntou mais 3 minutos ao tempo do ano passado.

        Superado mais um desafio. Um árduo desafio. Mas com uma satisfação enorme por me ter superado. Por ter ignorado o calor, o cansaço, o sofrimento, e  ter usufruído ao máximo de um trilho lindíssimo, de uma paisagem magnífica, e de uns camaradas de corrida fantásticos.
        Recordo que o João volta a ter um grande desempenho nesta prova, com um 10º lugar da geral, apenas superado pelos atletas que corriam pela conquista da taça. E a Helena que apesar do 4º lugar da geral, consegue defender o 3º lugar da taça de Portugal de Montanha em veteranos.


      Para a estatística:

         II Grande Prémio de Corrida em Montanha Senhora da Graça
      12 km 

      Corrida de montanha número 5
      Tempo líquido: 1h38'24'' ( a 38' do vencedor)
      Classificação geral: 25 (35)

      Classificação escalão Veteranos: 11 (15)


Percurso da prova

      Até já!


 


     

 

domingo, 27 de julho de 2014

Km 9 - 8º Cross de S.Brás (Granja- Castro Daire)



8º CROSS DE S.BRÁS (Granja- Castro Daire) 
Circuito nacional de montanha
 

20 de julho de 2014

 
 
 
         Quem corre por gosto não cansa.
         Quem cansa a correr não gosta.
         Quem não gosta de cansar, não corre!
           
                                          Paulo Machado


      Como uma verdadeira trilogia!

      Não quero de forma alguma que as minhas crónicas se tornem repetitivas e aborrecidas. Pretendo sobretudo que cada uma tenha motivos de interesse diferentes que vos pretendam até ao até já final, e que vos façam ansiar pela próxima. Esta crónica, referente ao 8º cross de S. Brás, é de alguma forma idêntica á última onde relato o que se passou na corrida do Marão. Os atletas são praticamente os mesmos, e os personagens de que vou falar são já vossos conhecidos. Está a Helena parceira de corridas, o João grande vencedor na última corrida, o Adriano que não quis correr no Marão,  e o Caneca que teve um pequeno papel no trail de Vila Pouca de Aguiar antes de se despistar, e estou eu  para memorizar as incidências e vô-las  narrar.

O Adriano
O Caneca dorsal 555
      E para que a narrativa se pareça em tudo á do Marão, além dos personagens não podia faltar a chuva. Mas esta  é nossa amiga e abandona-nos antes da corrida começar. Curiosamente, e porque o Adriano ainda está na expectativa de fazer ou não a prova devido á chuva, digo-lhe que não vai chover mais. E na verdade, eu não volto a apanhar chuva durante o desafio. O mesmo não podem dizer os atletas mais lentos, porque 5 minutos depois de eu terminar, abate-se sobre nós uma verdadeira tempestade durante breves minutos.
Dorsal 623


     São 8.30h, 15 minutos depois da hora prevista começa a prova. A temperatura está muito provavelmente abaixo dos 20º, o que é excelente. Os grandes candidatos aos primeiros lugares investem numa corrida desenfreada para se colocarem na frente do pelotão. Eu deixo-me ficar na cauda. Previamente falei com a Helena e disse-lhe que se me sentisse com forças abandonava o nosso ritmo mais lento e tentava uma corrida mais rápida. Nos primeiros metros vou  olhando para trás, vejo que ela não me acompanha  e invisto também eu numa corrida mais audaz e veloz. Os 3 primeiros quilómetros, e porque são acessíveis,  são para ganhar posições que perdi com uma saída mais lenta. Uma primeira ravina, e porque é em sentido descendente, aconselha-nos a moderar a velocidade, e a descer com muito cuidado. Vão junto a mim algumas atletas femininas, que tornam a descida ainda mais lenta. Depois da descida, os metros que se seguem são de igual modo perigosos, apesar de serem em terreno plano. E porque estamos a correr sobre um riacho, as pedras são extremamente escorregadias. Aqui e ali vou ouvindo um ai, ui, cuidado. Mais tarde, relatos de quedas, reportam exatamente a este local. Cientes da  perigosidade do local, a organização coloca no local voluntários para los alertarem e eventualmente assistirem em alguma situação mais dramática.
     Até aos 6 quilómetros  só temos que rolar, com um ou outro sector ligeiramente mais ascendente, e enfrentarmos então 2 quilómetros de verdadeira ascensão. Consigo ultrapassar esta fase sempre a trotar, em passada curta e lenta e desfrutar depois de alguns quilómetros de downhill e pura adrenalina. Devido ao esforço despendido na subida, e porque em descida a passada é mais larga e veloz, começo a sentir um aproximar de cãibras nas coxas. Paro um pouco, alongo,  massajo e siga.
Essas palmas?

     Sinto-me bem, apesar de ir a um ritmo mais elevado que no Marão. Estou a adorar as paisagens, sobretudo os trilhos por onde temos passado. É a natureza em todo o seu esplendor, no seu estado mais puro, quase virgem. A sinalização não permite que nos enganemos no trajeto. Talvez um ou outro atleta mais deslumbrado com a paisagem se possa entusiasmar e seguir  por rotas não sinalizadas.
      Após o quilometro 13 avançamos para um sector já ultrapassado, mas desta vez vai se feito em sentido contrário. A zona perigosa do ribeiro, e de novo a ravina, mas agora toca a subir. Já não consigo fazê-lo em trote, mas avanço passo a passo até ao topo. Temos mais 3 quilómetros pela frente acessíveis e igualmente  belos, sobretudo o percurso que fazemos junto e através do rio. Nesta altura o sol  vai espreitando por entre as nuvens e libertando um calor mais intenso. A frescura da zona junto ao rio é aceite de bom grado, e é tempo de guardar energias para os últimos e implacáveis 5 quilómetros. Os primeiros 3 são de duras e constantes subidas. Nesta altura fico completamente sozinho na corrida. Quem ia á minha frente avançou de forma vigorosa, quem vinha atrás de mim, não resistiu á severidade das subidas e ficou para trás. Antes dos 500 metros finais em subida até á meta, temos uma descida longa, sobre uma senda muito instável. O caminho faz-se sobre pedras grandes e soltas, com constantes mudanças de direção. Requer o máximo cuidado, muita atenção, e olhos focados no local onde vamos colocar os pés. Uma passada mal calculada pode fazer com que facilmente torçamos um pé, tropecemos, e demais situações dramáticas e dolorosas. No final da descida alcanço um atleta M55. Cortesmente diz-me para passar. Não tenho coragem. Sigo na sua peugada, e avançamos numa mini fila indiana até á meta. Tudo o que podemos e devemos fazer numa corrida é ao longo desta, e não nos metros finais. Aqui, a caminho da consagração gosto de respeitar o esforço dos adversários. E afinal,  não está em causa o primeiro lugar. E mesmo que estivesse...
Já está!

      Mais uma vez, apesar de ficar um pouco aquém do que fez no Marão, quedando-se apenas pelo 21º lugar da geral, o João volta a ganhar a corrida no escalão M50. E apenas 23' depois de mim chegou a Helena que não foi capaz de superar a nossa adversária da última corrida.

A Helena seguida pelo Adriano




O campeão João Gonçalves
     Uma nota para a organização. Ou melhor, cinco notas. Cinco estrelas. Delimitação e sinalização do trajeto impecável. Voluntários colocados em pontos estratégicos do percurso. Abastecimentos suficientes. Apenas um senão, e tem a ver com o atraso da abertura de portas para o almoço. Difícil de aceitar numa altura em que estávamos todos esfaimados.



Para a estatística:


      8º Cross S. Brás 22 km
      Corrida de montanha número 4
      Tempo líquido: 2h12' ( a 40' do vencedor)
      Classificação geral: 57 (104)

      Classificação escalão Elite M: 18 (31)
     
Cartaz promocional
     Até já!

 

 

domingo, 13 de julho de 2014

Km 8 - 1º Trilhos do Marão



1º Trilhos do Marão
VIII Campeonato de Portugal FPME de corrida em montanha
 

6 de julho de 2014

 
 
 
        "Fui para os bosques para viver livremente, para sugar o tutano da vida. Para aniquilar tudo o que não era vida, e para, quando morrer, não descobrir que não vivi."
                                                                        Thoreau


    O ditador, S. Pedro, e nós!

     Chove copiosamente. A corrida é adiada em 30 minutos na  esperanças de que as condições climáticas possam melhorar. Alguns atletas já desistiram de participar. O Adriano é um deles: "Corridas há muitas, para a semana já há outra!" Eu congratulo-me. Melhor, é um lugar que fico mais á frente. Mas, quase toda a totalidade dos 100 atletas inscritos não nos demovemos do propósito de enfrentar  e levar a melhor sobre o árduo e difícil desafio que temos diante de nós.
       Conscientes das dificuldades  que vamos enfrentar, cada metro a percorrer é sempre uma nova surpresa. Uma subida cada vez mais íngreme, uma descida cada metro mais vertiginosa. Uma escarpa que temos que escalar, um tronco que temos que saltar.
        Debaixo de um verdadeiro temporal, dá-se início á prova. Após as primeiras centenas de metros, vai-se formando um autêntico cordão humano, com os atletas mais rápidos, naturalmente na frente da corrida. Nós mante-mo-nos no último terço do cordão ( eu e a Helena). Após os dois primeiros quilómetros a corrida começa a endurecer. Vão ser subidas constantes e íngremes até aos dez quilómetros do alto do Marão, onde vamos atingir os 1415 metros de altitude. Consigo ir avançando metro a metro, trote a trote sem parar. A Helena vem atrás de mim. Vai avançando no meu encalço de forma mais lenta e sofrível. A espaços, reduzo a velocidade e espero por ela. Em zonas mais íngremes e acidentadas, coloco-me ao lado dela e apoio-a na  sua árdua tarefa. Num momento em que ela vai em desequilíbrio seguro-lhe no braço e evito que caia. Uma atleta que vem atrás de nós, entende o gesto como um benefício da minha parte em prol de uma adversária. De forma irónica pergunta: Está tudo bem? Mais tarde vou ter oportunidade de a ajudar também a ela.  "Perdoa aos teus inimigos, nada os irrita tanto".
        Depois de três quilómetros sempre a subir, chegamos a um troço de cerca de dois quilómetros mais acessíveis. Mas apesar de ser em sentido descendente, a atenção da nossa parte tem que ser redobrada. A neblina e a chuva tornam a visibilidade  reduzida e temos que prestar muita atenção não só  á sinalização que nos indica o caminho, mas também ao piso que é muito acidentado e perigoso. Apesar de termos os sentidos focados no nosso propósito, aqui e ali temos oportunidade de observar magníficos e belos postais ilustrados. Paisagens de cortar a respiração. Devíamos ter trazido a lancheira e fazíamos aqui um piquenique. Sugiro. Mas o tempo não está propício para piqueniques.
      Chegamos a um dos pontos mais radicais do percurso. São apenas 70 metros de escalada. Os primeiros metros são feitos usando uma escada metálica de seis ou  sete degraus.  Nos restantes, usamos as raízes e os troncos das plantas mais robustas como corrimão. Os degraus, são rochas que a natureza colocou no local para nos ajudar na subida.
      Continua a chover com intensidade. Em alguns locais, a água  que corre pelos caminhos chega-nos aos tornozelos. Num momento em que a chuva é mais abundante, abro os braços e grito: Ah! Chuvinha boa!  Já a Helena faz uma prece divina: "Vá lá S. Pedro,  já chega. Tem pena de  nós."  Chamem-lhe milagre ou outra coisa qualquer, mas desde as palavras da Helena, e durante alguns minutos, para de chover completamente. Este período coincide com a nossa chegada e passagem pelo quilometro 10, instalado no ponto mais elevado da prova, o alto do Marão com 1415 metros de altitude.    
Alto do Marão, 1415 metros de altitude.

       Vencemos a primeira metade e a mais difícil da prova gastando 1h35'. A partir de agora, o percurso é quase na sua totalidade em sentido descendente, mas muito perigoso. Prova disso é a nossa passagem por um sector entre o quilómetro 11 e o 12. No posto de abastecimento anterior, os voluntários alertam-nos para a perigosidade deste quilómetro. Alcançamos o lugar mais perigoso, que compreende uma descida vertiginosa de cerca de 100 metros, onde é aconselhável descer de marcha atrás, usando todos os possíveis apoios para nos darem segurança e ajudarem e facilitarem a descida. Já em plena descida está a mesma atleta que alguns quilómetros atrás nos chamou á atenção quando prestei ajuda á Helena. Está completamente histérica, a gritar para que ninguém se aproxime nem a empurre. Está completamente imóvel e fora de si. Digo-lhe para não se mexer, que me  vou aproximar e ajudá-la na descida. Agora, á frente dela, vamos descendo passo a passo, com o máximo de cuidado e precaução. As rochas estão escorregadias, o caminho enlameado, e a vegetação rasteira está molhada e perigosa. Vamos usando, uma vez mais, os troncos das plantas mais robustas e as raízes para nos agarrar-mos durante  a descida. A meio da descida, parece mais calma, e já é ela que estranhamente me vai dando indicações de como devo descer. Quando reparo que já não precisa de ajuda, apresso-me a chegar ao fim da ravina, deixando para trás, além de dita atleta, uma outra amiga da Helena e a própria. Vêm em animada cavaqueira. Vamos lá, menos conversa e mais corrida! É o que dá correr com mulheres! "Saíste-me cá um ditador!" Diz-me uma delas. Recebo o elogio com o mesmo espírito de brincadeira com que proferi a minha frase. 
Marão

      Antes de iniciarmos a prova tínhamos apenas como principal objetivo terminar a corrida. A partir de agora, reformulamos os nossos objetivos. Queremos terminar o desafio á frente desta nossa adversária. Numa situação em que estamos mais isolados brinco: Devia tê-la empurrado! Ups! Oh, desculpa, foi sem querer! Apesar do cansaço não resistimos a umas estridentes gargalhadas. Vai-se mantendo colada a nós durante alguns quilómetros. Mas depois de algumas subidas, não resiste ao nosso ritmo, e acaba por ficar para trás.
       Estamos finalmente sós. Por momentos a  chuva dá tréguas. A espaços o sol parece querer brilhar. Continuo a sentir-me muito confortável com o ritmo a que vamos avançando. No último posto de abastecimento, os voluntários vão dividindo entre si fatias de queijo, acompanhadas de cerveja. Peço para mim  também uma super bock. Apenas me oferecem queijo, que rejeito, e água da qual bebo pequenos tragos . Os três quilómetros finais são já nossos conhecidos. No sentido ascendente foram os primeiros da prova. Agora são bem mais fáceis de fazer, pois são em sentido descendente. Curioso é o facto de ter sido num dos pontos de passagem deste sector que um grande número de atletas se perdeu. Acontece também connosco, mas descobrimos bem cedo o nosso erro e voltamos para trás cerca de 50 metros em busca da sinalização, e verificamos que é demasiado deficiente no local, mas facilmente retomamos o caminho correto .
        Está quase no final a nossa aventura. Posso ficar á tua frente? Claro que a Helena não diz que não. Afinal tanto faz um lugar á frente ou atrás, quer para ela, quer para mim.  Os últimos 200 metros são a subir. A Helena apresenta uma maior fadiga, e consigo afastar-me e chegar primeiro á meta. Viro-me e aplaudo a sua chegada, afinal é ela a campeã. Também campeão é o João Gonçalves ( sim, sim; esse mesmo que na Régua fazia o aquecimento quando a corrida já havia começado á 10 minutos) com quem habitualmente partilho as deslocações para as corridas. Pouco habituado a corridas desta natureza, mas a provar que são provas onde se sente mais á vontade, ficou na 12ª posição da geral, e no 1º lugar do escalão M50. De entre 84 atletas que concluem a prova, na sua maioria especialistas neste tipo de desafios, termino os 23 quilómetros  na 64ª posição, gastando cerca de 3 horas e a  1 hora do vencedor.
Marão

        Foram 3 horas de corrida. Cerca de vinte e três quilómetros. Algum cansaço e sofrimento. Água até ao tutano, e as sapatilhas a pesarem três vezes mais. Muita lama e algum frio, que não é comum em pleno mês de julho. Mas em compensação houve adrenalina até mais não. Houve muita diversão e prazer. Tivemos a oportunidade de correr em locais belíssimos, ver paisagens de cortar a respiração e disfrutar do que mais belo e aprazível a natureza tem para nos ofertar. E somos de facto uns privilegiados por podermos usufruir destes agradáveis momentos.


     *Devido á não existência de fotos da prova, recolhi algumas do Marão para ilustrar a minha crónica.


      Para a estatística:

      Trilhos do Marão 22.4km
    Corrida de montanha número 3 (a 1ª foi em 2012 em   Mogadouro a 2ª em 2013 aquando da subida á Sr. da Graça) 
      Tempo líquido: 3h03' ( a 1h03' do vencedor)
      Classificação geral: 64 (84)


 
       Até já!

       
  

       


 

quarta-feira, 2 de julho de 2014

Km 7 - II Meia Maratona de Guimarães



II Meia Maratona de Guimarães
 

22 de junho de 2014

 
 
 
       "A Natureza criou os prazeres, o homem os excessos"

Enquanto aguardava a chegada dos aventureiros

        Antes de me debruçar sobre as incidências da exigente e difícil Meia Maratona de Guimarães, vou dar um salto até Gaia. Mais propriamente até á praia da Aguda, onde ontem se realizou uma inédita meia maratona. Denominada Meia Maratona Areias de Gaia, o evento tinha ao dispor dos atletas as distâncias de 21, 10 e 6 quilómetros. Apesar de me ter deslocado ao local apenas para ver a prova, e em especial, o desempenho de alguns amigos, ainda me dirigi á organização para me inscrever numa das distâncias mais curtas. Mas, quando os informei que ia correr a meia maratona de Guimarães, demoveram-me imediatamente de inscrever-me na prova. A corrida, totalmente sobre areia, permitiu aos atletas viverem um momento  inesquecível. Apesar de um desafio árduo, custoso, difícil e muito exigente, a oportunidade que os mais de 200 aventureiros tiveram em  poder assistir ao primeiro pôr do sol deste verão em pleno desafio,  acabou por compensar todos os sacrifícios.
      Já que não me deixaram correr, peguei na máquina fotográfica e fui registar a passagem dos companheiros de aventuras.  Inicialmente junto á meta, onde esperei por um primeiro retorno, e depois algumas centenas de metros mais para norte, onde aguardei o regresso dos participantes, antes dos metros finais da prova.
      Fui registando a passagem de cada atleta, e foi bom, estando do outro lado, ver gestos de agradecimento pelas fotos. Já numa fase final da prova, alguns atletas não conseguiam disfarçar o cansaço, e chegavam junto a mim a caminhar a muito custo. Fui tentando incentivar alguns mais desmotivados: Vá lá, um trotezinho para a foto!  Mais tarde vou partilhar o álbum com todos quantos se quiseram procurar nas centenas de fotografias. E eu sei o quanto gostamos de ver-nos num grande número de fotografias em cada corrida.
Abordagem do quilometro final. Ao fundo já se vê a Helena.

      Quando a Helena chegou junto de mim, completamente exausta e cansada, desliguei a camara, e trotei os metros finais a seu lado, e pude comprovar a dureza da prova. Terreno muito instável, areia muito rala onde os pés se enterravam. Ainda fazia mais 21 quilómetros, brinquei com ela. Quanto a ela, era evidente o sofrimento e o cansaço: "Nunca mais me meto noutra."
Uma força da natureza. Um exemplo. Helena Mourão.

      Ficou mais do que evidente o quanto somos capazes de nos superar. O quanto somos capazes de cometer excessos para viver na plenitude os prazeres que a natureza para nós criou.


      Aqui nasceu Portugal!

        
      22 de setembro de 2013. Temperatura do ar a rondar os 38º. Guimarães estreava-se, em ano de capital europeia do desporto, no circuito nacional de meias maratonas. Percurso bastante difícil. Na altura, com muitas dificuldades, não consegui melhor do que 1h 52'. Nunca me senti tantas vezes tentado em desistir como nesta prova.
      22 de junho de 2014. Apenas o número do dia se mantem, de resto, tudo diferente. O dia está limpo e solarengo, mas a temperatura está bastante agradável, entre os 25º. O percurso, é quase o mesmo do ano passado, mas percorrido quase na sua totalidade em sentido inverso. A parte mais difícil e exigente, que no ano passado estava reservada para os últimos 6/7 quilómetros, este ano são os primeiros a ser percorridos. Parece tratar-se de um trail urbano. E de facto para lá caminha. Contabilizamos perto de 300 metros de desnível positivo, o que é pouco para um trail mas muito para uma meia maratona de estrada.
    O percurso é bastante interessante. Percorre bonitos locais da cidade, como a praça do Toural ou o emblemático castelo de Guimarães. A grande presença de público também contribui para a beleza do evento. Só é pena que não participem tanto na corrida como era expectável, através do incentivo e  apoio aos atletas.
      Apesar do conhecimento prévio das dificuldades que o percurso iria colocar aos participantes, a organização não quis deixar de mostrar o que de melhor a cidade tem. Quem construía castelos fazia-o onde seria melhor em termos bélicos. Nunca o fizeram a pensar nos corredores.



Abordagem ao castelo.

       Os primeiros quilómetros, os que exigem um esforço suplementar da nossa parte, face ao constante sobe e desce das ruas estreitas e com piso em paralelo, consigo superar com um ritmo muito idêntico ao que tenho mantido nas últimas corridas. Gastei cerca de um minutos mais nos 7 quilómetros iniciais do que em anteriores provas.
         Depois da passagem pelo centro histórico, a prova entra num traçado mais plano até ao quilometro 19. Curiosa a passagem pelo interior do pavilhão multiusos, onde ouvimos a primeira grande ovação da corrida, graças ao som que nos chega do sistema sonoro do recinto.

         Vou mantendo o meu ritmo, enquanto o traçado e as forças o permitem, apenas fraquejo nos dois últimos quilómetros. Passo o quilometro 19 com o relógio a marcar  1h26'. Depois daqui, talvez devido ao cansaço ou ao trajeto que entra numa fase ascendente até á zona da meta, ou talvez devido á desmotivação por verificar que vou ficar aquém dos meus melhores tempos, baixo de ritmo, e concluo os 2 últimos quilómetros nuns inimagináveis 12 minutos.
Já na subida final.

         Satisfeito por ter concluído mais um desafio. Um belo desafio. Apesar da dureza, a prova é muito mais agradável de se fazer no centro histórico, do que fora da cidade. Afinal, aqui nasceu Portugal!


      Para a estatística:

      Meia maratona número 17
      Tempo líquido (chip): 1h38'23'' ( a 30'48'' do vencedor)
      Classificação geral: 186 (535)
 
      Até já!



 

quarta-feira, 11 de junho de 2014

km 6 - I Trail Running de Vila Pouca de Aguiar





I Trail Running de Vila Pouca de Aguiar
 

1 de junho de 2014

 
 
 
       "Se alguém te obrigar a acompanha-lo durante um quilómetro, acompanha-o durante dois."  (MT 5, 41-42)


        Havia convencido a Helena a participar neste trail. Havia feito de tudo para que ela estivesse presente na primeira corrida em que ia participar no meu concelho. Inclusive, havia sugerido á organização que lhe endereçasse um convite, ou não se tratasse da campeã nacional de corridas de montanha em veteranos femininos.
    Havia pedido aos meus pais e ao meu irmão que fizessem os possíveis por  estar presentes num dos pontos de passagem, e/ou, no final da prova. Havia feito um prognóstico sobre o meu tempo de passagem no local sugerido e o tempo em que, correndo bem a prova, poderia terminar o desafio.
     Havia informado alguns familiares residentes numa das aldeias que íamos atravessar, da minha participação na prova, e o quanto desejava vê-los aplaudir-me, ou simplesmente ver-me passar.
     E agora, aqui estou eu, perfilado junto de cerca de 200 atletas, ao lado da minha amiga Helena, camelbak ás costas, protetor solar colocado, e um pouco impaciente pelo retardar do inicio da corrida. Aguardo com grande ansiedade e espectativa o que as minhas gentes podem fazer em prol desta atividade desportiva, e o carinho e entusiasmo com que os residentes vão ou não brindar os atletas participantes. Estamos prestes a estrear-nos num  trail. É o nosso batismo em corridas desta natureza.  A partir de agora e até que o futuro nos separe, o relato será no plural, pois é com a Helena que vou fazer esta corrida. Temos um acordo de cavalheiros. Ela veio fazer o trail, prometendo eu que a acompanho, e a carrego ao colo se ela necessitar. E como ela é levezinha, e temos um ritmo de corrida muito semelhante, não vou ter dificuldades em cumprir com a minha promessa.
         Parece tudo reunido para uma excelente manhã desportiva e competitiva, com muita  diversão e quilómetros de adrenalina. O tiro de partida é dado já perto das 10 horas, com uma  temperatura bastante agradável.  O sol está radiante, mas o calor é suportável.
      Começamos a um ritmo moderado, quase na cauda do pelotão. Não queremos entrar em loucuras, esperam-nos 34  duros quilómetros, e a segunda metade da prova é muito exigente. O primeiro quilómetro é feito ainda dentro do perímetro da vila, embrenhamo-nos depois na mata que nos vai conduzir ao primeiro ponto de interesse desta corrida, o Castelo de Aguiar. Ao 2º quilómetro deparamo-nos com o primeiro azar que caiu sobre os atletas. O Caneca, um atleta conhecido da Helena, com quem almoçamos  a seguir á meia maratona de Viana do Castelo, está estendido no chão, com o joelho todo rasgado, a ser assistido ( levou 12 pontos, e ficou privado de lutar pelos primeiros lugares da prova).

Momento inicial da corrida, ainda em fila indiana.

       Disfrutamos ao máximo da beleza destes primeiros quilómetros. Caminhos estreitos, que nos obrigam a correr em fila indiana e sem grande margem para ultrapassagens. A vasta vegetação  protege-nos dos raios solares. A descontração com que fazemos a corrida permite-nos conversar, fazer poses para as fotografias, e fazer uma pequena pausa para satisfazer as necessidades fisiológicas.
          Aproximamo-nos do Castelo, e a pequena subida que o antecede, trata-se sem dúvida da  grande dificuldade da primeira fase da prova. Como já fiz o reconhecimento do percurso, alerto os atletas ao meu lado, e a Helena em particular para o momento mais difícil: Está quase, está quase, está quase! Com umas gotas mais de suor vencemos a subida e preparamo-nos para a tomada do Castelo.
           O Castelo de Aguiar, isolado e inexpugnável como um ninho de águias, é uma pequena fortificação edificada nos contrafortes da serra do Alvão.  A sua ocupação de carácter militar remonta ao período romano, altura em que se edificou um reduto defensivo protetor que ligava Chaves ( Aquae Flaviae) a Lamego (Lamecum). Foi ainda palco de um dos muitos episódios da campanha de D.Afonso Henriques em prol da independência do Condado Portucalense.
         Com 49  minutos de corrida, e depois de calcorreados 8 quilómetros,  conquistamos por fim o Castelo. É como uma pequena batalha ganha na guerra que é terminar este desafio.  O que se segue ao Castelo é uma pequena armadilha da organização. A passagem faz-se entre grandes rochas, com uma possível passagem superior, e uma outra inferior. Sem qualquer informação subimos a rocha, até nos dar-mos conta de que a passagem se faz entre as fendas das rochas. Com muitas lamúrias á mistura descemos  e fazemo-nos pequeninos para passar-mos entre elas.

Um dos belos momentos da prova.

       Os quilómetros que se seguem são de pequena dificuldade. Apenas uma ou outra subida mais difíceis, mas muito curtas. Só temos de rolar e suportar o sol que incide sobre nós, nesta fase do percurso sem vegetação frondosa que nos proteja. Registo a nossa passagem pelos 9 quilómetros sobre a 1 hora de corrida, e ainda frescos como uma alface.
       O segundo ponto de interesse está reservado para a passagem na Barragem da Falperra. Situada em plena serra do Alvão, e ladeada por uma belíssima mata, salpicadas aqui e ali de imponentes fragas que circundam todo o lago. É uma belíssima e agradável zona de lazer e de repouso, propícia ao convívio e ao contacto com a natureza. 

A prova da boa disposição com que encaramos o desafio.

        Continuamos a avançar a bom ritmo, a galgar quilómetros e a eliminar dificuldades. Com 1h45' devoramos facilmente os primeiros 16 quilómetros do percurso.  Aproximamo-nos do ponto em que se separam o trail longo, aquele que vamos seguir, e o trail curto prestes a terminar. Á passagem pelo túnel sob a A24, solto um: Já se cansaram?  Como estamos só os dois, a resposta é NÃO. Entramos na segunda fase da corrida, mais difícil, mais técnica, mais exigente, apenas reservada aos mais resistentes.  Pergunto a um voluntário da organização quando por ele passamos, quantos vão á nossa frente. Dez? Pergunto eu. Mesmo sabendo que este número está longe de corresponder á realidade da prova, o número que ele dispara surpreende-me. Uns 30. E mulheres? Nova cara de espanto. É  a segunda. Mesmo a um ritmo confortável, com muita diversão á mistura, estamos a fazer uma excelente prova. Vais ter que dividir comigo o prémio do segundo lugar! Mas, cem metros volvidos sobre estes festejos, a Helena começa a sentir-se mal. Temos que parar, tentar que ela recupere, o que vem a revelar-se inútil. A arritmia que diz sentir, teima em não passar. Um, dois, três, uma mulher, outra mulher, e mais outros tantos atletas vão passando por nós. Como bons desportistas vão oferecendo ajuda. Mas não há muito que possamos fazer, apenas descansar e esperar que a Helena se recomponha. Para que a situação seja ainda mais dramática, acontece precisamente num dos troços mais difíceis da prova. Sobe e desce constante, escalada, descidas vertiginosas, vegetação densa que obstrui o caminho. A espaços vamos trotando algumas dezenas de metros. O problema teima em não passar. Depois de uma longa descida, e antes de abordar-mos a mais difícil das subidas da zona, a Helena diz-me que não consegue continuar. A desistência parece ser irrevogável. Pede-me que continue sem ela. Por momentos deixo de pensar no compromisso que  assumi, e penso nas pessoas que aguardam ansiosamente a minha passagem. Como o seguinte ponto de reabastecimento está próximo, sigo a minha prova e mando um dos voluntário ir ter com a Helena.

Momento em que peço á organização assistência para a Helena.

     Talvez tenha cometido um grande erro em abandonar a Helena, mas a partir de agora estou por minha conta. E mais do que perder a minha parceira  de corrida, perdi a experiencia que me permitia manter um ritmo de corrida equilibrado e confortável.
      Os quilómetros que se seguem não vão ser fáceis. Depois da travessia do topo da serra do Alvão até ao topo da serra da Padrela,  segue-se um constante sobe e desce até á meta. Mas o momento que eu mais aguardo desde o inicio da prova, está prestes a acontecer. A passagem pela aldeia de Vila Meã, onde tenho família, e o local  que sugeri aos meus pais para estarem presentes. Mas a juntar á dificuldade da subida, junta-se a ausência das pessoas que esperava encontrar. Apenas o meu tio Henrique se encontra no local. Começo a ficar sem energia, sem animo, sem forças. A ausência da Helena e a ausência do incentivo da família desmotivam-me. As subidas já só as consigo fazer a caminhar. Nas descidas ainda consigo trotar um pouco. Pelo caminho encontro atletas em pior situação do que eu. O primeiro que vejo, está sentado na berma á espera de assistência. Então? Acabou?  Ficou na berma a escassos 4 quilómetros da meta. Eu vou aguentando. Devagar. Devagarinho. Com mais de 4 horas de prova nas pernas.
     Deparo-me com nova situação de dificuldade de um atleta. Encostado a um pinheiro, em clara dificuldade, vomita toda a água que ingeriu durante a prova. Apesar de também eu sentir algumas náuseas, vou resistindo a semelhante fim. A escassos 2 quilómetros da meta, abandono o sobe e desce da mata, e entro na ciclovia.
 
Fase final da corrida, antes da entrada na ciclovia.

     A partir de agora é  trotar, em terreno plano, até á tão ansiada meta. Sou ainda abordado por um atleta que me pede uma perna emprestada para chegar ao fim. Deixo de trotar e caminho algumas centenas de metros a seu lado. Conversamos um pouco, mas a partir do momento em que recomeço a correr, ele não consegue conciliar a corrida e  a conversa. Está em claras dificuldades físicas.
      Últimos metros. O momento mais desejado está a escassos 300 metros. Mas antes, tempo para a melhor das surpresas. Para o melhor dos momentos.  A minha fã número um, ao lado do meu irmão,  aplaude-me. Apanhou-me de surpresa. Não resisto, e porque ela o merece, dirijo-me á minha mãe e dispenso-lhe dois beijos. Só por este momento, valeu todo o sofrimento de 4h31'. Faço os restantes metros eufórico, mas a chegada á meta é dececionante. Não há público, não consigo terminar junto da Helena como prometido, e o tempo final não é o que estava á espera.

Já esta. Mais um desafio superado.

     E porque comigo, as dificuldades das grandes corridas não terminam após a chegada á linha de meta, as horas seguintes foram angustiantes e de grande sofrimento. Foram largas horas sem conseguir ingerir líquidos nem sólidos, e a vomitar tudo o que bebi, e o que não bebi.
      Uma nota para a organização. Estiveram quase perfeitos. Grande acompanhamento dos voluntários ao longo da prova. Número de abastecimentos ideal. O percurso apesar de duro e difícil, é belo e agradável. Não me posso pronunciar sobre o almoço convívio porque não estava presente.

P.S. Depois de abandonar a Helena, e de a organização ter chamado uma ambulância, ela recuperou e terminou a prova apenas 26 minutos depois de mim.

    Para a estatística:

    Trail número 1
    Distância: 34 km
    Tempo líquido:4h31'30'' ( a 1h34' do vencedor)
    Classificação masculinos: 60 (79)